Fui devolver uma fita ontem (sim, eu sei que o VHS acabou. Mas para mim, filme em locadora sempre vai ser fita, mesmo que seja armazenado em um super CD high tech), depois do trabalho, e olhava com interesse para as prateleiras, sedenta por novas tramas (acabei pegando “Disque BUtterfield 8” com Elizabeth Taylor. Muito bom...). Até que minha atenção foi atraída por uma gostosa conversa entre duas mulheres e o atendente, que conversavam sobre as divas do cinema, enquanto assistiam várias e várias vezes uma das incontáveis cenas de escada de Vivien Leigh como Scarlett O’Hara em “O Vento Levou” (sério, na boa: quantas cenas de escada tem esse filme? Lembrei de cabeça de umas quatro, pelo menos. Acho que a escada era praticamente um ator coadjuvante). Foi mais ou menos assim:
O ATENDENTE: “Olha o vestidoooo! O vestidooo”
MULHER NÚMERO UM: “Gente, na próxima encarnação quero renascer como vestido de Scarlet!”
MULHER NÚMERO 2: “Por quê ela se inclina dessa maneira?”
O ATENDENDENTE: “Para ficar longe do mau-hálito, bitch. A boca do Clark Gable tinha cheiro de esgoto, é o que diziam”
MULHER NÚMERO 2: “POR QUÊ a gente não se veste mais assim? Eu quero um vestido da Scarlet!”
O ATENDENTE: “Ficou louca? Nesse calor do Rio?
MULHER NÚMERO 2: “Nada a ver, o sul dos Estados Unidos também era quente...”
O ATENDENTE: “A-COR-DA bitch! Isso é um filmee! Se fosse vida real esse vestido estaria com duas rodelas de suor nos suvacos da Scarlett”
Sorri de forma compreensiva, meio sem querer. Na verdade, eu entendi o que a mulher número dois falou. Quando eu era criança, via filmes antigos na tevê aberta e não entendia porque as mulheres não se vestiam mais daquela maneira. Era tudo tão bonito, feminino, cheio de glamour...
Lembrei da conversa hoje, quando voltava, acompanhada de algumas amigas, para o trabalho após o almoço, para o segundo round. Uma mulher desconhecida passou pelo meu grupo, e todas nós fizemos um silêncio avaliativo, tentando absorver a quantidade de informações que havia naquela pessoa. Era uma mulher nem bonita, nem feia, mas o que vestia chamaria atenção de qualquer um que tivesse olhos para ver: trajava um vestido meio roxo, meio oncinha, onde a parte de cima, do busto, era complementada com uns pontos brilhantes básicos, cujo tecido não consegui identificar. Usava como acessórios uma bolsa verde escura com alças douradas e um sapato de salto fino, agulha, também meio roxo, meio oncinha.
“Oh!”, suspirou minha amiga ao lado. “Meu Deus...!”
“Ela vai trabalhar ASSIM?” disse outra amiga.
“Claro que é uma roupa de trabalho”, rebati, acrescentando que só gringos vão ao centro da cidade por diversão.
“Mas não faz o menor sentido! Ela não tem espelho em casa?”, disse a terceira amiga, que ainda não havia falado nada.
Embora tudo fosse de gosto duvidoso e, sinceramente, não muito bonito em uma avaliação pessoal, admirei a coragem daquela mulher. Ela estava tentando ser feminina de todas as formas que seus adereços permitissem. Gosto quando uma mulher se preocupa em se vestir como uma mulher, e não tem medo de usar os recursos visuais que os ditames sociais nos impuseram. Às vezes acho que, por um desejo de nos equiparamos aos homens, acabamos optando por peças de vestuário sóbrias demais, que nos aproximam mais da moda masculina. É o caso dos terninhos, por exemplo. (parênteses: essa perspectiva é completa e totalmente pessoal. Odeio terninhos. Não sei se os odeio ou se eles me odeiam. Nunca encontrei um que me servisse bem)
É uma avaliação sexista, e nada feminista, creio. Mas como ainda temos liberdade de expressão (enquanto a China não domina o mundo...) ouso dizer que nada veste melhor uma mulher do que um vestido.
Mas é claro, há vestidos e vestidos. Como diria Coco Chanel, “vista-se mal e notarão a roupa. Vista-se bem e notarão a mulher”.
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P.S. – Mostrei para um amigo, homem, o que tinha escrito. Ele suspirou e comentou que “nada era mais ferino do que língua de mulher, falando da roupa de outra mulher...”
quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009
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