quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Janelas

Uma das lembranças mais aterrorizantes da minha adolescência foi ter passado por um blecaute no hotel Glória. Eu tinha uns 17 anos, acabava de entrar na faculdade de jornalismo, e estava indo para o hotel com o objetivo de participar de uma entrevista de estágio na assessoria de comunicação de uma grande empresa. Cheguei ao hotel, entrei no elevador e, quando entrava no corredor para buscar a sala correta onde seria realizada a entrevista, as luzes se apagaram repentinamente.

Não sei se algum de vocês já esteve em um ambiente de escuridão total. Eu confesso que nunca tinha estado em nenhum, até aquele momento. Isso porque, como eu fui obrigada a notar naquele instante, os corredores do hotel Glória não possuem janelas. Nem umazinha. Nem mesmo uma clarabóia, absolutamente nada.

Fiquei em silêncio, por um momento, tentando ver pelo menos sombras, contornos, qualquer coisa que me lembrasse algum tipo de objeto. Nada. A sensação era tão forte que, mesmo sem querer, comecei a ficar nervosa. Era óbvio que o hotel passava por um problema de energia, e que não havia nada de sobrenatural naquilo, e que essas coisas simplesmente acontecem (com mais freqüência do que eu gostaria. Lembrem-se dos apagões de 2001, onde fomos obrigados a enfrentar picos de falta de luz por ausência de planejamento de um governo que simplesmente não prestou atenção quando chovia). Mas eu não conseguia não deixar de ficar nervosa. O sentimento de início de pânico começou a crescer quando, me movimentando, percebi que tinha perdido a noção de onde estavam as paredes.

Comecei a ouvir barulhos, sons de coisas caindo e pessoas chamando outras pessoas. Estranhamente isso me deixou mais calma. E quando ouvi o som de passos no corredor, vindo em direção a mim, não fiquei assustada. Pois sabia que era alguém que estava passando pela mesma escuridão que eu, e isso diminuía a sensação de estar sozinha naquele breu horroroso. Como eu desconfiava, o dono dos passos era um funcionário do hotel, um boy, que estava tentando ver se alguém precisava de ajuda durante o blecaute. Pedi a ele que me guiasse, pois não era conhecedora do lugar, como ele parecia ser, pelo som de seus passos, e não sabia como sair do corredor. Ele me pegou pela mão e me conduziu pelas escadas, e seguimos os dois tateando as paredes descendo quatro andares, até andar térreo do hotel, onde (finalmente) havia alguma luz.
Após ligar e receber a notícia que a entrevista tinha sido adiada devido à falta de energia no Glória, fui para casa pensando em como as janelas eram invenções úteis.

Lembro de ter passado pela minha cabeça a trama de um conto do escritor de ficção científica Isaac Asimov, “O Cair da Noite”, onde o autor conta a história de um planeta que tem seis sóis e em que é sempre dia, com uma única exceção: a noite cai uma vez a cada trocentos milhares de anos e a população, que não entende o que é a escuridão, que nunca a tinha contemplado na vida, simplesmente enlouquece. E civilizações inteiras são destruídas nesse momento, sendo reconstruídas apenas quando a luz dos seis sóis voltam a brilhar.

Quando li o conto achei a história do “enlouquecimento” da população meio exagerada, e isso meio que derrubou um pouco meu gosto pela trama. Até aquele dia do hotel Glória. Passei a respeitar o autor que soube perceber o impacto da escuridão na mente humana. E também passei a valorizar, por mais bobo que isso seja, a importância das janelas em nosso dia a dia.
As lembranças daquele dia e do que pensei sobre as janelas foram reativadas ontem, quando um amigo me contou que pediu para mudar seu lugar, no ambiente de trabalho. Tendo trocado recentemente de emprego, ele nunca notara que, em suas funções anteriores, sua mesa sempre contou com a visão, mesmo que parcial, de uma janela e, com ela, de um pedaço do céu, do sol, do tempo e da vida no lado de fora. Mas no novo emprego, cuja sala é em formato de “L” , o lugar em que ele ficava não contava com nem um pequeno pedaço de janela.

Após dois dias trabalhando assim, ele sentiu um incômodo, que nem mesmo sabia que estava dentro dele.

Como tinha sido levado em condições muito boas para o novo trabalho, o qual foi convidado para ocupar, achou que tinha liberdade para pedir por uma troca. Dito e feito: trocaram sua mesa por outra, perto da janela.

E agora, quando ele trabalha, sabe que, se desviar sua atenção do computador ou dos papéis que tem que examinar, pode ter a visão da enseada de Botafogo, a luz do sol batendo na água, como pequenos diamantes, na altura de seu olhar.

Acho que a vida fica mais leve quando podemos contar com a luz do sol...

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