sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Propaganda, que saudade!

Ontem estava lembrando com uma amiga das propagandas bacanas com as quais fomos agraciadas durante a programação da televisão aberta nas décadas de 80 e de 90. Foi tanta coisa boa que surgiu em apenas cinco minutos de conversa, que a minha companheira suspirou e disse: “Poxa, naquele tempo televisão era tão bom que até o comercial era show...”

Entre as mais lembradas estavam a do guaraná Antartica, no início da década de 90; a da piscina Tone; a da bala de leite Kids; e a do lápis Faber-Castell. Enquanto minha amiga lembrava mais das do guaraná, cujos títulos eram “pipoca com guaraná” e “pizza com guaraná” (lembram? Tinha uns jingles bem bacanas, e a pipoca e a pizza que apareciam eram absolutamente maravilhosas, dava vontade de devorar a televisão, de tão gostosas que pareciam), eu me peguei com muitas saudades do comercial da Faber-Castell. Não porque eu gostasse do lápis; aliás, para mim, lápis, qualquer um mesmo, nem ligo. Mas é que a propaganda trazia a música de Toquinho, “Aquarela”, como tema principal. Ao mesmo tempo em que as palavras da música surgiam, a imagem do que a canção cantava era desenhada no papel. (para os novinhos que não se lembram: quando começa o verso, “numa folha qualquer eu desenho um sol amarelo” surgia um sol amarelo em uma folha branca, desenhado por um lápis com uma mão de um ânonimo segurando. E por assim vai, durante toda a música).

Ficava louca com esse comercial. Às vezes esperava a hora do intervalo dos programas mais assistidos para esperar pela propaganda, e quando ela ia ao ar ficava cantando, de olhos vidrados na televisão. Adorava quando a música dizia que “o futuro é uma astronave que tentamos pilotar” e eu ficava imaginando como seria entrar na nave desenhada no papel...

Na verdade, o que me atraía realmente na propaganda era o seu tom de esperança. Eu era criança na época em que ela passava; creio que esse comercial da Faber-Castell, a primeira versão, era da década de 80. Tinha a impressão que, toda a vez que eu o assistia, o mundo parecia ser um lugar onde todas as coisas iam dar certo; e a promessa de uma vida melhor não era algo impossível, e sim ao alcance de qualquer pessoa.

Para mim, a combinação da música de Toquinho com os desenhos do lápis da Faber-Castell tinha um raro tom de alegria e simplicidade – algo que não vejo, ultimamente, em nenhum comercial da atualidade.

Hoje, comentei com um amigo pelo MSN sobre isso, e a falta que sinto das propagandas antigas, quando ele abanou a cabeça de sua carinha amarela virtual e comentou: “O que seria do passado sem o saudosismo?”

A Causa

Vi um filme ontem “O Grupo Baader Meinhof” que me incomodou. A história trata da formação e desenvolvimento da Facção Exército Vermelho (em alemão, Rote Armee Fraktion ou RAF), grupo de terroristas da Alemanha Ocidental, do ano de 1968 em diante. Os integrantes do grupo lutavam contra o capitalismo, guerra do Vietnã, avanço do imperialismo americano e das ditaduras na América Latina, entre outros tópicos. O fato de ser sobre terrorismo não era o que me deixava encafifada; o que realmente deixou um friozinho no estômago foi perceber que os anos de formação e ascensão da RAF eram permeados de causas por todos os lados, assim como de pessoas que não se reconheciam por suas nacionalidades, e sim pelas idéias que defendiam. Tentei enxergar algo parecido nos dias de hoje, sem sucesso.

Por exemplo, no filme, a maioria dos personagens eram alemães, mas não eram assim que se auto-identificavam, e sim como comunistas; simpatizantes da causa palestina; lutadores contra o capitalismo. Isso levava a consequências interessantes, como a parceria próxima entre núcleos de terrorismo na Alemanha e guerrilhas árabes na Jordânia; e a frases como a de uma personagem assegurando a seu namorado que a delimitação geográfica da Alemanha Ocidental era apenas mais uma frente na guerra em que todos estavam envolvidos: de um lado, os capitalistas e neo-liberais; do outro, comunistas, marxistas, anarquistas e socialistas.

Como uma época pôde ser tão rica em causas a defender? E ao mesmo tempo, como o nosso período atual tornou-se um cenário tão pobre em lutas sociais? É claro, ainda temos guerra; sempre teremos a guerra. Mas onde estão os jovens e trabalhadores com o povo nas ruas, lutando por um mundo melhor em cada esquina?

Trabalho no centro do Rio de Janeiro. Quem passa por essa área sabe que é uma região conhecida por abrigar passeatas de todos os tipos. Os protestos são sempre liderados por alguém berrando um megafone; e vários apitos e gritos de protesto entre os integrantes do grupo podem ser ouvidos. Isso pelo menos não mudou; a maneira de se protestar. A reação do establishment e do povo às manifestações é que é, hoje, completamente diferente. Os protestos são guiados e apoiados pela Polícia, que fecha as ruas para melhor evolução dos manifestantes;e o povo acompanha com os olhos, apático, o desenrolar do protesto, às vezes reclamando sobre como aquilo “atrapalha o trânsito”.

Vemos aqueles que estão nas passeatas à distância. Não sentimos nenhum tipo de simpatia às causas que não nos afetam diretamente. E observamos os protestos nas ruas, agora, da mesma maneira que os mantenedores do status quo: como um adulto que observa com indulgência uma criança a brincar de com suas peças Lego, a construir uma coisa, qualquer coisa. A criança acha que pode construir uma casa, um palácio; o adulto sabe que aquilo é apenas uma forma disforme, que pode ser destruída a um simples toque seu, se assim decidir.

Não há hoje uma única causa que nos una, a todos, como seres humanos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Na pista de dança

Como qualquer grande cidade, o Rio de Janeiro tem várias opções para se jogar na pista de dança. Se o freguês prefere rock, temos a Bukoswki em Botafogo ou o Empório em Ipanema; se prefere dança de salão, tem o Democráticos na Lapa; se tem preferência por samba ou soul, shows bacanas ocorrem no Estrela da Lapa ou no Rio Scenarium, ambos na Lapa; ou então no Cinemathéque, em Botafogo. Quem ainda busca pela dupla MPB + pegação, que estava muito em voga na década de 90, pode sempre dançar no primeiro andar do Lapa 40º Graus. Ou então, para os maníaco-depressivos, curtir música pop trash em uma pista de dança completamente derrota total no Buxixo na praça Vanhargen, na Tijuca, também pode ser uma opção.

Sempre encarei a pista de dança como muita seriedade. Para mim, é uma das atividades mais ricas que nós, como seres humanos, podemos participar. Veja bem, não é somente porque eu gosto de dançar, que eu danço. É porque nós somos os únicos mamíferos que dançam espontaneamente. Acho isso o máximo, sempre achei.

Na minha modesta opinião, a pista de dança para mim é um altar onde rezo meu prazer.

É claro que há seus percalços. Nem sempre nesses lugares que mencionei há espaço físico adequado para se dançar “espalhadamente”, que é a minha maneira favorita de chacoalhar. Você fica sujeito a esbarrar nas pessoas, sem querer. Isso acontece.

Mas nem todo mundo encara dessa maneira. Dia desses na Bukowski, estava dançando com uma amiga na pista, que estava lotada. Como o set list do DJ estava muito bom, comecei a me empolgar e me “espalhar” mais do que devia. Devo ter acertado alguma parte do corpo da menina que estava atrás de mim, que depois de um tempo começou a me empurrar sistematicamente, como se dissesse, “esse espaço é meu, você não tasca”. Nem liguei. Com a pista cheia, com gente saindo pelo ladrão, o fato de a garota achar que poderia dançar ali sem esbarrar em ninguém era engraçado.

Porém, cometi um erro. Comentei em tom de mofa com a minha amiga o que a garota “não me toques” estava fazendo, e minha companheira ficou tensa. Ela detesta qualquer tipo de barraco público e ficou com medo de que a situação descambasse para um. Assegurei a ela que não havia a menor possibilidade; que a garota poderia dar todos os empurrões que ela quisesse que eu não sairia dali, e ficaria na minha, na boa, sem brigas. Entretanto, o encanto da dança já estava quebrado. Senti que ela não estava se sentindo bem com o cenário, e sugeri que fôssemos embora.

Aquilo ficou comigo durante dias. Sair sem defender meu espaço na pista de dança; ceder ao bully e à violência de uma garota que nem sabia fazer escova no cabelo direito me fez mal.

Eu prometi para mim mesma que não cometeria o mesmo desatino novamente, e seria mais sábia e mais forte da próxima vez que tal situação ocorresse.

Uma situação similar aconteceu na semana passada, e quis o destino que fosse no mesmo lugar da primeira situação. De novo, uma garota que simplesmente não aceitava ser tocada/esbarrada na pista de dança pequenina da Bukoswki (parênteses: o engraçado é que isso só ocorre com mulheres. Homens não estão nem aí para esbarrões na pista de dança) aparentemente jogou parte de uma bebida com gelo nas minhas costas. A princípio pensei que fosse acidente, mas o mesmo ato repetiu-se uma segunda e uma terceira vez. Como estava acompanhada com a mesma amiga que detesta barraco, não disse nada para não assustá-la. Felizmente naquela noite estava usando salto. E não qualquer salto: um salto plataforma, de madeira, poderoso e pesado. Então, como diria o Chaves, “sem querer querendo” ousei em mais um passo de dança e dei um enorme pisão no pé da garota, que provavelmente viu estrelas.

Se ela tivesse reclamado, eu teria pedido mil desculpas. E pisado no pé dela de novo, naturalmente. E não sairia do meu lugar nem se todos os anjos mais Jesus Cristo aparecessem na pista da Bukoswki. Porque o importante, caros amigos, ao dançar, não é brigar, e sim não perder o lugar.

Graças ao inventor da plataforma, a pisada surtiu o efeito desejado e a garota acabou se mudando de lugar. Achei ótimo. Continuei a chacoalhar o esqueleto quase a noite inteira, pensando em como era bom dançar, dançar,dançar...

Mais tarde contei a história para a amiga que me acompanhava naquela noite, e ela, é claro, ficou horrorizada. Tranquilizei-a com a frase: “Não vai acontecer de novo. Se acontecer, você não saberá. Afinal, pista de dança não é guerra, é estratégia”.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Um dia de fúria

Dia desses estava lembrando um filme antigo com o Michael Douglas, “Um dia de Fúria”, com alguns amigos. A história é sensacional: um cara divorciado, com uma filha, recentemente demitido, fica preso em um trânsito infernal. Isso em Miami, acho. Quando ele está lá, naquele carro horroroso, em um sol infernal, moscas pousando no rosto dele, um calor hediondo, ocorre uma espécie de epifania dentro dele. O cara simplesmente percebe que ele não tem mais que aturar aquilo. Desce do carro e abandona o veículo na estrada.

Porém, uma das coisas que mais me entristece nesse filme é o final. É que, a partir de uma idéia super original, de um homem comum, com desejos similares aos de qualquer um de nós, que simplesmente partiu para cima da sociedade, o filme acaba desviando para uma trama completamente banal, de polícia atrás de bandido. E o fim da película transmite isso.

Mas para mim, a idéia, a premissa, a faísca que fez com o que o Michael Douglas saísse do carro naquele tremendo engarrafamento é genial. Porque todos nós, pelo menos uma vez na vida, já passamos por um momento desses, ou pelo menos no limiar dele.

Esse preâmbulo todo foi só para comentar que lembrei, ontem, de um dia de fúria que tive, há alguns anos em São Paulo. Quando tinha 20 e poucos anos, meus acessos de fúria eram quase tão freqüentes e certos quanto as crises de gripe no inverno (hoje me orgulho de dizer que tenho um acesso de fúria a cada dois anos...pretendo melhorar esse número). Naquela época, tinha acabado de me mudar para São Paulo e não conhecia a cidade. Uma tarde, marquei de me encontrar com dois amigos no shopping Ibirapuera e não sabia o caminho da minha casa, em Campo Belo, até o shopping.

Assim sendo, fui para o ponto de ônibus e pedi informação. Me indicaram um ônibus, ele passou, eu entrei. Conforme o veículo avançava, pude notar que o caminho ficava cada vez mais inóspito, as ruas cada vez mais estreitas. Fiquei desconfiada e perguntei para o motorista. Ele disse que eu havia pego o ônibus errado e estava na direção completamente oposta a do shopping. Desci no próximo ponto, irritada. Estava começando a achar que ia chegar atrasada para encontrar os meus amigos, sendo que marcamos de ver um filme naquele dia, “Gladiador” com o Russel Crowe.

