Os ambulantes do centro do Rio de Janeiro são um espetáculo à parte, em termos de criatividade. Esqueça por um momento se você concorda ou discorda da existência do comércio de rua: o que importa é que ele está lá, queira ou não. E esbanjando alternativas para conseguir vender seu treco, que vai do absolutamente útil (como chocolates) ao absolutamente inútil e insuportável (como aquelas cornetas que imitam o som de um gato sendo morto ou no cio, ou os dois).
E a engenhosidade está lá, firme e forte. Lembro até hoje de uma placa de um vendedor de salgados da Central do Brasil, que vi quando era adolescente. Era minha época de faculdade e, como morava em Realengo ainda, tinha que pegar o trem na estação de minha terra (detalhe: a primeira vez que andei de trem foi nessa época, e tive que pagar o mico de “dar sinal” na estação, até uma senhora muito educada, que também esperava, me explicar que os trens param em todas as estações), descer na Central, depois pegar um ônibus para a Praia Vermelha, na Urca. Andando até o ponto de ônibus, um vendedor, impávido, se posicionava na frente de sua barraquinha com a seguinte placa: “Salgado mais suco: um real. Com salgado de ontem: cinqüenta centavos”.
Mas lembrei dessa história para contar outra, na verdade. Aconteceu hoje. Tinha saído para almoçar, e estava voltando para o trabalho (porque esse é o lugar que você realmente gostaria de estar em uma segunda-feira de sol de verão...tsc.) quando vi um cara andando devagar, por uma rua que é, normalmente, repleta de camelôs, no centro. E, como sempre, os ambulantes estavam lá.
A princípio o cara não me chamaria atenção, tipo comum, rosto normal. Mas ele acabou, sim chamando minha atenção. Porque elwe estava cantando. Cantando em uma voz bem alta, sem pressa. E cantando não qualquer música, mas uma música do Belo, chamada “Tua Boca” (parênteses: conheço a melodia pois minha irmã é fã incondicional de Belo, me avisou que vai vê-lo no Via Show e já me acionou para ficar de babá das minhas sobrinhas. Não que eu tenha alguma coisa contra pessoas que compram “tecidos finos” de traficantes e fazem experiências de água oxigenada Márcia 40 volumes com o próprio cabelo...). Achei estranhíssimo alguém cantar essa música no meio do dia, pra ninguém em especial. Porque a letra tem rimas tipo “Céu/ Tua boca tem o céu/Infinito no prazer/Toda vez que amo você”. A não ser que esteja em um musical antigo da Metro Goldwin Meyer, não era uma coisa comum.
Foi então que vi. A reação dos camelôs à música. Como se a canção de Belo fosse um toque de desaparecimento coletivo, TODOS os camelôs começaram a arrumar suas tralhinhas na maior pressa, e fugir desesperados, para a mesma direção – contra o sentido dos carros que entravam na rua.
O camelódromo urbano estava quase vazio (uma senhora se enrolou com seu tabuleiro de bijouterias, deixou parte cair no chão e ainda tentava pegar o resto, agachada) quando os guardas municipais apareceram. Confusos, viram uma rua com calçada desimpedida de ambulantes, onde antes eles pululavam como mulher em liquidação de vestidos da Mercatto. Aí, somente aí (é, eu sou lenta mesmo), me toquei que a música do Belo era, na verdade, um código para um VAZATODOMUNDO.
O homem continuou assobiando a música, baixinho, enquanto os guardas estavam na rua.
Quando os oficiais da lei foram embora, derrotados por “Tua Boca” do Belo, o homem foi até o começo da rua. E recomeçou a cantar. Mas não era o Belo. Era o “Rap do Salgueiro”, de Claudinho e Bochecha (reconheci, sim. Admito que gosto dessa música de graça mesmo). O trecho que ele cantava era do início da canção, aquele que era assim “Olê, Olá/Salgueiro vem com pira e aForça vai chegar iê/Eu quero ver, abalar/sacudir a massa/Arrepiar/Agitar o mundo, vamos navegar/O Salgueiro Força e Pira, ninguém pode parar”.
Lentamente, os camelôs voltaram a ocupar seus lugares. E o homem parou de cantar.
Acho que a inteligência é uma meretriz doida que serve bem quem a trata bem.
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