Desde que me mudei do subúrbio para a zona sul do Rio, nunca mais presenciei despachos. Daqueles poderosos, com vela vermelha, restos de galinha preta, cumbuca de barro e perfume quebrado em encruzilhadas. Não sei se não é hábito mais, ou se simplesmente não é costume na zona sul. Mas em Realengo, na época da minha infância, era impossível andar pelas ruas do bairro, na altura da avenida santa cruz com a rua doutor Pedro Lessa, e não esbarrar com uns apetrechos de umbanda.
Quando criança, ficava impressionada com os despachos. É preciso que vocês entendam que era MUITA COISA, que eles deixavam nas encruzilhadas. Eram sacos de fubá inteiros, shampoos, muitas velas e charutos. Uma vez, me lembro desse dia como se fosse hoje, encontrei toda feliz um saco inteiro do bombom serenata de amor, e o peguei de uma encruzilhada, mostrando toda satisfeita para o meu pai, que caminhava próximo a mim. Ele ficou branco e falou, em voz alta e enérgica: “Larga isso! Larga isso agora!”. Fiquei assustada e deixei cair o pacote onde ele se encontrava, enquanto levava uma bronca de meu pai, que dizia para NUNCA MESMO pegar nada de encruzilhadas, porque aquilo era para “os orixás da macumba” e poderiam acontecer coisas horríveis comigo.
Até hoje tenho medo de comer serenata de amor. Sério mesmo.
Lembrei disso ao me recordar de uma história que uma amiga trouxe a baila, do dia em que fiz uma simpatia na varanda do meu prédio. Na época, eu morava em São Paulo, em um andar alto, 13º, acho. (Número auspicioso não? Nunca tinha me tocado disso). Uma pessoa sem escrúpulos estava perseguindo uma amiga, e resolvi tentar uma simpatia do mal para detonar a pessoa. Fiz os apetrechos necessários, mas para o que eu queria era necessário queimar um pedaço grande de papel, um cartão postal. Bom. Mesmo que o indicado fosse trabalhar o ato como uma atividade ao ar livre, resolvi fazer na varanda mesmo, sob a luz da lua crescente (vocês tem que lembrar que era São Paulo, e lugares para atividades ao ar livre eram escassos).
Comecei a fazer. Quando tentei queimar o cartão, sabe-se lá porque, a droga do papel era resistente demais. Após várias tentativas frustradas, resolvi colocar um pouco de álcool no objeto a ser queimado. O resultado? Uma fumaça preta horrorosa começou a subir, de forma maligna, em direção a meu rosto. Comecei a tossir descontroladamente e me afastei da bacia onde o objeto queimava em segurança (parênteses: eu sou maluca, mas nem tanto. Não queria queimar o apartamento). Entretanto, a fumaça infelizmente chegou a subir de forma bem persistente para fora do apartamento. Ao ponto de o porteiro ligar e perguntar se minha casa estava pegando fogo. “Não, não..é que eu queimei umas cartas e elas fizeram mais fumaça que eu imaginava...cartas de amor sabe?”, menti, sabe-se lá porque falando de cartas de amor para o porteiro. Mas parece ter funcionado, pois ele apenas suspirou pelo outro lado do interfone (aquele suspiro “ah, ela é maluca mesmo”) e pediu para eu tomar cuidado.
Mas aprendi minha lição. Nunca mais faço simpatias em varandas de apartamento. E se em São Paulo a disponibilidade de ofertas era escassa, no Rio, onde moro hoje, sempre podemos contar com as encruzilhadas dos subúrbios.
quarta-feira, 25 de março de 2009
Sobre sapatos e sapateiros
É incrível a quantidade de sapateiros que estão disponíveis nas ruas do centro da cidade do Rio. Sempre em um banquinho cheirando a graxa, ao lado de uma cadeira enorme para os transeuntes que desejarem um brilho em seus sapatos, os sapateiros se colocam a disposição dos mais ínfimos consertos, desde uma alça de sandália arrebentada até uma complexa cirurgia de colar boca de jacaré.
Tem um, na rua São José, quase em frente ao Buraco do Lume (parênteses: não faço a mínima idéia como um lugar tão bonitim recebeu um nome tão feio. Um professor de História da minha faculdade disse que a origem veio do nome de uma empresa, Lume, que comprou o terreno, chegou a começar a construir um arranha-céu no lugar mas faliu antes, deixando ali um buracão, o Buraco do Lume). Ele já é idade, usa óculos escuros, corrente e pulseira de ouro e sapatos brilhando, devidamente engraxados (propaganda, talvez?). E conserta tudo, tudo mesmo; até faz aplicações de lacinhos e strass em sandálias de perua, praticamente renovando o acessório.