No ponto de ônibus pedi informação e me indicaram outro ônibus. Entrei nele. Passou vinte minutos, meia-hora, quarenta minutos. A atmosfera cada vez mais inóspita me fez desconfiar mais uma vez de algo que confirmei com o motorista ao perguntar sobre o caminho que fazia: eu, novamente, tomara o ônibus errado, e estava mais longe ainda do shopping.

A essa altura, eu só pensava em não perder a sessão de cinema. Minha sorte é que eu tinha saído muito cedo de casa para encontrar com meus amigos (e gastei todo o tempo extra zanzando perdida por São Paulo), então havia chance de conseguir pegar uma sessão cedo, ainda naquele dia.

O motorista, solícito, falou que o melhor era ir até o terminal capelinha, destino final do ônibus e de lá pegar um lotação para o shopping Ibirapuera. Ele disse que não tinha erro, tinha a plaquinha no vidro do ônibus, com os dizeres “shopping Ibirapuera”. E eu sempre podia perguntar para o motorista e para o trocador, e saber se o veículo passaria mesmo onde eu queria ir.

Bom, não sei se todos vocês estão familiarizados com a localização do terminal capelinha. É no Capão Redondo, uma das regiões mais pobrinhas, tristes e feias da capital. Ao me encaminhar para o ônibus que me deixaria finalmente para o shopping, atravessei uma passarela totalmente detonada. Enquanto passava por essa via insalubre, senti que alguém agarrava minha bolsa com vontade, puxando ela do meu ombro. Não sou muito rápida para sacar as coisas, mas naquele momento, consegui captar com rapidez o que estava acontecendo, e o seguinte pensamento me passou pela cabeça: “alguém está tentando me assaltar”.

Então, tudo explodiu dentro da minha cabeça. O fato de eu ter recebido informações erradas duas vezes; ter parado em um terminal rodoviário em um fim de mundo, aliado ao fato de que, nesse dia, alguém ainda tentava me assaltar, ferveu no meu cérebro. Com toda a minha força puxei a bolsa de volta; a alça arrebentou e eu vi a cara do moleque que tentava me assaltar; um frangote de 16 anos. E o que ele viu no meu rosto deve tê-lo assustado um pouco, porque ele hesitou, por dois segundos. Esse tempo foi suficiente para que eu agarrasse completamente a bolsa de volta; metesse um soco de mão fechada no ombro do garoto franzino e ainda berrar com ele, a plenos pulmões, como se tivesse um demônio governando meu corpo:

“Tá-pensando-o-quêêê!!!!!!! Seu *&*$%#@ de uma figa, filho de uma égua sem mãe deslavada (parênteses: os insultos cearenses são os melhores). Ninguém me assalta hoje! ENTENDEU? NINGUÉM!”

O cara correu e eu ainda corri atrás dele, querendo bater no desgraçado. Depois, quando vi o meu ônibus com os dizeres “shopping Ibirapuera” parado no ponto, desisti da perseguição. Mas meu rosto devia estar mostrando uma fúria assassina, porque passei por uma mãe e uma criança de uns três anos que, assustada com a minha cara, começou a chorar e se escondeu atrás de sua genitora.

Felizmente consegui pegar o ônibus e chegar a tempo de ver o filme. Ao contar o que tinha acontecido para meus colegas, eles fizeram o que os amigos fazem nessas horas: gargalharam à vontade, como se não houvesse amanhã. E um deles comentou: “poxa, quem foi o Gladiador hoje não foi o Russel, foi você!”.

Maquiagem

É mais ou menos de conhecimento do público feminino que as mulheres européias e norte-americanas usam mais maquiagem no dia-a-dia do que as brasileiras. Mas ter esse conhecimento, e visualizar esse conhecimento, comprová-lo com os olhos, são duas coisas bem diferentes. Tive a oportunidade de ir para a Grécia e para a Espanha recentemente, e posso dizer com certeza que daria para pintar um quadro do tamanho de Guernica do Picasso com o tanto de tinta que as européias jogam no rosto.

Não me levem a mal, eu amo maquiagem. Uso todos os dias lápis e batom, religiosamente, com direito a retoques oficiais na hora de escovar os dentes após o almoço. Mas creio que há maquiagens e há maquiagens; e como diria minha mãe, há uma hora certa para tudo. E não vejo como você se maquiar como uma coadjuvante de “Priscila, a Rainha do Deserto” às oito da matina em um metrô pode ajudar a elevar seu padrão de beleza.

Em primeiro lugar, pelo que pude entender por meio de observações acuradas, não existe esse negócio de maquiagem leve no verão. Na verdade, não existe maquiagem leve na Europa, da forma como a conhecemos aqui. Sair de manhã para trabalhar apenas com lápis e batom não é opção para as européias, principalmente as gregas. Você precisa estar de sobrancelhas pintadas; sombra; rimmel; lápis; blush; base líquida e batom com cor forte. Isso tudo com os relógios marcando temperaturas próximas a 40 graus Celsius! Graças ao ar seco no continente europeu, em particular em Atenas, é possível sair com tudo isso na cara sem ficar toda melecada no rosto e parecer o Coringa do Heath Ledger ao final do dia.

Até aqui, ok, eu entendo, elas gostam de se maquiar, de maquiagem, devem ter brincado muito de Barbie Face quando crianças (parênteses: lembram da Barbie Face? Meu sonho de consumo quando era mais nova...eu não tinha o brinquedo, mas fiz amizade com uma garota chata no meu prédio em Inhaúma, só para brincar com a Barbie Face dela...). Muito bem, cada um com seu cada um.

Mas imaginem toda a maquiagem possível em uma mulher que não está no metrô, indo para o trabalho às oito da matina, e sim na PRAIA? Sentiu o drama?

Vocês vão me dizer, oras, tem make-up water proof, todo mundo sabe disso, yata-yata-yata. Entretanto, tenho que dizer uma coisinha para vocês, amigos leitores: nem todo mundo tem grana para maquiagem a prova d’água, que lá nas ôropa é quase tão caro quanto aqui.

A prova disso se deu durante um mergulho enquanto estava na praia de Elia, na ilha de Mykonos. Enquanto ficava nadando de um lado para o outro naquela aguinha azul limpinha e geladinha fui surpreendida por um guaxinim vindo na minha direção. Ora, guaxinins não nadam, pensei eu distraidamente (parênteses: nadam? Não tenho a mínima idéia...). Cocei os olhos para ver melhor e percebi que não era um guaxinim, e sim uma moça loira, linda, com duas manchas pretas enormes ao redor dos olhos, que eram o rimmel, a sombra e o lápis que ela tinha passado no olho antes de ir para a praia. Enquanto saía da água em direção à areia, ela tentava tirar a maquiagem dos olhos com água do mar, com a ajuda de uma canga. Mas o que acabava por fazer mesmo era espalhar ainda mais o borrão preto ao redor dos olhos, ao ponto de parecer Silvester Stallone no final do filme “Rocky o Lutador”.

Acho que a maquiagem devia ressaltar nosso rosto, não escondê-lo. Temo que algumas européias, na ânsia de se tornarem mais belas, acabam construindo uma máscara com a maquiagem, que nem sempre reflete o brilho feminino que todas temos dentro de nós.

Mas é só a minha opinião, claro. (:

Assuntos Privados

Uma das coisas que mais me surpreenderam quando viajei esse ano pela primeira vez para o exterior foram os banheiros estrangeiros, e de como a localização da descarga é completamente diferente, a depender de onde você está. Em julho, estive na Grécia e na Espanha, em cinco localidades diferentes; Atenas, ilha de Mykonos, Madri, Toledo e Segóvia. E o leitor pode apostar que, em cada um desses lugares, a descarga tinha um feitio único , incomparável.

Em Atenas, o botão da descarga ficava muitas vezes no chão, bem escondidinho, tanto nos restaurantes como no aeroporto, e em alguns museus. Muito higiênico e inteligente, mas algo bem novidadeiro para uma latina-americana como eu. Para você entender a dificuldade de encontrar um botãozinho no chão, nesses momentos, deixe-me explicar uma coisa. Existe algo chamado memória tactual. Sério mesmo. Seus membros, às vezes, lembram das coisas antes de você. Então, quando se está no banheiro, precisando encontrar o botão da descarga, você pensa que é uma coisa a se fazer com as mãos, e não com os pés. Então, ‘bora perder uns cinco minutos tentando entender como a descarga poderia ser acionada? Pois é, isso aconteceu comigo lá, várias vezes. Como se parte da viagem para conhecer novos lugares também incluísse um tour pelas tecnologias avançadas dos banheiros (parênteses: o botão para acionar a torneira do lavabo também ficava no chão...)

Em Mykonos, a descarga era uma das mais inventivas: era um botão ao lado da caixa d’água que ficava em cima da privada. Nesse caso, não tive muita dificuldade para encontrar porque aproveitei o conhecimento alheio: minha amiga que viajava comigo perdeu seu tempo tentando achar o botão da descarga, e assim que descobriu, foi gentil o suficiente para me repassar tão valiosa informação. Mas em uma taverna em “Little Venice”, região agradabilíssima de restaurantes e barzinhos que ficam à beira-mar da ilha, o dono foi sensacional em sua tentativa de ser compreendido: marcou na parede várias setas até o botão, para facilitar o acesso do usuário.

Nas cidades de Madrid, Toledo e Segóvia, os botões para descarga eram discretíssimos, e completamente escondidos na caixa d’água que normalmente se posicionava acima da privada. O nojento dessa situação é que, se você não sabe onde está o botão, e não percebe em um primeiro momento, só com o olhar, a opção é ficar tateando a caixa (urc!). Alguns botões ficavam atrás da caixa d’água! Como ver isso de cara? Impossível. A única coisa boa na Espanha foi perceber que, além do Brasil, outro país também ainda tem banheiros com cordinha na caixa d´água, que nesses casos ficava sempre presa na parede, quase tocando o teto. Assim como no Brasil, o estado da cordinha, em termos de conservação e limpeza, era sempre lamentável.


Sinceramente, sem querer ser bairrista, mas acho nossas descargas melhores. Além de não ter que esperar décadas para a caixa d’água encher de novo, e assim poder acionar a descarga duas vezes seguidas, se assim preferirmos, o botãozinho na maioria das vezes é no centro da parede, bem visível e auto-explicativo. Mantenha a simplicidade, digo eu. É sempre melhor.

No ferry (em 10/07/2009)

Há dez dias estou de férias, e há cinco estou na Grécia. Ao meu redor, pessoas de diferentes nacionalidades passeiam pelo ferry boat, um grande navio dividido em várias classes, com cadeiras e cabines (óbvio que estou na econômica). Alguns dormem; outros comem. Alguns berram com os amigos, empolgados com a viagem. Outros fitam seus próximos, assim como para si mesmos com um olhar entediado, apático.

Todos se dirigem para a ilha grega de Mykonos. Alguns já vestem o biquíni por baixo das roupas, com tênis, mocassins, ou papetes nos pés. Cada um conta com uma característica em particular, todos são visualmente diferentes entre si.

Há apenas uma semelhança, que todos compartilham: o desejo de sair de onde estão, e ir para algum lugar, qualquer lugar. Assim como para os tubarões, que só respiram quando estão em movimento, ficar parado para nós, seres humanos, não é uma opção.

Subo as escadas em busca de um pedaço de sol, no convés. Encontro várias pessoas em busca do mesmo, cansadas do ar-condicionado e ansiando por algum tipo de ambiente natural. Ao longe, as ilhas cíclades observam a passagem do barco. O que acharão de nós, pergunto eu. Decerto devem considerar que somos uns loucos. "Porque querem sempre ir para outro lugar, esses humanos?' elas devem se perguntar, enquanto continuamos nossa busca frenética por algo, por alguém.
Encontro uma cadeira no convés e sento para apreciar a paisagem. Duas inglesas sentam ao meu lado. Parecem felizes com suas roupas leves e sandálias. Mas não observam a vista. Preferem conversam sobre o que farão em Mykonos.

E o sol bate em meu rosto, meus cabelos. Não sei porque, mas me sinto agradecida por esse momento. Um momento ínfimo, e ao mesmo tempo, infinito, em que não penso em nada de importante, no que vou fazer, para onde vou.

Meus pensamentos apenas giram em torno do mar, em meio às ilhas, e meditam como o sol brilha de forma magnífica no mar Egeu pela manhã.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Twittando e outros bagulhos na Internet

Não importa em quantos lugares virtuais nos escondamos: as tranqueiras sempre nos encontram.

Renovei minha presença no Twitter há uns dois meses. Já tinha senha e login do serviço há uns dois anos, mas parei de usar porque não conseguia ver utilidade em todos saberem o que estou pensando/fazendo a cada segundo. Primeiro porque não é nada interessante; depois, porque acreditava firmemente que o resto do mundo tem mais o que fazer em suas vidas. Então esse ano, surpresa-surpresa: continuo achando meus post desinteressantes; mas descobri que o resto do mundo não tem mesmo mais o que fazer, e acessa o serviço, seguindo os passos de pessoas inexpressivas como eu.

