Uma das coisas mais chatas é entrar no metrô sem um livrinho, ou um MP3 pra ouvir música, e assim passar o tempo. Porque, quando se entra no metrô completamente desarmada, como eu faço às vezes, a única coisa a se fazer durante a viagem é observar a cara dos outros passageiros.
Foi o que aconteceu comigo hoje de manhã.
Soube, desde o primeiro momento em que comecei a observar o homem e a mulher, que eram um casal. Porque, apesar de se posicionarem lado a lado, sem se tocar, um invadia inadvertidamente o “espaço” do outro. Próximos. Fisicamente, próximos, sabe? E nenhum dos dois aparentava algum incômodo com isso.
Mas eles não se falavam. Era estranho, porque além da ausência de palavras, também não se tocavam. Os olhares também não se cruzavam; ele estava mais ou menos de frente para mim, e ela, de lado. Os dois com a visão fixa em um horizonte imaginário, daqueles que só existem dentro da cabeça das pessoas. Ambos mergulhados, absorvidos em suas próprias almas, seus pensamentos.
De repente, o homem vira um pouco a cabeça e olha a mulher. Ela continua olhando para o outro lado. E ele se aproxima e dá um beijo de leve, na bochecha. A mulher, ainda olhando para o horizonte dentro dela mesma, limpa lentamente, com as costas da mão, o beijo que fora depositado em seu rosto.
O homem continua a olhar para a frente, em direção ao seu próprio horizonte, e eu não consegui deixar de sentir um pouco de pena. Ok, eu não conheço o casal, e não faço a mínima idéia do que ocorreu entre eles. Mas achei a cena tão forte, ela limpando o beijo dele vagarosamente, para deixar bem claro que não queria que o rosto permanecesse com qualquer impressão dos lábios dele.
Acho que o pior foi ela fazer isso no metrô. Porque a cena ficou visível para fofoqueiros curiosos de plantão como eu, que estavam por perto. Após alguns momentos observando ainda o casal, o homem notou que eu estava olhando na direção deles, me encarou, e depois desviou o olhar. Ele provavelmente percebeu que, se eu estava com a atenção voltada para eles há algum tempo, deveria ter visto o que ela fez.
Sinceramente? Aquele cara deve ter feito uma besteira enorme para ela ter feito aquilo. Sempre achei que, uma das coisas mais fortes que você pode fazer para ofender a pessoa amada é “limpar” beijos com a mão. Ora, não digo o gesto feito por alguma criança, incomodada devido a algum beijo babado, dado por um coleguinha do jardim de infância. Mas limpar um beijo de adulto, cometido por um adulto, em outro adulto: é muito expressivo. Mais do que raiva, há um toque forte de desprezo, nessa atitude.
O homem virou-se novamente para a mulher, e falou alguma coisa com ela, bem baixinho, sussurrando em seu ouvido. Mas ela permaneceu calada, e ainda não encarando o olhar dele.
Quando os dois saíram do metrô, na mesma estação em que eu deveria saltar, caminhavam lado a lado, ainda sem se tocar. Antes de subir na escada rolante, ele ainda tentou pegar a mão dela. Foi repelido com rapidez pelo gesto impaciente da mulher, que afastou-se um pouco dele.
Derrotado, o homem seguiu atrás dela, enquanto a mulher apressava o passo, indo em direção à escada rolante. Após uma enxurrada de novos transeuntes, que também desceram na mesma plataforma, minha visão foi obstruída. Não os vi mais.
Ai-ai...pode parecer loucura, depois de um relato desses. Mas depois de ter presenciado aquilo, meio que senti saudades de ser parte de um casal. Acho que, quando se está junto com alguém, é como comer pizza: mesmo quando é ruim, é bom...
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