quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Palavras desconexas

Um maluco no centro da cidade esbarra em mim e pede dinheiro. Digo que não tenho. O que o maluco faz? Uma coisa maluca, certamente: cospe no meu ombro, e sai correndo.
Ainda ouço as palavras berradas dele, enquanto se afasta de mim com os braços levantados: “cebola, cenoura, senhora, se toca, me toca, motoca, mococa...”

Nem tive tempo de xingar o maluco pelo seu ato nojento, e tento limpar o ombro com lenço umedecido. Suspiro. É a terceira vez que um maluco cisma comigo no centro do Rio. Será que existem pessoas marcadas pelos loucos da cidade para serem atazanadas por eles?

As ocasiões anteriores em que loucos cruzaram meu caminho também foram na avenida Rio Branco, uma das principais vias de acesso ao centro da cidade, juntamente com a avenida Presidente Vargas. O primeiro maluco simplesmente passou por mim e, quando eu o ultrapassei por andar mais rápido, ele deu um grande soco de mão fechada no meio das minhas costas. O susto foi mais intenso do que a dor, e quando me virei para ver porque diabos o cara tinha feito isso, pude perceber que ele estava no processo de fazer uma nova vítima. O homem de terno, avisado pelo meu grito de “cuidado”, se desviou do maluco e quase deu um pescoção no pobre esfarrapado, antes de este perceber o perigo e correr como se uma alma penada o perseguisse. (parênteses: o cara de terno falou uma coisa engraçada, nessa ocasião. Disse que, se o cara fosse pirado mesmo, “não correria de um tabefe”).

Na segunda vez, levei um copo de água na cara. Reclamei do calor para uma amiga que estava ao meu lado, voltando do almoço para o trabalho e, inadvertidamente, um louco que estava encostado na parede de um prédio, próximo ao lugar em que estávamos caminhando, ouviu minha reclamação sobre o calor no mesmo momento em que eu e minha colega passávamos na frente dele e, ato contínuo, tascou em meu rosto o conteúdo de um copo de água que estava em sua mão. Quando, fula da vida, comecei a berrar e gritar com o homem, ele só repetia, sem olhar para mim e com um olhar fixado no horizonte: “Eu faço poesia! Eu faço poesia!”.

Mas essa terceira vez, apesar de mais nojenta devido ao contato não calculado da saliva do maluco em meu ombro, foi a mais intrigante. Porque, sabe-se lá por quais motivos, fiquei com as palavras do cara na minha mente. “Cebola, cenoura, senhora, se toca, me toca, motoca, mococa...”. Tem uma sonoridade maluca, que não consigo tirar da cabeça.

Para mim, quem fazia poesia não era o maluco da água, e sim o louco do cuspe. Fico pensando se, ele tivesse nascido em uma tribo africana no século XVI; ou então entre os índios antes da chegada aos portugueses à terra que seria chamada posteriormente de Brasil; e falasse coisas assim, palavras desconexas, mas com uma sonoridade que gruda de forma absolutamente mágica na cabeça...creio que ele seria venerado, ou confundido com um enviado dos deuses.

Mas pensando bem sobre o assunto...acho que não. Um maluco como o do cuspe não existiria no passado. Só núcleos urbanos conseguem enlouquecer alguém daquele jeito.

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