O andarilho curioso que se propuser a passear pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, no maravilhoso ano do nosso senhor de dois mil e nove, deve se congratular por poder vivenciar o ambiente em uma época tão interessante. Após se preparar devidamente para o passeio, os homens escondendo qualquer traço visível de coisas caras em seu poder, como laptops ou blackberrys; e as mulheres com as bolsas devidamente fechadas e coladas ao corpo, com sandálias de salto grosso e baixo (tendo em vista o grande potencial de buracos nas ruas, com especial atenção à rua da tradicional Confeitaria Colombo, a Gonçalves Dias, rainha dos tropeços das moçoilas desavisadas, que desabam como árvores nas calçadas, após o salto agulha prender-se no piso de pedrinhas portuguesas quebradas), o visitante pode, apesar do risco sempre presente de ter suas posses materiais diminuídas, devido ao alto índice de larápios na região, contar com momentos bem agradáveis.
Partindo da praça XV, onde a família imperial portuguesa chegou ao Brasil em 1808, o andarilho pode descansar naquele chafariz maltratado que fica entre as barcas para Niterói, e a rua Primeiro de Março. Se não houver nenhum mendigo dormindo lá, o andarilho poderá ter uma visão privilegiada da antiga rua Direita, atual rua Primeiro de Março, caminho predileto para os que quisessem comprar escravos nos séculos XVII e XVIII (parênteses não confirmado: um professor de história da UFRJ, não lembro o nome, mencionou que a rua Direita foi a primeira a ter numeração, no Rio. Não sei se isso é verdade.) Sentado de frente para a rua Primeiro de Março, no batente do chafariz, o curioso poderá olhar à sua direita e admirar o Arco do Teles, antiga estrutura que era o ponto principal do antigo mercado de escravos do centro do Rio. O arco foi a única coisa que sobreviveu ao incêndio do mercado (não me pergunte em que ano, nunca fui boa com datas), e agora abriga inferninhos, pés-sujos e barzinhos aprazíveis para os que têm a falta de sorte de trabalhar de nove às seis, os chamados não-milionários (parênteses: na Rua do Mercado, localizada ao lado do Arco do Teles, temos o “Dito e Feito”, que se não me engano ainda tem Clube das Mulheres às terças-feiras, com Go-Go Boys esforçados, dançando em seus ferrinhos).
Levantando-se do batente do chafariz, pode se admirar à esquerda o prédio do Paço Imperial, que foi residência de governadores e vice-reis, e do próprio rei de Portugal Don João VI quando chegou ao Brasil, e agora é centro cultural, livraria e abrigo de um dos cafés mais caros do centro do Rio. Após ficar chocado com os preços daquela lanchonete metida à besta, onde uma água pode custar quatro reais, o curioso andarilho pode atravessar a Primeiro de Março com todo o cuidado, olhando para os lados devido ao intenso trânsito de ônibus e taxistas, que não sabem dirigir e atropelam com gosto os desavisados.
Aqui também a atenção deve ser redobrada devido aos moleques que roubam celular (lembro do meu Neo da Nokia sendo arrancado de minhas mãos por um inclemente trombadinha exatamente naquele trecho, há alguns anos). Mas se o visitante escapar desse percalço, pode atravessar a rua e andar um pouco mais à direita, até chegar à rua do Ouvidor. No século XIX, era a rua das modas francesas, onde as senhorinhas vinham ver os últimos modelitos de Paris. Hoje podemos ver que o comércio ainda é forte na rua, mas as modas das senhoras fica mais concentrada para o lado de lá da rua do Ouvidor, depois do cruzamento com a avenida Rio Branco.
Os modelitos de Paris devem se retorcer em seu túmulo ao verem que, ocupando seu antigo lugar no ambiente da alta-costura da moda, estão agora todas as lojas de departamento mais baratas do planeta, oferecendo a “última moda”, mas em outro contexto: é a moda em que as mulheres pagam os últimos trocados, com os últimos rescaldos do pagamento do mês, só para dizer que compraram uma coisinha (parênteses: atenção para a Top Fashion, loja que tem blusas de 9,99 reais!).
Os camelôs, na Ouvidor, são inúmeros, constantes, freqüentes e não há como escapar deles. (Uma vez pisei em uma lona amarela na rua do Ouvidor, onde um vendedor ia colocar seu material, um monte de bolsas falsificadas com as marcas “Luisa Vitton”, ou “Brada”. O homem ficou furioso e berrou comigo, mandando que eu afastasse meus pés da loja dele)
Ao término da rua do Ouvidor, nos deparamos com o Largo de São Francisco de Paula, um dos mais antigos ambientes urbanos do Rio. Conta-se que, no século XVIII, foram dados os primeiros passos para a construção de uma nova catedral no Rio, mas a construção parou no meio, somente os alicerces realizados. Esses alicerces foram aproveitados para a construção da Academia Real Militar e da Escola Politécnica, no centro do Largo.
Hoje, o Largo de São Francisco é um dos maiores abrigos para população de rua, e possui um cheiro perpétuo de fezes, urina, churros e camarão frito, esses dois últimos vendidos em barraquinhas no final da Ouvidor. Há um bando de cachorros também, e mendigos cuja razão mental já foi abandonada de suas respectivas cacholas. Uma ressalva: nunca fui assaltada nesse trecho. Corre à boca pequena um boato de que a Polícia deixaria a população de rua se instalar naquele ponto com a condição que nenhum estudante ou transeunte fosse assaltado nesse trecho.
Já o antigo prédio da Academia Real Militar é o encantador Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) onde estudo História à noite, e sou agraciada com momentos como quando o elevador quebra por meses e sou obrigada a subir quatro lances de escada em espiral para assistir às aulas; ou então fritar de calor em ambientes onde não há ventilação, nem ventiladores, no tórrido verão do Rio; ou receber pingos de chuva na cabeça devido a algum buraco no teto, nas noites de temporal.
Mas isso não é tudo. Entrando pela rua à esquerda do IFCS, mantendo sempre à esquerda, chegamos à Praça Tiradentes, onde o mártir da Inconfidência Mineira conheceu seu fim. Hoje a praça é rodeada de pontos finais de ônibus diversos, onde filas homéricas de trabalhadores que moram nas zonas oeste e norte aguardam a saída de seu transporte, um veículo a cada hora, e se amontoam em meio aos pontos fixos de travestis e prostitutas que ganham seu pão naquele ambiente.
Acredito que os lugares, assim como as pessoas, possuem alma própria. Vejo, hoje, muito do centro do Rio com certa atenção e cuidado. Pois cada vez mais sinto a personalidade desse trecho tão interessante da cidade se esvair gradativamente, sem chance de recuperação...
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
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Eu sempre me perco no centro do Rio. São tantos buracos e tanta gente naquelas ruazinhas estreitas que mal vejo o nome nas placas de rua. Isso é um problema. Vira e mexe encontro um ou outro prédio bonito, antigão, que penso em voltar depois, com calma, para apreciar melhor a arquitetura ... e nunca mais encontro. Também é comum achar lojinhas com roupas transadas e preços baratinhos (mas que não dá pra visitar antes de uma pauta ou reunião, já pensou chegar cheia de pacotes) e que depois não acho mais. Esse centro é um labirinto. Principalmente porque tem carioca (pasme!) que nao sabe dar orientação certa para os visitantes.
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