Na verdade, reencontrei meu eu-twitteiro após insistência de uma amiga. E depois renovei esforços em permanecer on-line no portal inútil porque, surpresa-surpresa: descobri uma utilidade para ele. Tenho uma grande, grande amiga que mora em outro estado e trabalha em uma empresa malvada, que bloqueia Orkut, MSN e outros serviços de mensagens instantâneas, até mesmo portais de e-mail gratuitos. Mas a empresa ainda não descobriu o Twitter! Então, uso como se fosse um MSN para me comunicar com essa amiga, e também para saber como vai a vida dela, seu dia a dia.

Todos os dias fico impressionada com o monte de senhas que tenho que lembrar para entrar em vários sites que, como dizia o Calvin, do “Calvin e Haroldo” (aquela antiga tirinha de jornais, do tempo em que as tirinhas de HQs dos jornais tinham coisas realmente engraçadas e interessantes para dizer) “nunca tinha ouvido falar e nem têm utilidade, mas preciso desesperadamente”. É Orkut, MSN, Yahoo, hotmail, e agora o Twitter, todo santo dia. E pra quê isso tudo, pergunto eu, ao mesmo tempo que persigo na Internet outras maneiras de me viciar em outros bagulhos/progamas/sites de relacionamento que pipocam todos os dias na Internet.

Acho que o avanço desses trecos nos computadores pessoais tem muito a ver com os dizeres daquela antiga propaganda, “eu-tenho-você-não-tem”. Quando todo mundo tem, e todo mundo começa a falar com o resto do mundo que não tem, o resto do mundo fica ansioso e começa a querer também. É como uma grande bola de neve, que vai gradualmente se transformando, e aumentando até alcançar proporções globais.

Outro exemplo de avanço desenfreado pela Internet é a profusão dos blogs. Todo mundo quer ter um; está em vias de ter um; ou pensa em ter um. Na pior das hipóteses, é leitor de pelo menos um blogueiro. Uma pena que, entre tantos que são escritos a todo o momento, pouquíssimos são lidos. Contamos com a ajuda de amigos, que, para não ficarem de mal com a gente, acabam realizando o sacrifício de perder um pouco de seu tempo em ler algumas mal traçadas linhas virtuais.

Essa introdução toda e lenga-lenga infindável começou a se formar na minha cachola quando descobri hoje que estou sendo seguida por “awesomeman”. Peço desculpas aos meus amigos homens, mas conheço poucos que são “awesome” e nenhum é usuário do twitter. Ao tecer esses pensamentos lógicos em minha mente, cheguei a conclusão que não conheço a figura que está me seguindo.

Entro no perfil do ilustre desconhecido e descubro que os posts dele, no twitter, na prática, não são o passo a passo histérico e cotidiano de uma vida normal de um indivíduo, e sim um monte de anúncios, um coladinho no outro, de sites que vendem desde tupperware até CDs usados.

Comentando o fato com um amigo no MSN, ele suspirou (virtualmente) e balançou a cabeça de sua carinha-amarela-padrão-de-conversa-instantânea:

“O mal nos encontra em qualquer lugar...”

terça-feira, 23 de junho de 2009

MP3

As ruas do Rio de Janeiro estão repletas de passantes com MP3 em seus ouvidos. Entre eles, esta que vos fala. Um colega de trabalho meu é radicalmente contrário ao avanço dos tocadores de música nas orelhas dos transeuntes: diz que a melhor coisa ao se passear pelo Rio é ouvir os sons da rua. Eu contra-argumento que, com os tocadores de música nos meus ouvidos, o mundo adquire uma trilha sonora particular, que só eu possuo.

Ando pela avenida Rio Branco com Roger Daltrey do The Who berrando que não será enganado novamente; passo pela rua da Assembléia com o Eddie Vedder dizendo que era apenas uma pedra, até a luz do ser amado torná-lo uma estrela; e ultrapasso os transeuntes apressados pela rua Gonçalves Dias, deliciada com Juliette Lewis contando que nunca conheceu um tolo faminto que não tivesse todo o potencial necessário para que ela pudesse vir a adorá-lo.

Gosto disso. Ao mesmo tempo que minha visão percebe os carros e pessoas em movimento ao meu redor, a música preenche os espaços percorridos, e dando a mim a saborosa impressão de que estou em um videoclipe, meu videoclipe particular.

Entretanto, ao mesmo tempo que admito minha apreciação ao hábito, não pude deixar de perceber hoje de manhã, quando passei por cerca de 20 pessoas, dez das quais estavam com MP3 nos ouvidos, que esse tocador de música pode ter uma função que, inicialmente, não se esperaria dele. Ao mesmo tempo que fornece trilha sonoras variadas para os transeuntes, o tocador de música promove um afastamento virtual, mas firme, dos indivíduos em sociedade.

É como aquela cena inicial do filme “Crash” do Paul Haggins, onde o personagem interpretado por Don Cheadle explica que, em Los Angeles, as pessoas não querem, não conseguem mais se tocar. Presas em seus próprios mundos delimitados por diferenças sociais, de religião, ou de raça, elas andam pela cidade em seus carros fechados, nas grandes rodovias, que cada vez mais ocupam espaço das calçadas onde raros passantes se atrevem a andar. Mas essa ausência do toque tem seu preço: vez ou outra, ocorre uma “colisão” entre as pessoas, que por viverem tão separadas uma das outras, presas em seu próprios nichos, acabam sentindo o tocar do outro como um “choque”.

Os MP3 nas ruas do Rio são os carros fechados das ruas de Los Angeles. Andamos em direção aos nossos destinos, ouvindo apenas o que delimitamos para nós mesmos, sem prestar atenção nos outros, tão parte integrante da humanidade como nós mesmos. E assim não ouvimos queixas; pedidos de ajuda, de dinheiro, por socorro...apenas concentrados em nossa própria música.

Hoje pela manhã, tirei os fones de ouvido e ouvi, pela primeira vez em muito tempo, os sons das ruas. Porque agora entendo que aquela manifestação sonora não era apenas “barulho”, e sim a multiplicidade dos sons dos passos de outras pessoas, que como eu, continuam a andar pelas ruas do mundo.

João do Rio

Não sei se as crônicas de João do Rio são famosas fora do Rio de Janeiro. Na verdade, não sei se ele é realmente conhecido dentro do Rio; como sou jornalista, todos os meus amigos e conhecidos do trabalho sabem quem foi o jornalista Paulo Barreto, porque aprenderam na faculdade (a mesma que não precisamos mais cursar, se quisermos exercer a profissão de repórter, de acordo com recente decisão do Supremo Tribunal Federal - STF). Mas acho que, se perguntar para os meus pais, ou para minha irmã, que não são jornalistas, se eles conhecem João do Rio, creio que uma negativa seria mais provável. Por isso,creio ser exato dizer que a data de hoje, 23 de junho, 88 anos exatos após o dia de sua morte, teve pouca ou nenhuma repercussão nos meios de comunicação, hoje.

A primeira vez que li algo dele foi na faculdade. O texto era “A alma encantadora das Ruas”, e começava de forma lindamente poética, assim:

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.”

Interessada, li mais textos dele, e fiquei fascinada com a série de reportagens sobre os cultos africanos na virada do século, no Rio de Janeiro. Na época, fiquei abismada como textos como aqueles eram publicados em um jornal. Vamos ser francos: hoje temos jornalistas, cronistas, editorialistas e colunistas. Não há, hoje, um profissional de imprensa escrita que redija matérias líricas, mas ao mesmo com dose de pesquisa e reportagem. Uma matéria poética, por assim dizer.

Acho que tenho uma queda por textos literários na imprensa, e sinto falta disso nos nossos matutinos e vespertinos. São cada vez mais raros. Não estou falando de crônicas; os cronistas ainda existem nos jornais, admito. Mas aquele tipo de texto escrito por um repórter que apurou detalhadamente o tema, mas escolhe a via do lirismo para explicar para o leitor do que ele está falando.

Creio que os textos dos jornais, em prol da imparcialidade, estão cada vez mais secos e frios. E sinto saudade de um jornal mais caloroso.

Embora nunca tenha vivido na época do João do Rio, sinto saudades dos textos dele.

Ao descrever os cordões de carnaval, João do Rio tecia pérolas como dizer que o “o cordão é o carnaval, é o último elo das religiões pagãs, é bem o conservador do sagrado dia do deboche ritual; o cordão é a nossa alma ardente, luxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas mulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, bárbara, lamentável”

Na boa: tem descrição mais acurada do que essa para se descrever um bloco carnavalesco? Acho isso mais “New Journalism” do que qualquer escrito de Gay Talese...

Ouso dizer que, quando houve o propalado avanço do jornalismo imparcial (imparcial, claro, na teoria, porque vamos e convenhamos, jornalista imparcial é como Papai Noel: você quer acreditar que ele exista, mas no fundo sabe que aquilo é invenção), não se pensou muito também no que o leitor gostaria de ter em suas mãos, folheando os jornais diários. Aposto que, entre vários textos sérios e imparciais, o adepto da leitura dos periódicos gostaria de ter pelo menos uma opção de jornalismo fora dos moldes do “imparcial”.

Um pouco de poesia não faz mal para a vida de ninguém.

No Táxi

As conversas mais bizarras que tenho na minha vida são com motoristas de táxi no Rio de Janeiro. Já tive o desprazer de discutir com uma motorista sobre o final de “Em Algum Lugar do Passado”, visto que não chegamos a um acordo se o Christopher Reeve merecia ir “pro céu” encontrar a Jane Seymour depois de sua morte (parênteses: a motorista era espírita, e dizia que Reeve, por ter se matado, tinha que ir para o limbo dos suicidas ou coisa parecida. Eu não concordei com a avaliação de que ele se matou; acho que ele ficou desesperado por saber que não ia encontrar a Jane de novo e simplesmente entrou em choque. E também não acredito em limbos para suicidas); já debati calorosamente depois do show do Pearl Jam com um motorista que se atreveu a dizer para mim, logo após o show, que “Soundgarden era melhor” (!!!); e até mesmo passei dicas de culinária para um motorista velhinho muito simpático, ensinando-o a fazer farofa cearense (parênteses: depois que terminei de ditar a receita, ele suspirou e disse, “minha filha, nem cachorro come isso”, para logo em seguida completar, diante de meu olhar indignado: “nem cachorro come porque não sobra, minha filha, de tão bom!”).

Ontem foi um daqueles dias. Quando voltava para casa, o táxi onde eu estava passou pela comitiva do presidente Lula, que estava no Rio de Janeiro e se dirigia para Copacabana. O motorista, natural do Rio Grande do Norte, quando viu aquela carreata de carros, não pôde se furtar de falar:

“Êta! Quem diria! O cara saiu lá do ‘Norte’ para ser presidente do Brasil. É porreta esse homem!”

“...”

“Olha, vou te dizer uma coisa, menina; mesmo se esse cara rouba a gente, ele merecia ser presidente, por tudo que passou. Merece sabe?”

Não pude ficar calada.

“Moço, acho que, independente da história de um homem, se ele ‘rouba’ não merece ocupar nenhum cargo público”

“Mas senhorita, veja bem: ele passou por maus bocados...”

“Concordo, mas acho que nem o senhor, nem eu, temos alguma coisa a ver com a pobre história do Lula. Isso não justifica roubo.”

“Mas senhorita, olhe só. Ele só rouba porque sabe que ser pobre é uma m... Eu também roubaria no lugar dele!”

“Moço, o senhor não entendeu o que eu disse: o que quero dizer é que, no lugar dele, não é para se ‘roubar’ ninguém, entende? Ele trabalha para nós, para o País, e não o contrário.”

“Mas menina, olha a pressão que o homem está passando. Veja meu caso, tenho seis filhos, uma mulher e uma sogra vivendo na minha casa. Se para fazer a gestão da minha casa eu corto um dobrado, imagine ele, que manda no País inteiro? Não, moça. Ele é só um ser humano, pode roubar sim, se quiser.”

“Sim, ele pode. O que estou dizendo é que ele não deve.”

“Ah, a senhorita ainda é jovem, não sabe o que é administrar uma casa. Nem sempre o que se deve a gente faz...eu por exemplo alimento minha família com o táxi a noite, e trabalho como motorista de madame de dia. E eu adoro salame, sabe?

“Sei...(?!)”

“Mas todo mundo gosta de salame lá em casa. E salame é caro. Então, o que faço? Eu compro salame escondido e como o salame no carro. Está certo, sei que é pecado esconder comida, mas poxa! Eu sou aquele que administra a casa não é? Não tenho direito a um salame inteiro?”

“A-ham. Moço, pode parar por aqui, por favor? Esquerda.”

“Está certo, está certo: a moça não gosta de quem esconde comida, já deu para perceber. Mas te digo uma coisa, a senhorita é jovem, vai lembrar disso depois: ninguém está a salvo de ser ladrão. Todo mundo já roubou alguma coisa na vida, seja material ou não...”

“É verdade, é verdade. Boa noite para o senhor, bom trabalho!”

Saí do taxi pensando como se pode começar uma conversa sobre ser presidente e terminar falando de salame. Realmente bizarro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Who?

O que acontece quando você se apaixona por uma banda que não mais existe?

Há uns dois meses, vi um documentário chamado “Amazing Journey: The Story of The Who”. Sempre tive curiosidade em conhecer mais sobre o The Who, visto que é uma das bandas prediletas de Eddie Vedder, vocalista da minha banda de coração, Pearl Jam. Porém só conhecia os “hits” da banda como “My Generation” ou “Baba O’Riley” e poucas, pouquíssimas vezes ouvi um álbum deles do início ao fim. Mas essa ausência de conhecimento profundo sobre a discografia da banda nunca foi tão fortemente lamentada quando vi, no documentário, as entrevistas antigas, as imagens de shows realizados nas décadas de 60 e 70 que me deixaram, literalmente, babando.

Quase imediatamente após ver o documentário, baixei três álbuns: Tommy, Quadrophenia e Who’s Next. Não consigo ouvir outra coisa nos últimos 60 dias. Ao ouvir Tommy, recordei que uma das minhas lembranças televisivas mais antigas refere-se ao filme sobre a ópera rock da banda, onde o vocalista do The Who, Roger Daltrey, faz o personagem principal. Eu devia ter uns 11, 12 anos e fiquei impressionadíssima com a história do garoto que era cego, surdo e mudo e adorava jogar em máquinas de pinball. A trama era tão bizarra; o filme era tão absurdamente colorido que eu fiquei até de madrugada (eu tinha essa mania, saía do quarto quando todos estavam dormindo, ligava a televisão e ficava vendo filmes antigos que passavam nos canais da televisão aberta...) vendo (e torcendo para minha mãe não acordar, e me mandar dormir). Em Quadrophenia, fiquei absolutamente espantada: como diabos um álbum produzido em 1973 pode parecer tão incrivelmente atual? A coloração dos sons, vívida, explodia a cada música dentro de mim, de uma forma completa, maravilhosa.

Mas foi em Who’s Next que fiquei mais obcecada. Primeiro, porque o álbum já começa com Baba O’Riley. Caramba, um disco que começa com essa música já deixa todos seus contemporâneos no chinelo. “I don't need to fight/To prove I'm right/I don’t need to be forgiven” é uma frase que serve para praticamente qualquer um de nós, em algum momento de nossas vidas. Fiquei extasiada com o humor de “My Wife” onde um cara pede ajuda para escapar da esposa que vai acabar com o couro dele por não aparecer em casa “since Friday”. E “The Song is Over”...! Quão triste e final essa música é.

Agora, vou quase diariamente no “you tube” para ver imagens deles, tocando ao vivo. E quando começo a apreciar os acordes e performances, tão incríveis em vídeo, tenho vontade de voltar no tempo e ser apenas uma adolescente de 15 anos em 1973 em Londres, ou nos Estados Unidos, apenas para ver aquilo, de perto, na grade, em carne e osso.

Como é triste que somente uma, duas gerações no máximo possam ver uma banda em seu auge! Como é injusto não podermos ter o poder de congelar shows mágicos como aqueles em que eles faziam, em "garrafas sensoriais", onde pudéssemos nos meter dentro toda vez que quiséssemos sentir aquela experiência novamente?

Tenho o consolo de, pelo menos uma vez na minha vida, ter visto o Pearl Jam ao vivo. Mas ver um show do The Who, no pico de sua beleza musical, é um desejo que só poderei realizar nos meus sonhos...

Acho que os shows deles devem ter sido mágicos. Perfeitos.

Felizes aqueles que sabem reconhecer quando momentos mágicos musicais acontecem. E mais afortunados ainda aqueles que guardam isso na mente, como um tesouro.

Nada é mais raro em nossas lembranças do que um momento perfeito.

Somos todos jornalistas?

Leio nos jornais que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Após muitas piadas e debates a respeito (uma das mais inventivas que escutei foi originada da criatividade de meu pai, que me perguntou como eu me sentia agora que eu estava oficialmente sem profissão legalizada) fiquei pensando nas utilidades que poderia ter, agora, o pedaço de papel chamado diploma que se encontra lá em casa.

Na prática, podemos dizer que um pedaço de papel só vale alguma coisa desde que muitos ao mesmo tempo acreditem que ele vale algo. É o mesmo princípio do dinheiro; trocando em miúdos, aquele pedaço de celulose trabalhado e pouco higiênico (parênteses: já reparou como nos preocupamos em lavar as mãos quando saímos do banheiro, mas nem tchum quando recebemos, da mão repleta de unhas sujas e pretas de um trocador de ônibus, uma nota xexelenta de dois reais?), que guardamos em nossas carteiras não vale absolutamente nada por si só. Somos nós que damos valor a ele; é a visão da sociedade que confere àquele pólo de doenças e alergias algum tipo de significado.

O mesmo vale para o diploma. Aquele pedaço de papel tem valor apenas porque muitas pessoas ainda acreditam que ele carregue, em si, a comprovação de que um indivíduo foi razoavelmente preparado para exercer alguma profissão. É o nosso “recibo” para entrada em seletos grupos no ambiente social, nichos teoricamente mais nobres, onde o trabalho é mais valorizado por ser mais especializado e, por conseqüência, mais vantajoso financeiramente (outro parênteses: é claro que isso é só na teoria; tenho certeza que o seu Miguel que vende churrasquinho na Mallet, zona oeste do Rio, ganha muito mais do que eu...mas também, não agüentaria ficar matando gatos como ele fica, com objetivo de conseguir matéria-prima para seu trabalho).

Sem a obrigatoriedade, imagino que os jornais se sentirão mais livres para colocar um bando de advogados, astrofísicos e tocadores de harpa como colaboradores para bater matérias. Mas esse não é o ponto que me incomoda mais, e sim uma conclusão teórica a partir da decisão do STF: a idéia de que qualquer um pode ser jornalista; qualquer um pode escrever para um jornal, agência de notícias, rádio.

Orgulho ferido à parte, pergunto: será que a reprodução da notícia como a realizamos hoje é realmente assim tão fácil ao ponto de qualquer um poder executá-la? É claro que existem os blogs, e qualquer um pode escrever sobre o que quiser na Internet (vide esse veículo que é lido por vós, neste momento). Mas a estrutura das matérias a apuração, é igual a se escrever em um blog?

Acho que todos nascemos fofoqueiros. Mas nem todos são jornalistas natos.

Creio que muitos chefes de redação que estão na ativa hoje vão pensar duas vezes antes de contratar alguém que não tenha nenhuma experiência em veículos de mídia, nem tampouco diploma de jornalismo. Acho que, independente da decisão do STF, o diploma vai continuar válido sim, enquanto muitas pessoas ainda acreditarem no significado que ele carrega: a de que seu portador passou pelo menos quatro anos tentando se preparar o melhor possível para exercer a profissão de sua escolha.

Ou talvez a melhor definição para essa situação tenha sido de uma amiga, também jornalista. Durante nossa gostosa hora de almoço ontem, ao ler as notícias sobre o ocorrido, perguntei, intrigada:

“Isso significa que a gente é ilegal, agora?”

“Não”, ela respondeu. “Mas a gente é imoral. E engorda!”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Barzinho

Estava zapeando canais de noite quando parei para ver um episódio do programa “Cilada” do Multishow, sobre barzinhos, com o humorista Bruno Mazzeo. Normalmente não acho graça nesse programa, mas esse episódio me fez rir, particularmente, porque trata de um assunto que conheço muito bem: as dicas de sobrevivência em barzinhos do Rio de Janeiro.

Uma das coisas que mais me fez rir no programa foi uma cena que provavelmente todo mundo já passou, se tentou beber em grupo grande em um bar no Rio: a de pagar muito, mais muito mais do que você realmente consumiu se ficar até o fechamento da conta - visto que quase ninguém, em uma grande mesa de bar, deixa o dinheiro do que consumiu mais os 10% do serviço correspondente à casa.

Quando eu morava em São Paulo, adorava ficar até o fechamento do bar com outros “heróis da resistência”. Na época meu fígado era jovem e inocente, e eu fazia o que queria dele. Sempre era o mesmo grupo dos que encerravam a noite; e quando a conta chegava, eu já fazia os cálculos mentais de quanto teria que dar a mais para fechar a conta, sem ter que recorrer a lavar pratos. Essa distorção na conta já era tão esperada que, em uma ocasião, quando de novo fui uma das últimas a encerrar a noite junto com mais quatro amigos, quase caí da cadeira junto com meus parceiros etílicos ao descobrir que, pela primeira vez na história desse País, as pessoas que deixaram dinheiro conosco e saíram mais cedo erraram as contas “para cima” - de tal forma que nós, os últimos guerreiros da mesa, não precisamos pagar nada (???) e ainda sobrou dinheiro para uma última rodada!

Foi um momento lindo, e lembrado por mim com grande carinho, pois foi a única vez em que isso ocorreu, em todos os meus 31 anos de existência.

No Rio de Janeiro, problemas com a conta também ocorrem. Mas esse, para mim, não é o pior de se beber em barzinhos. Tenho dois tópicos os quais chamo de “kriptonita vermelha” para mim, que eu abandono qualquer verniz de civilização e fico de mau humor a noite toda: mesa em frente ao cara que toca a música ao vivo do bar (que, no programa Cilada, era um ator que só cantava músicas de Jorge Vercilo e a única música famosa do Claudio Zoli, “na madrugada a vitrola rolando um blues...”); e garçom folgado. O primeiro tópico me irrita profundamente porque o que mais gosto nessas ocasiões - além de beber, é claro - , é ficar conversando sobre bobeiras e cultura inútil com os amigos. E com o som às alturas, você precisa berrar para ser ouvido enquanto tenta entender o que o outro fala em meio a pérolas como “nada vai me fazer desistir do amor”.

Uma das últimas vezes em que fui a um bar, no centro do Rio, o Devassa na rua do Rosário, aconteceu exatamente isso: quando cheguei com um amigo para segurar uma mesa para outros que ainda chegariam, fui informada pelo gerente que só havia UMA única mesa vazia...que era em frente ao cantor da música ao vivo (parênteses: também acho super injusto pagar couvert artístico nos bares. Poxa, eu só vou a shows quando gosto da música do cara que está cantando. Porque diabos tenho que pagar alguém para cantar músicas que absolutamente eu NÃO gosto? Deveria ser inventado o couvert do silêncio, onde se pagaria para o cantor não cantar. Eu pagaria sem pensar duas vezes!).

Mas o que mais irrita, mesmo é o garçom folgado. Isso aqui no Rio de Janeiro é mais comum do que vendedor de chocolate nas esquinas da avenida Rio Branco. O garçom folgado é aquele que, só porque você já veio ao local escolhido umas duas vezes, acha que te conhece e quer escolher as coisas para você, tanto em comidas quanto em bebidas.

O seguinte diálogo surreal aconteceu comigo, noite dessas no Rio:

“A senhorita por aqui de novo! Que alegria! Quer começar a esquentar a noite com uma dose de cachaça?”

“Hoje não, obrigada....”

“Mas a senhorita SEMPRE pede uma dose de cachaça quando vem aqui...!”

(parênteses: eu estava com um grupo que englobava um “certo alguém” que eu tentava impressionar. Mas depois de uma apresentação dessas, as coisas não estavam começando muito bem...)

“Eu-não-quero-dose-de-ca-cha-ça” disse, entre dentes, enquanto tentava ignorar o garçom, que não se deu por vencido:

“Mas pelo menos o filezinho aperitivo com queijo e cebola ‘vai’ hoje né? Ou entrou nessas coisas de dieta? Olha que a senhora não precisa disso...”

Lancei o olhar mais gelado possível para o garçom e falei, o mais seca possível:

“Uma água gelada sem gás por favor.”

“Tudo bem, quer começar devagar, eu entendo. Quando resolver cair na caipirinha ou no filé é só chamar viu? E não se preocupe com as calorias: homem que é homem adora uma gordurinha na picanha (!!!)”

Dizendo essa frase final fatídica, o garçom se voltou para atender outros pedidos, me deixando vermelha de vergonha e totalmente constrangida na frente do cara que eu tentava impressionar.

Nunca mais voltei no bar, e não volto por um bom tempo. O que é uma pena: garçons folgados à parte, a cachaça e o filé do lugar são realmente bons...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Momentos constrangedores

Não suporto momentos constrangedores. Para mim, são tão ruins quanto dores físicas excruciantes percorrendo meu corpo. Sempre quando estou prestes a passar por um, ou lembro de algum momento em que passei, a memória é tão nítida que o mal-estar da lembrança volta de uma forma tão vívida, que parece estar ocorrendo de novo.

Foi assim quando me fantasiei de espanhola para uma suposta festa a fantasia, que simplesmente não contou com ninguém mais fantasiado, além de mim. Era em um lugar chamado Mosteiro, em São Paulo. A festa era o aniversário do namorado de uma amiga. Não conhecia o namorado direito, mas tinha (e ainda tenho) muito carinho pela minha amiga. Então, peguei uma fantasia de espanhola que nunca tinha usado (havia comprado para outra festa a fantasia que acabei não indo. Deveria ter prestado atenção ao histórico do vestuário. Maus fluidos, maus fluidos...) e fui, com a cara e a coragem, acreditando que todos deveriam estar mais ou menos na mesma linha que eu.

O primeiro choque foi quando um amigo veio me pegar para a festa, e ele não estava fantasiado. Quando perguntei o motivo, disse simplesmente que não estava a fim de se fantasiar. Okay, pensei, direito dele, deixa ele. Mas depois, ao pegar uma outra amiga e perceber que ela também não estava fantasiada, o choque deu lugar a uma tensão crescente, e a um péssimo pressentimento. Essa amiga, muito solícita em minhas preocupações, se arrumou novamente, mesmo estando praticamente pronta quando a encontramos, e tentou colocar uma roupa que parecesse uma fantasia (ela não tinha comprado nada para a ocasião), mas infelizmente estava normalíssima, em comparação com a minha produção (hello? Eu era uma espanhola, pelo amor de Deus...)

O desastre foi perceptível quando entrei no lugar. Acho que era uma das noites mais frias de São Paulo; uns cinco graus, pelos relógios nas calçadas, que dão as temperaturas. E todos estavam vestidos de acordo; botas, casacos, blusas de lã, cachecol...e ninguém, absolutamente ninguém fantasiado.

Quando chegamos à mesa da minha amiga e do namorado dela, descobrimos que somente nós tínhamos chegado para festa. Aparentemente, o frio espantou as cerca de 30 pessoas que estavam confirmadas para o evento, segundo minha amiga, que inicialmente estava fantasiada de enfermeira, mas depois apenas removeu o chapéu e manteve-se com um vestido branco simples, não muito adequado ao frio que fazia, mas ainda assim, aparentando ser uma pessoa normal, e não uma louca espanhola com castanholas nas mãos. Quanto ao seu namorado, ele se vestiu de monge. Chegando ao local e percebendo o ambiente (o mosteiro reservou apenas uma parte do lugar para a festa, não o local todo, que estava cheio de pessoas vestidas normalmente, querendo tomar algo quente em um sábado à noite), ele simplesmente tirou o hábito, já que estava de calça jeans e pulôver por baixo do hábito.

Eu não tinha como tirar a fantasia de espanhola. E reparem, não era uma fantasia qualquer: era “A” fantasia. Toda vermelha e preta, cheia de babados, fenda na perna, com direito a meia arrastão preta, mangas bufantes e rosa vermelha no cabelo. Um amigo me emprestou um casaco longo para cobrir parte de cima da fantasia. Mas não adiantava: sempre que eu ia ao banheiro era um espetáculo, porque o rabo do vestido de espanhola,com seus babados vermelhos de cetim, atraía todos os olhares.

Acho que foi um dos episódios mais “quero- que- alguém-abra-um -buraco –para- eu- me- esconder” que já passei. Tenho arrepios hoje só de lembrar.

Mas minha ojeriza a momentos constrangedores não se aplica somente a cenas envolvendo minha pessoa. Tenho tiques de nervoso quando percebo que alguém está passando por algum momento constrangedor, ou está em vias de passar. Por exemplo, na rua, quando vejo que alguém saiu do banheiro com papel higiênico grudado no sapato sem perceber, eu persigo a pessoa até tirar o papel grudado, sem a pessoa perceber, para que ela seja poupada desse constrangimento, quando percebesse o papel nojento.

Nem em filmes eu agüento ver. Até hoje, não vi a cena de “Carrie, a Estranha” em que os colegas de escola derrubam um balde de sangue de porco em cima dela, quando estava sendo coroada rainha do baile.

Lembrei disso porque, no final de semana, a minha sobrinha do meio, Laura, de quatro anos, fez uma coisa que me fez perceber que talvez isso seja genético. Estávamos assistindo a algum filmes desses bobos de criança/adolescente no Disney Channel quando era perceptível que a personagem principal ia passar por um péssimo momento: os vilões do filme estavam prestes a derrabar ponche em cima do lindo vestido novo dela! E a Laura, percebendo isso, fechou os olhos, colocou as mãos no rostinho, e falou “me avisa quando acabar”.

Admito. Fiquei orgulhosa. Porque minha sobrinha tem chances de perpetuar minha ojeriza contra momentos constrangedores e, com o passar do tempo, poderá ajudar as pessoas nas ruas que tem papel higiênico nos sapatos, ou simplesmente andam com o zíper das calças aberto pelas ruas. É uma conquista que me deixa feliz.

De como encontrei Joaquin Phoenix em São Paulo

Foi em 2000, acho. Morava em São Paulo nessa época. Estava indo para o trabalho e entrei no mesmo ônibus que sempre pegava para chegar ao prédio, o “terminal santo amaro”: um dos ônibus mais xexelentos que já tive o desprazer de conhecer. Era de manhã, umas nove e meia. Quando estava na roleta, vejo um homem de pé, em frente à porta de saída do ônibus. E constatei, em choque, que meus olhinhos estavam observando Joaquin Phoenix. Sim, isso mesmo: o irmão do River Phoenix, que foi o imperador vilão do filme “Gladiador” e o Johnny Cash do filme “Johnny e June”. (parênteses: foi ele também quem chamou o 911 quando o irmão dele, River, entrou em colapso na calçada da boate Viper Room, após uma overdose que o mataria. Lembro ainda hoje da gravação do telefonema que ele deu pedindo por uma ambulância passando na televisão, quando noticiaram a morte do River no Jornal Nacional. Foi tudo tão triste...ninguém deveria assistir a um irmão morrendo em uma calçada suja de Los Angeles...)

Aí, bom. Após gritar mentalmente que o cara estava lá, que “oh meu deus era ele mesmo”, fui raciocinar com mais calma. Querida louca, chamei a mim mesma com carinho, não pode ser ele. Primeiro que ninguém está reconhecendo o cara aqui no ônibus. Segundo, é que, bem, não queria falar dessa forma com você, querida louquinha, na hipótese improvável desse cara estar em São Paulo, é bem improvável que o Joaquin Phoenix pegasse um “terminal santo amaro” para onde quer que seja.

Mas minha mente engenhosa tinha desculpas para tudo. Argumentei comigo mesma: ora, ora. Ninguém o reconhece porque ele não é tão conhecido assim no Brasil. O único filme que ele fez que teve alguma repercussão aqui foi Gladiador (até aquele momento); as pessoas não o reconhecem porque ele não é um super-star-que-todo-mundo-reconhece-como-o-Tom Cruise. Ah, e outra coisa, debati comigo mesma, ele está de óculos escuros! Isso dificulta o reconhecimento facial. E o fato de ele estar no ônibus, bom, ele vem de uma família de hippies, morou em comunidades naturebas e em trailers quase toda a infância. Faz sentido ele querer sentir de novo aquela sensação de conhecer a cidade como um andarilho urbano moderno, argumentei, comigo mesma, enfática.

Até este ponto do debate mental, nem toda essa linda argumentação me convenceu inteiramente. Então, as duas partes dentro da minha cabeça, a louca e a razoável, fizeram um acordo. Ambas sabiam que Joaquin tinha uma cicatriz parecida com a de lábio leporino nos lábios. Então, pensei: vou atravessar a roleta, ir para o fundo do ônibus e dar uma olhada bem de perto na cara dele. Se tiver a cicatriz, é ele com certeza.

E dito e feito. Como diria Machado de Assis: foi batata! A cicatriz estava lá! Fiquei eufórica com a minha descoberta e estava prestes a interpelá-lo para comprovar toda minha suspeita quando ele desceu do ônibus.

Cheguei ao trabalho animadíssima, contando para todos quem eu encontrara. Infelizmente ninguém acreditou em mim. Recomendações sobre o não uso de drogas e álcool antes do horário de trabalho me foram dadas, mas eu insisti em minha argumentação de tal maneira que as pessoas, aos poucos, pararam de tentar me convencer do contrário.

Não importa se não acreditaram. Era o Joaquin Phoenix. Foi a primeira vez que veria um astro de Hollywood assim tão de perto (a segunda vez seria a Drew Barrymore em um show dos Strokes, na época em que ela namorava o baterista, Fabrizio Moretti. Mas como não reconheci a tampinha descabelada que passou por mim como a serva romântica de “Para Sempre Cinderela” e a Josie de “Nunca Fui Beijada”, isso não conta muito). E quando se vê estrelas assim tão próximas de você, em um ônibus indo para o trabalho, a vida parece tão mais interessante...!

Nunca se sabe quem vamos encontrar quando saímos de casa. É o que me faz sair da cama, todos os dias, em direção à vida.

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Plantar é uma arte

Nunca fui muito boa com plantas. Minto. Sempre fui péssima com plantas. Matei todas as que tentei ter, ao ponto de, quando me mudei da casa de meus pais, minha mãe ter dado um presente de despedida: uma orquídea...de plástico. Mães realmente conhecem a gente.

Mas minha falta de jeito com plantas nunca impediu que eu admirasse os outros que conseguiam fazê-las viver, por anos a fio. Minha mãe, dona Nair, é uma delas. Quando éramos crianças, tínhamos violetas, e todos os outros tipos de plantas pequenas para se ter em casa. É claro, éramos adeptos das samambaias também (parênteses: onde foram parar as samambaias? Lembro que, quando era pequena, toda casa em que eu entrava tinha uma samambaia chorona em algum canto. Será que é um hábito dos subúrbios? Ou era moda ter samambaia na década de 80?).

Li um livro que me impressionou muito quando tinha uns 12 anos: “O menino do dedo verde”. Tistu era um garotinho que não podia tocar uma terrinha, que lá crescia uma plantinha. Tentei isso várias vezes, mas tudo que consegui foi sujar absurdamente as mãos de terra e levar bronca da minha mãe por revolver o quintal comunitário do prédio onde morávamos, em Realengo.

Hoje, visto que sou dona da minha própria casa pela primeira vez na vida, resolvi tentar apagar meu péssimo histórico com plantas, e arrumar um ser vivente para ficar na minha casa. Ok, admito que o que eu queria mesmo era um cachorro ou um gato. Mas se sou péssima com plantas, imagine criar um animal de estimação. Então, comecemos com coisas mais simples, pensei eu.

No centro do Rio, há trocentas lojinhas que vendem plantas, e até mesmo ruas especializadas nisso. É o caso da rua ao lado da Igreja do Carmo, no começo da rua Primeiro de Março; e a chamada Rua do Verde, perpendicular à rua sete de setembro. Bom, fui nessa última. Comecei a explicar ao vendedor de uma das lojinhas todo meu histórico com plantas, e como queria uma planta forte, que não morresse facilmente. Tive a idéia de ver quanto era uma planta chamada “Pau d’água”, muito bonita, e cujo exemplar eu já tinha admirado em um dos setores do meu trabalho. E perguntei ao atendente, que me ouvia calado, quais seriam as outras plantas “fortes” que ele me recomendaria.

E ele respondeu da seguinte maneira:

“Quem tem mão ruim com planta mata qualquer coisa, independente da planta ser forte ou não.”

Fiquei muda com o choque das palavras. Ele depois falou para eu ficar a vontade para ver qualquer coisa que eu quisesse, mas já tinha perdido o tesão pela loja e também por comprar plantas naquele dia.

Apesar de ter considerado o atendente um grosseirão, em um primeiro momento, tentei me colocar no lugar dele. Ora, ali estava um homem que gostava de plantas, diante de uma pessoa declaradamente assassina de plantinhas. E como se não bastasse, ia levar uma de suas amadas delicadas para casa, e possivelmente vitimá-la fatalmente, devido a suas parcas habilidades.

Pensei que talvez ele estivesse certo. Plantas não são para mim mesmo. Afinal, quantas eu já matei até agora? Isso quer dizer alguma coisa não é?

Então, quando cheguei em casa. olhei para a grande orquídea de plástico que está na minha mesa da sala.

Mudei de idéia. Decidi que, se não nos convencermos que podemos mudar quem somos, não poderemos mudar absolutamente nada no mundo em que vivemos. E precisamos tanto, tanto de mudanças...!

Vou comprar uma orquídea. E tentar fazê-la viver o máximo que eu puder. Não vou pensar que vou matá-la; vou imaginar que ela vai viver, e dar alegria à minha casa, tão cheia de plantas de plástico. Porque, acho que tentar já pensando em perder é pior do que nunca ter tentado.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Fim de Semana no Rio

Uma das coisas mais irritantes em se morar no Rio de Janeiro é a incrível obrigatoriedade em se divertir no final de semana. Não sei como é na maioria dos outros estados; mas acredito que em nenhum outro lugar você vai ter que se virar de forma tão premente para ter um excelente fim de semana, e assim satisfazer seu círculo social na segunda-feira, de volta ao trabalho.

Nunca repararam? Cariocas do Rio, notai: uma das primeiras coisas em que somos interrogados, e que interrogamos na segunda, é perguntar como foi o final de semana de nossos amigos ou colegas de trabalho. Nestes momentos, atreva-se, nem que seja por um momento, dizer que ficou “em casa, dormindo e vendo televisão”; não importa onde você trabalha, o resultado é o mesmo: o olhar de incredulidade do outro, acompanhando de um “ah é?”, que conta com um misto de pena e de desinteresse, para em seguida o interlocutor trocar de assunto.

Ou então, pior: seu colega ou amigo começa a discutir com você, questionando seus motivos de não aproveitar o final de semana. “Como assim? Nem foi para a praia?” (ou quando esteve chovendo no final de semana: “Ah! Não quis nem pegar um cineminha?”). E somos colocados na posição absolutamente ridícula de nos defendermos por não termos tido um final de semana "divertido", por assim dizer, respondendo coisas como “ah, estava muito cansado (a), o trabalho acabou comigo” ou “pois é, acabei de sair de uma gripe” e ainda “estava querendo um tempo sozinho (a)”.

Adoro passar o fim de semana no Rio. Acho que deve ser uma das poucas cidades em que se tem tanta coisa para se fazer, de praia a bares; restaurantes; e até mesmo eventos turísticos (como ir ao Jardim Botânico, ou pegar o bondinho do Pão de Açúcar). Mas às vezes gostaria de ter o direito de não querer fazer nada absolutamente nada no fim de semana.

Já tive sábados e domingos estupendos em que fiquei os dois dias vendo filmes antigos na TV a cabo, na cama. E não, não estava doente. Simplesmente queria “morgar” na frente da televisão.

Para muitos, isso pode parecer uma completa perda de tempo. Mas sinceramente? Prefiro fazer as coisas quando realmente quero, e não quando o politicamente correto social demanda.

Bisbilhotando no Supermercado

Sou muito intrometida quando vou ao supermercado. Isso porque, como moro sozinha, sempre faço compras sozinha e, quando estou na fila para pagar, começo a observar, por distração, os carrinhos de compras dos outros. E começo a conjecturar que vida cada um deve levar, tendo em vista os produtos a serem comprados por cada pessoa.

Tem sempre o cara ou mulher que eu chamo de “o solitário que não sabe cozinhar”. São os que tenho mais pena. Ele ou ela sempre tem no carrinho um monte de comida enlatada ou pronta de supermercado, ou então aquelas refeições de microondas. E, é claro, um monte de refrigerante e/ou cerveja. Isso eu já notei: esse tipo de cliente sempre leva bebidas não muito saudáveis. Para compensar a solidão, talvez?

É claro que temos, também, “as famílias grandes que enchem dois carrinhos para compra do mês e são um terror da demora quando ficam na sua frente na fila”. O (s) carrinho (s) desses clientes é impressionante. Dava para matar a fome de um pequeno país africano com a comida que compram. E a quantidade de papel higiênico? Dava para escrever um livro com a quantidade de papel. Gosto muito de olhar para esses carrinhos porque também sempre tem uma criancinha sentada ou pendurada no carrinho, segurando ou um chocolate, ou um biscoito ou qualquer outra coisa que os pais tenham dado para o bebezinho parar de sair correndo e brincando pelos corredores do supermercado.

Temos ainda “os caras ou mulheres de grandes eventos de fim de semana”. É aquele grupo, normalmente de homens, que enchem o carrinho de carne, cerveja, carvão e cachaça, para o churrascão de final de semana. Se você parar para prestar atenção, é muito divertida a conversa desse grupo. Tem sempre um cara ou garota no celular tentando convencer alguém “parar de ser otário e se arrumar para o churrasco” e acrescentando que vem “fulano, siclano, até o primo de São Paulo” para evento. Algumas vezes eles já começam a beber na fila, e jogam as latinhas de cerveja no carrinho (ou não) para posterior conferência e pagamento.

E não podemos nos esquecer "da cliente ou do cliente natureba 100%” cujo carrinho me dá nos nervos. Porque absolutamente tudo é saudável. Só tem frutas, legumes, peixe fresco, cereais, no máximo água gaseificada, e nem sombra de refrigerante, nem mesmo diet. Esse tipo de compra me deixa incomodada porque sei que a pessoa, normalmente uma mulher magérrima, está fazendo exatamente o que eu deveria fazer - mas sempre acho uma desculpa absolutamente deliciosa para não fazê-lo -, que é comer direito.

Por fim, chegamos à minha pessoa: “a solitária que gosta de cozinhar”. Gosto muito dessa pessoa, particularmente (eh!). Isso porque a variedade de itens no carrinho dessa pessoa vai desde cogumelos a pano de prato. No carrinho tem sempre muita coisa para fazer pratos completamente malucos, cujas receitas ainda não foram escritas e são inventadas de acordo com a disponibilidade de itens comestíveis. Tem sempre também quatro tipos de bebida, de leite a suco de laranja, porque essa pessoa é tão indecisa que nem sabe o que vai querer beber nos próximos dias. O gosto não segue um padrão definido. Na verdade, padrão definido não é o que se deve esperar dessa pessoa. E a quantidade de comida é sempre muito além do que ela vai consumir. Isso porque está sempre dando jantares surpresa-relâmpago e gosta de estar preparada para qualquer eventualidade.

E mais um detalhe: sempre tem uma garrafa de vinho nesse carrinho. Para ser consumido com os amigos, claro!

O único problema é que essa pessoa acaba gastando mais do que precisa no supermercado e acaba quase sempre repassando comida para a diarista. Mas não tem problema. Gosto dela mesmo assim.

terça-feira, 5 de maio de 2009

A Voz

Leio nas agências de notícias pela internet que uma operadora de telefonia celular convocou e conseguiu amealhar 13.500 pessoas na Trafalgar Square, em Londres, para realizar um mega karaokê ao ar livre. O vídeo é lindo e pode ser conferido em http://www.youtube.com/watch?v=kHdJR6iUBFM.

Tá, eu sei que é propaganda para pessoas endividadas como eu acharem a T-Mobile engraçadinha, e comprarem celulares modernosos com todas aquelas funções que não precisamos, e que não utilizamos. Mas o vídeo não deixa de ser interessante e bem feito. (parênteses: lembra daquele tempo em que havia propagandas legais, muitíssimo bem feitas e cujas músicas lembraremos até os 80 anos? A do jeans US Top, que tinha aquela música legal, “liberdade é uma calça velha azul e desbotada”; a do leite Parmalat antes da propaganda dos bichinhos, com a música “não se deite sem tomar seu leite”; ou a musiquinha tema do comercial da Piscina Tone. Propaganda pode ser uma coisa boa, minha gente!).

O que me fascinou no vídeo foi o empenho e alegria das pessoas que pegaram um microfone e soltaram a voz em uma praça pública. Havia gente famosa, gente comum; pessoas velhas e pessoas novas; caras mal-humorados e homens risonhos...todos cantando uma das músicas mais belas dos Beatles, “Hey Jude”.

Adoro Karaokês. Quando morava em São Paulo, tinha um em especial que eu adorava ir com meus amigos paulistanos, mineiros e baianos: o Espetinho Cerveja & Cia, na Rua Canuto do Val, se não me engano. Acho que o bairro era Santa Cecília, mas não tenho certeza. O que eu mais gostava naquele Karaokê, é que independente da zona que a nossa mesa fazia, e das músicas mais constrangedoras que cantávamos (para vocês terem uma idéia, o nosso repertório ia de “Borbulhas de Amor” do Fagner a “O Amor e o Poder” de Rosana), eles não nos expulsavam, nem nos discriminavam. É que outros karaokês mais “finos” de São Paulo achavam a nossa turma barulhenta demais. As outras mesas, nesses karaokês metidos a besta, eram repletas de cantores frustrados de churrascaria, que achavam que iam ser “descobertos” como grandes baluartes da musica popular brasileira. Então eles cantavam músicas de Elis Regina, Chico Buarque, Tom Jobim...só músicas respeitadas da MPB. Resultado: nossa mesa era “pulada” na ordem das mesas com direito ao palco; e os garçons nos tratavam mal, doidos para a presença de nossa ausência.

No Rio de Janeiro não há muitos karaokês legais. Tinha um muito manerim na rua Marques de Abrantes, no Flamengo, zona sul do Rio, instalado no bar “Fala a Beça”. Mas teve que ser suspenso, pois atrapalhava o sono dos moradores velhinhos do bairro.

Acho que música e bar são duas combinações deliciosas; e se você pode participar da música, cantando, a noite fica ainda mais divertida.

Lembro de uma noite inesquecível no Espetinho Cerveja, em que um dos nossos amigos da turma subiu no palco para cantar “Born to be Alive”, do Disco Kings. Só que ele só sabia o refrão, que era algo tipo “You See We're Born/ Born/Born /You See We're Born, Born, Born /To Be Alive”. Então ele, na maior coragem e ousadia, inspirou fundo e começou a cantar mais ou menos assim (juntamente com o outro colega, inspiradíssimo):

“Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá/lá-lá/lá-lá

Lá-lá-lá-lá-lá-lá/lá-lá

Lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá-lá/

Lá-lá-lá

You See We're Born

Born,Born,

You See

We're Born, Born, Born

To Be Alive”

Também entusiasmados com a incrível letra, a maioria do pessoal que estava em nosso grupo também subiu ao palco para cantar junto, com nossos dois colegas.

Não importava se cantávamos mal; se as pessoas apontavam e riam da gente. Era algo tão gostoso simplesmente soltar a voz...

Sinto falta disso. Sinto muita falta. Era uma catarse vocal coletiva, e acho que, até mesmo, terapêutica. Porque não dá para ficar pensando em problemas enquanto se canta “Born to be Alive” em um karaokê pé-de-chinelo nos cafundós de São Paulo...simplesmente não dá tempo. Você fica muito ocupado se divertindo sabe?

quinta-feira, 30 de abril de 2009

O antigo e o Novo

Entre as coisas mais legais ainda presentes na zona sul e no centro do Rio de Janeiro está a existência, ou sobrevivência, de alguns cinemas de rua. Embora tenham ocorrido baixas consideráveis nos últimos tempos, como os últimos suspiros do Cine Paissandu no bairro do Flamengo, zona sul do Rio, e do Cine Palácio no centro do Rio, ainda é possível encontrar boas opções de cinema na capital fluminense que não sejam dentro de horríveis e apertadas salas de shoppings; ou então dentro de qualquercoisa-plexes da vida - onde um saco de pipoca é mais caro que um prato de arroz, feijão e bife com salada. (parênteses: pelo amor de Deus, aquilo é PIPOCA! Feita com milho sal e manteiga! Um sacão de milho no supermercado é R$ 1,99! Não vale o preço cobrado nos cinemas...).

As mais gostosas alternativas de cinema de rua da cidade são, na minha modesta opinião, o Roxy, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com rua Bolívar, em Copacabana; o cine Odeon na Cinelândia, centro do Rio; e o cine São Luiz, no Largo do Machado, entre os bairros de Catete e Flamengo, na zona Sul. Todos foram reformados. E posso dizer uma coisa, sem parecer saudosista, apenas realista: os dois primeiros, após passarem por mudanças e tentativas de reconstruir a beleza da arquitetura original, colocam no chinelo, em termos de beleza, qualquer cinema “muderninho” construído no século XXI.

Tinha um professor na faculdade que comentava sobre isso. Sobre como a arquitetura do final do século XIX e início do XX construía, de forma costumeira, prédios com pé-direito alto e grandes arcos nas portas de acesso, lindamente enfeitados com figuras heráldicas ou mitológicas. “Construíamos prédios para gigantes, porque o homem se considerava um gigante. Agora construímos caixas de sapatos. Pois os homens se comparam hoje às baratas”, dizia ele, nas aulas.

O Roxy e o Odeon são exemplos disso. Em primeiro lugar são cinemas com letreiros enormes, vistosos, coloridos. Embora o Roxy tenha, após a reforma e modernização, adicionado várias comodidades do século XXI, como novos banheiros e elevador para idosos, ele manteve a magnífica escadaria de mármore, com apoios dourados e detalhes enfeitados na margem. É a primeira coisa que se vê quando se entra no cinema. Coisa para gigantes.

Já o Odeon, então, nem se fala. A reforma manteve os detalhes da sala, e a quantidade enorme de cadeiras da platéia e o balcão, ah, o balcão...é lindo e absolutamente extasiante sentar ali em cima e saber que pouquíssimos cinemas ainda os tem; ainda os conservam (parênteses: tenho medo de altura, mas adoro sentar em balcões, no teatro ou no cinema. Vai entender...)

Mas lembrei de tudo isso por causa do terceiro exemplar de cinema de rua predileto, em minha lista. O cine São Luiz, dos três, foi o que menos preservou as características originais do cinema. Ele é todo “muderninho” por dentro; tem pizzarias e restaurantes no andar de baixo e no andar de cima, três salas de cinema com venda de pipoca, café e livraria ao lado.

Entretanto, tem uma coisa que esse cinema tem, que os outros dois não possuem. Uma foto da sala de cinema, repleta de pessoas, em outubro de 1937. A foto é em preto e branco, antiga, e cheia de falhas, como costuma ser qualquer imagem antiga.

Mesmo com os borrões e manchas na foto, é possível perceber os rostos e roupas das pessoas. A foto foi tirada de frente; e os amantes do cinema aparentam estar com suas melhores roupas, homens e mulheres de chapéu, compenetrados, olhando com atenção para a tela...

Ontem fui ao São Luiz e fiquei admirando a foto. Onde estavam essas pessoas agora? Será que algumas ainda estariam vivas? Será que seus filhos e netos hoje estavam percorrendo as salas reformadas?

Eis que, em meio às reformas e atualizações, o antigo e o novo praticamente se reúnem, lado a lado, em vários pontos do Rio. Creio que isso pode ser dito de qualquer lugar do mundo. Mas no caso do Rio de Janeiro, é gostoso saber que, mesmo ao andar por lugares de grande trânsito, que passaram por tantas modificações, ainda é possível perceber o antigo nos acenando, direto do passado, com aquela certeza que um dia, nós, também, seremos uma imagem antiga e falhada pendurada em uma parede.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Má Educação

Não sou muito fã dos filmes recentes de Pedro Almodóvar. Prefiro mais os filmes que ele fez em início de carreira, como “Pepi Luci Y Bom”, ou “Mulheres a beira de um ataque de nervos” (esse é o máximo...). Mas tenho que admitir que amei o título desse recente filme dele, “A Má Educação”. Acho um termo tão legal...isso porque as pessoas sempre preferem dizer que, quando alguém é grosso , é porque não recebeu educação nenhuma. Eu não concordo: acho que todo mundo recebe educação, mas a qualidade dessa educação é diferenciada, a depender do contexto de cada ser humano.

É impossível alguém não ter recebido nenhum tipo de educação, vivendo em sociedade. A não ser que você viva nas cavernas, como os antigos homens de Neandertal, não há como não ter assimilado qualquer tipo de tratativa social que permita viver de forma mais adequada, entre seus pares.

Mas infelizmente, a má educação é uma praga resistente, mais persistente que cabelos alisados de chapinha; gripe; e pochetes de lona. Ela está em toda a parte, de uma forma tão abrangente que as pessoas se acostumam a recebê-la e a tratá-la como normal.

Lembrei disso porque, ontem, entrei em um ônibus 175 - o mais rápido e barulhento para ir do centro da cidade para Copacabana - e, quando entreguei o dinheiro para o trocador, o seguinte diálogo bizarro aconteceu:

“Boa tarde”, eu disse.

O trocador me olha de cara feia, e responde:

“O QUÊ?”

Eu, assustada, repito com fio de voz (os trocadores do 175 são temíveis!).

“Boa...boa tarde...”

“Me chamou do quê??”

Eu, sem entender nada:

“Chamar? Não chamei o senhor de nada...”

“Me chamou sim, que eu ouvi.”

“Mas...eu só disse boa tarde!”

O homem me olhou com cara de espanto. Deu o troco em silêncio e, quando eu passava a roleta e sentava em um lugar vago, bem longe do trocador, ele balançava a cabeça e comentava, comigo e consigo mesmo.

“Boa tarde...ora essa! Boa tarde! Em 20 anos de trabalho é a primeira vez que alguém me dá uma boa tarde no serviço!”

Ouvi aquilo e não pude deixar de sorrir. É preciso ter certa dose de humor quando você percebe que a má educação superou a boa educação, ao ponto de esta última se tornar irreconhecível.

E para completar: quando saí do ônibus, o trocador agitou os braços, todo animado:

“Moça! Moça! Boa tarde, boa tarde!”

terça-feira, 28 de abril de 2009

Gripe

Tenho uma falta de sorte danada com gripes. Sempre acabam chegando nos piores momentos possíveis: véspera de viagem ou de feriadão; antes de uma mega hyper festa que eu gostaria de ir LINDA e não como a rena-do-nariz-vermelho-de-tanto-espirrar; ou então no meio de um show de rock.

Mas dessa vez, ah, dessa vez...tive que pegar uma gripe, um daqueles super resfriados mesmo, logo depois da histeria de notícias sobre gripe suína no mundo.

O resultado disso seria cômico se não fosse trágico. Não posso espirrar no trabalho que lá vem as piadas:

“Comeu carne de porco recentemente?" (parênteses: não dá para pegar gripe suína comendo carne de porco. Mas perguntam mesmo assim. Não importa a verdade, o que importa é a piada.)

“Teve contato com algum mexicano?” (outro parênteses: para falar a verdade, nunca tive contato com nenhum mexicano na minha vida. O máximo que cheguei de proximidade com algo mexicano foi beber tequila Jose Cuervo – a “ouro” – e os desenhos do Ligeirinho)

E a minha favorita, que ocorreu depois de um acesso mais forte de tosse: “A Fiocruz está te chamando!”

Gente, e no metrô? Se eu fosse daquelas que processam, processava todo mundo que estava no vagão comigo no metrô hoje de manhã. Toda a vez que eu espirrava (e infelizmente tenho uma seqüência de sete espirros matadora, que assusta qualquer um) sentia os olhares raivosos em cima de minha pessoa. Usei todos os meus lencinhos de bolso para proteger aqueles que estavam próximos de mim, mas nem isso era considerado por meus companheiros de transporte público: mais de 90% dos seres viventes no vagão só queriam que aquele foco infecto-contagioso (no caso, eu mesma) saísse do metrô.

Acabo de tomar um claritin. É corticóide mas é fogo na roupa; vamos ver se melhoro. E se tudo o mais falhar...sempre tem o temido chá de alho com limão da minha mãe. Morria de medo desse chá quando criança (por razões óbvias, porque cheira como o inferno deveria ser) mas tenho que admitir que, quando resprins; redoxons;benegripes; e chás vickes falham, a receita da minha mãe nunca me decepcionou.

Agora me dêem licença que vou espirrar lá no banheiro e já volto.

Ratos

Uma das coisas mais absolutamente desagradáveis no centro da cidade do Rio de Janeiro é a quantidade quase bubônica de ratos existente nesse trecho da cidade. Quando chove torrencialmente, aquelas chuvas de final de tarde, então, é um perigo: os ratos, desesperados por uma rota de fuga das águas, correm livremente pelas calçadas do centro, como uma cena daquele filme da década de 70 com a música do Michael Jackson, “Ben” (parênteses: eu também chorei quando o ratinho morre, ou quase morre, no filme e o menininho fica chorando e dizendo, “você vai ficar bem, Ben" – sem trocadilhos -, cuidando do ratinho no final. Mas continuo tendo pavor de ratos).

Dia desses um colega, voltando do almoço para o trabalho, contou uma história que me arrepiou a alma quando ouvi da primeira vez. Em pleno meio–dia no centro do Rio, na avenida Rio Branco, uma ratazana do tamanho de um gato pequeno corria desesperada pela calçada, deixando em pânico todas as mulheres e até mesmo alguns homens que por ali passavam na hora do almoço. Até que um homem (calçando uma botina, espero) resolveu acabar com aquela cena dantesca e deu, nas palavras do meu colega, “um bicão na ratazana” tão forte que o bicho voou pelo céu, caindo no meio da rua. E ele completou, com um adendo horroroso, que me provocou os arrepios já mencionados: “já pensou se ele atinge uma pessoa quando ele chutou a ratazana? O bicho ia cair em cima da cabeça de alguém, ou no peito de alguém...”

Urc.

Ontem choveu no centro do Rio, da maneira mais vil: aqueles pancadões de temporal completamente inesperados, que obriga você a deixar sete reais na mão de um cambista de guarda-chuvas automático para se proteger do aguaceiro. Quando voltava da faculdade para a casa, por volta das nove e meia da noite, dei um puxão brusco no meu colega de estudo, que me acompanhava até o ponto e sussurrei, quase em pânico: “olha lá, olha lá...meu Deus, aquelas sombras...é tudo rato???”

Dito e feito, leitores: cerca de dez pequenas sombras corriam rapidamente pela noite mal iluminada, e se abrigaram em uma banca de jornal.

Aquilo me lembrou um momento de pânico que tive há cerca de um ano, em uma banca de jornal ao lado do cruzamento da avenida Rio Branco com a rua do Ouvidor. Estava entretida, dentro da banca, olhando as histórias em quadrinhos que foram lançadas quando ouço berros do lado de fora da banca:

“Ih! Entrou, entrou!”

“Pega! Pega!”

Um dos transeuntes que gritava avisou ao dono da banca que um rato acabara de entrar embaixo de seu estabelecimento. E o dono, ao saber disso, começou a berrar desesperado:
“Mas vocês deixaram? Como vocês deixaram? Meu deus, esse rato vai acabar com meu estoque, vai comer todas as minhas revistas!”

E eu, em pânico, dentro da banca, sabendo que tinha um pequeno roedor embaixo de onde eu estava, só olhava palidamente para o dono, que falava alto para quem quiser ouvir:
“Anda gente, me ajuda a procurar pelo amor de Deus!”

Sou uma pessoa deveras solícita na maior parte das vezes. Acho que, assim como o profeta mencionou uma vez, gentileza gera gentileza. Mas o temor irracional de algumas coisas (baratas voadoras; alturas; oompa loompas da fantástica fábrica de chocolates) ainda prevalece sobre qualquer sentimento gentil que eu pudesse ter no corpo. Foi aí que eu comecei a berrar com o dono:

“Moço eu só quero sair daqui! Ele está na calçada? Está na rua???”

“Não dona ele entrou para dentro da banca e...!”

Vapt! Já tinha saído da banca como um raio.

Há limites para tudo. Mas às vezes acho que não há limites para o medo.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Memória de Semana Santa

Ainda hoje, vejo que existe um hábito que resiste a todas as semanas santas, desde minha infância até hoje. Não, não é o ato de não comer carne antes do domingo; ou de ir à missa no domingo de Páscoa. É a insistência de todas as emissoras de televisão descarregarem na semana santa todos os filmes possíveis e imagináveis sobre a vida de Jesus.

Desde minha tenra idade, até hoje, não tem erro: pode zapear os canais durante a semana santa, que você encontrará passando em algum canal “Rei dos Reis”; “O manto sagrado”; “Ben-Hur” entre outros. Neste momento em que escrevo essas linhas, está passando um filme péssimo sobre Jesus na sessão da tarde (parênteses: estou de plantão na redação, sem nada para fazer).

Quando era criança, acreditava que Jesus aparecia na televisão toda a semana. A culpa era de uma propaganda da antiga TVS, ou atual SBT, em que uma figura aparentando ser Jesus (um ator, obviamente)se destacava em um fundo preto com um luz no canto superior da tela, com uma voz completamente assustadora em off, dizendo “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu realmente achava que era Jesus ali na televisão, e toda a vez que ele aparecia eu ficava chocada de medo (tipos, poxa, Jesus esta lá na tevê, e está me olhando!).

Até hoje o Jesus mais perfeito, mais com cara de Jesus, ou de como os católicos acham que ele deveria parecer, é o ator de “Rei dos Reis”. Dei um Google no filme e vejo que o ator que personificou o crucificado se chamava Jeffrey Hunter, e o filme é de 1961. É o único filme sobre a vida de Jesus que me emociona. Os outros são..sei lá. Não gostei da “Última tentação de Cristo” apesar de ter adorado a premissa da história. Amo Martin Scorsese, e sou fissurada no William Dafoe. Mas é que o Dafoe não parecia com o meu Jesus Cristo, sabe? Acho que fiquei muito conectada com a figura de Hunter na memória para considerar outra pessoa para o papel.

Creio que os parâmetros que delineamos em nossas mentes para figuras emblemáticas da nossa história, e de nosso passado, acabam se tornando mais vívidos do que a própria realidade. Como a percepção de que as pessoas católicas durante a semana santa se tornam, de súbito, mais religiosas, e por isso com maior interesse em assistir filmes sobre a vida de Jesus.

Não assisti a nenhum filme sobre Jesus essa semana santa, e não pretendo assistir. Se estiver passando "Reis dos Reis" em algum canal enquanto estiver "zapeando" até posso mudar de idéia, mas por uma questão de nostalgia, e não de religião. E acho que realmente todas as semanas deveriam ser santas, para todas as religiões; com as pessoas ligando todos os dias para as questões do espírito, e não apenas em um período de sete dias por ano.

P.S. - Minha mãe acaba de ligar e, como vou dormir na casa dos meus pais hoje, avisa que tem macarrão com atum para jantar. “Porque, você sabe, não dá para comer carne, é semana santa...”

Sentidos e Verdades

Estava voltando em minha hora de almoço um dia desses e, antes de voltar ao trabalho, cutuquei minha amiga ao lado, que tinha almoçado comigo, e exclamei:

“Olha isso! Como é possível viver em um mundo assim. Olha as revistas na banca de jornal: de um lado, todas são sobre dietas e como ter o corpo em forma, e do outro tem um livro de como fazer as receitas de doce da cozinha maravilhosa da Ofélia!”, disse para minha amiga, que começou a rir e acrescentou:

“Não esqueça das propagandas de fast food.”

“Como?”

“Temos milhares e milhares de propagandas e comerciais de fast food e, ao mesmo tempo, toda a publicidade do mundo para comprar aparelhos de ginástica ou entrar na academia perfeita...”

“Isso! Você pegou o jeito. É exatamente isso o que eu quero dizer. Queremos comer muito e mal, e queremos ser magros; queremos ser saudáveis e não deixar de comer hambúrgueres; e queremos perder peso mas não suportamos fazer exercício”, afirmei, enfática, apontando para o grande anúncio de uma cadeia de lanchonetes, que estava próximo a nós duas. “É como se a gente quisesse beber um copo d’água e ao mesmo tempo manter a água no copo! Não tem sentido!”

“Mas você sabe o porquê disso, não?”

“...? Mas é claro que não? Qual o porquê disso?”

“Querida, por favor. Se tem uma coisa que as pessoas não tem na vida, é lógica. Por isso o Spock do Jornada das Estrelas fez tanto sucesso: é porque ele representa algo que nunca vamos ser, lógicos”, disse ela enquanto dava uma segunda baforada no cigarro que fumava. “Eu por exemplo, não quero morrer tão cedo; mas ao mesmo tempo, fumo dois maços por dia. Você precisa emagrecer por causa do seu joelho. Mas come no Mcdonald’s toda a semana; Qual a lógica disso?”

“Não sei...acho que o mundo tá louco, sabe?”

“Ah, amiga, qual é.”, disse a minha companheira de almoço, que revirou os olhos antes de acrescentar, apagando o cigarro com o bico do sapato fino (que provoca dores horrorosas no pé, mas que ela continua usando quase todos os dias, para se sentir “bela”). “Esse é o tipo de coisa que falamos para nos isentar da culpa. Mas a verdade é uma só, e todos sabem"

"Que seria...?"

"O mundo somos nós.”, finalizou, para em seguida acrescentar que ia tentar parar de fumar, pela terceira vez.

Stress e Apatia

Estava no metrô outro dia. Sabe aqueles avisos que vêem pelo alto falante, e o cara diz, “senhor passageiro, não ultrapasse a linha amarela.”? Pois bem, estava no metrô, e a voz no alto falante disse quase a mesma coisa, mas a entonação era de alguém que estava completamente extenuado. O homem dizia algo como “Senhores, senhores passageiros, POR FAVOR! NÃO ultrapasse a linha AMARELA! Não ultrapasseee! Eu repito, É PROIBIDO UL-TRA-PAS-SAR A LINHA AMAREEELA!”.

O tom foi tão nervoso que as pessoas nas plataformas se entreolharam, confusas. Mas depois que a voz foi embora, todos voltaram ao que estavam fazendo antes de serem interrompidos pelo extenuado anúncio.

O stress, assim como coca-cola, chiclete, e chapinha para cabelo, tornaram-se comuns entre nós. Nem nos assustamos quando percebemos que alguém está correndo pela rua; ou andando apressadamente pelas escadas do metrô ao sair da plataforma; ou chorando e no ponto de ônibus porque perdeu a condução. Achamos normal. “Isso acontece” pensamos, e voltamos a pensar em coisas mais agradáveis.

Me preocupa o fato de nos acostumarmos demais ao desconforto do outro. Sinto que não somos mais conectados, como humanidade. Parece que, sempre que a maioria, eu inclusive, percebe o nervosismo de um estranho, acredita que isso não é problema seu, e segue com seu caminho. É claro que há casos e casos; na avenida Rio Branco, no centro da cidade do Rio, algumas pessoas ainda reagem quando vêem alguém sendo assaltado, por exemplo. Mas você pode perceber, que são uma, duas, cinco pessoas que reagem e tentar ajudar alguém em sofrimento, quando existem 20, 30, 50 ao redor que nada fazem. Apenas observam. E deixam para lá.

Eu queria perguntar para o cara do alto falante porque ele estava tão nervoso. E queria ter ajudado mais, quando vi pessoas precisando de minha ajuda, de qualquer ajuda, na rua. Mas como todos, sinto-me contaminada com uma onda de apatia que parece assolar o mundo.
Queria saber a resposta para parar de me sentir assim. Queria mesmo.

Ex Machina

Estava na fila de um caixa eletrônico no centro quando noto que a pessoa que estava tentando usar o maquinário começa a bater nervosamente no maquinário. Os dois homens que estavam na fila aguardando comigo começam a se entreolhar e a olhar desconfiadamente para o senhor barbudo, de óculos, calça jeans e camisa pólo, que começava paulatinamente a perder a paciência com o caixa eletrônico. Mas antes que pudéssemos perguntar solicitamente qual era o problema, ele começou a berrar e a chutar a máquina do caixa.

“Máquina estúpida! Máquina estúpida”, ele gritava, entre um chute e outro, enquanto nós que estávamos na fila observávamos estupefatos. O som dos berros chamou a atenção do vigilante do banco, que se aproximou rapidamente do homem e pediu para ele se afastar “do maquinário”.
“Não me afasto! Não me afasto! Máquina estúpida, estúpida!” continuou ele a gritar, até o segurança colocar a mão no ombro do homem e pedir para ele se acalmar. Ao ver o tamanho do vigilante, dois metros, peito parrudo, o senhorzinho, que era nervoso mas não maluco, tentou se explicar.

“Essa máquina está de sacanagem comigo, seu guarda. Todo o dia eu venho aqui e tiro dinheiro nessa maquina e hoje ela está dizendo que a tarja do meu cartão está suja ou com defeito e não dá para sacar nada...!”

“Já tentou outra máquina? Ou limpar a tarja?”

“Já tentei aquela outra ali”, apontou para uma outra que realizava saques, em que estava uma senhorinha que acompanhava tudo de olhos esbugalhados. “E deu a mesma coisa.”

“Então, senhor, talvez sua tarja esteja suja ou danificada.”

Neste momento, o homem olhou com tanta raiva para o guarda que achei que ia começar a chutar o vigilante também. Mas ao invés disso, ele suspirou, colocou a mão na carteira e começou a agitar algo na frente do guardinha.

“Olha isso, olha isso. Carteira de couro, couro legítimo com proteção máxima para meus cartões...eu sempre cuidei bem dos meus cartões...”

“Senhor, outras pessoas querem fazer saque. Se o senhor não se acalmar e parar de bater na máquina vou ter que pedir para que se retire.”

“Não precisa pedir nada. Eu me retiro! Me retiro!”, ele dizia bufando enquanto saía da agência. Mas fez um comentário final antes de sua saída da agência. “Eu me retiro porque sou do tempo em que se confiava mais na palavra de um homem do que de uma máquina!”, disse.

Se isso fosse um conto do Isaac Asimov, tenho certeza que no banco haveria um cientista ou um especialista em robótica dizendo que as máquinas eram mais confiáveis, pois não podiam mentir, como os homens. Porém...porém...entendo o que o homem quis dizer. Já reparou como, nos tempos de hoje, confiamos mais no que dizem os computadores, os sistemas, os caixas eletrônicos da vida, do que em outros seres humanos?

O senhorzinho está certo. A palavra de uma máquina vale sim, hoje, mais do que a de um ser humano. Acho que a humanidade, de uma forma intrínseca, perdeu a confiança nela mesma, e acha que o primeiro caminho para qualquer pessoa é, sem sombra de dúvida, mentir. Uma frase como a do escritor Mark Twain, que disse uma vez “na dúvida, diga a verdade”, soaria tão infantil nos tempos de hoje...porque, nos nossos tempos, hoje, quem realmente liga para a verdade?

Sobre hábitos e costura

Estou lendo um livro muito interessante, “As seis mulheres de Henrique VIII” uma biografia compilada sobre as pobres fêmeas que tiveram o azar de se envolver com o pai da Igreja Anglicana. O livro tem me ajudado nos meus próprios estudos de história, além de ser praticamente uma revista Caras do século XVI: há sexo, traição, romance, drama, mortes trágicas.

Mas tem um detalhe sobre a primeira rainha de Henrique, Catarina de Aragão, que me chamou atenção e o qual não consigo parar de pensar. No livro, a autora Antonia Fraser conta que a primeira mulher de Henrique costurava TODAS as camisas do marido. A princípio, pensei que Antonia estivesse se referindo ao hábito de consertar camisas. Mas não: a rainha FAZIA todas as camisas do rei. Como uma costureira faria, entende?

Apesar de saber que, naquela época, as mulheres nobres ou não eram “educadas nos afazeres domésticos” (uma frase tão clichê...) a informação me fez pensar. Isso porque o tema sobre costura tornou-se próximo aos meus próprios afazeres, depois de ter penado durante duas horas para consertar um descosturamento da borda de meu edredom. Isso mesmo, duas horas. E ficou uma completa barafunda, sem tirar nem por. Nem consigo imaginar qual seria o grau de dificuldade de fazer uma camisa.

Minha mãe saberia fazer uma camisa. Aliás, pelo que converso com amigos que têm em torno de minha idade, 31 anos, era comum que, no tempo de nossa infância, nossas mães tivessem uma máquina de costura em casa, para fazer coisas que iam desde consertar uma costura até vestidos e camisas. Até hoje minha mãe é craque na máquina de costura. Quando ela abre a máquina Singer, velha, pesadíssima, que deve ter a minha idade, as minhas sobrinhas mais novas, Laura de quatro e Luiza de dois anos, ficam fascinadas rondando aquilo, perguntando o que é, para que serve...minha mãe explica com paciência e eu pergunto para elas se elas querem aprender a costurar. “Quero!”, berram as duas, em uníssono.

Quando era pequena, eu não quis de jeito nenhum. Nem minha irmã mais velha. Minha mãe tentou nos ensinar a pintar a óleo; a fazer caixinhas de madeira; vasos de papel jornal; cartões de papel vegetal; tricô; crochê. Sem sucesso. De todas essas atividades, minha irmã e eu aprendemos mais ou menos a fazer cartões e crochê. Mas não nos esforçamos para deter essas habilidades, infelizmente. De minha parte, a coisa que mantenho bem dos ensinamentos de minha mãe é sua culinária, mistura das cozinhas carioca, mineira e cearense (ou seja, brasileirona mesmo), que vão desde a galinha ao molho pardo a pizza de batata e farofa cearense.

Mas é interessante notar que as mães da minha geração tinham tantas habilidades domésticas úteis, que não se reproduziram em suas filhas, ou filhos. Nenhum de meus amigos ou amigas próximas a minha idade sabe pintar, tricotar, ou fazer caixinhas de madeira. Alguns nem sabem cozinhar (essa foi para você Renatinha, rs!).

Isso tudo veio à baila porque estou acompanhando Lost, a série que trata de sobreviventes de um desastre de avião tentando sobreviver numa ilha maluca. Na boa? Se eu estivesse na ilha, me jogavam na água. Porque eu não teria praticamente nenhuma habilidade manual ou doméstica que ajudasse a um grupo perdido em uma ilha deserta.