Mas esse é especial, entre todos, para mim. Primeiro porque nunca aceita o dinheiro até que o sapato esteja devidamente embalado e escovado. Quando se tenta dar o dinheiro para ele antes, ele descarta com um gesto, dizendo: “Calma. Ainda não mereci o pagamento”, e enrola os sapatinhos com todo o cuidado, procurando falhas (inexistentes) em seu serviço, para em seguida entregar o produto ao cliente, recebendo o dinheiro com um ar de satisfação no rosto. E segundo, porque foi o único sapateiro que, após executar um serviço de uma forma completamente eficiente, pediu para que eu esperasse e sacou um cartão do bolso. No cartão, os dizeres: “ZEZINHO, PERSONAL SAPATEITOR”, com o celular escrito embaixo.
Controlando-me para não rir da frase no cartão, ouvi respeitosamente Zezinho contar que, se eu tiver problemas com meu sapato, ao ponto de não poder andar com ele na rua, é só ligar para ele, e ele sai de seu ponto, vai até o local, conserta o sapato “em caráter emergencial” para depois retornar ao seu local de trabalho. Apenas avisou que, como era um serviço de “personal”, os consertos seriam mais caros do que costumam ser...
A criatividade sempre aparece nos momentos mais inacreditáveis, e nos locais mais imprevisíveis.
Tem um, na rua São José, quase em frente ao Buraco do Lume (parênteses: não faço a mínima idéia como um lugar tão bonitim recebeu um nome tão feio. Um professor de História da minha faculdade disse que a origem veio do nome de uma empresa, Lume, que comprou o terreno, chegou a começar a construir um arranha-céu no lugar mas faliu antes, deixando ali um buracão, o Buraco do Lume). Ele já é idade, usa óculos escuros, corrente e pulseira de ouro e sapatos brilhando, devidamente engraxados (propaganda, talvez?). E conserta tudo, tudo mesmo; até faz aplicações de lacinhos e strass em sandálias de perua, praticamente renovando o acessório.
Mas esse é especial, entre todos, para mim. Primeiro porque nunca aceita o dinheiro até que o sapato esteja devidamente embalado e escovado. Quando se tenta dar o dinheiro para ele antes, ele descarta com um gesto, dizendo: “Calma. Ainda não mereci o pagamento”, e enrola os sapatinhos com todo o cuidado, procurando falhas (inexistentes) em seu serviço, para em seguida entregar o produto ao cliente, recebendo o dinheiro com um ar de satisfação no rosto. E segundo, porque foi o único sapateiro que, após executar um serviço de uma forma completamente eficiente, pediu para que eu esperasse e sacou um cartão do bolso. No cartão, os dizeres: “ZEZINHO, PERSONAL SAPATEITOR”, com o celular escrito embaixo.
Controlando-me para não rir da frase no cartão, ouvi respeitosamente Zezinho contar que, se eu tiver problemas com meu sapato, ao ponto de não poder andar com ele na rua, é só ligar para ele, e ele sai de seu ponto, vai até o local, conserta o sapato “em caráter emergencial” para depois retornar ao seu local de trabalho. Apenas avisou que, como era um serviço de “personal”, os consertos seriam mais caros do que costumam ser...
A criatividade sempre aparece nos momentos mais inacreditáveis, e nos locais mais imprevisíveis.
terça-feira, 24 de março de 2009
Não me venha com comida esquisita
Na boa? Não entendo como tem gente que gosta de comer churros. Nunca fui fã desse tipo de alimento, e sempre desconfiei de sua origem e procedência, desde os primeiros momentos em que me apercebi que os churros existiam na face da Terra, em um episódio antigo de Chaves (“Churrrrros! Quem quer churrroos!”. Lembram?).
Vamos ser lógicos: eles tem uma cor marrom esquisita, que lembra algo que todos estão familiarizados quando precisam ir ao banheiro; o formato também lembra a mesma bendita coisa, e o recheio é um doce de leite tão, mais tão concentrado, que chega a ser enjoativo só de olhar.
E outra coisa: churros são perigosos. Você não acreditaria, mas eles são. Lembro nitidamente de um dia em que estava indo para faculdade, no Largo do São Francisco, no centro da cidade, e atravessava a Rua do Ouvidor, quando uma das barraquinhas nojentas que vendem churros naquela via simplesmente EXPLODIU. Sério mesmo. Com direito a bola de fogo, gente correndo para todos os lados, e o cara dono da barraquinha pegando seu equipamento em chamas pelas alças de metal que não estavam incendiadas, desesperado, em busca de algum chafariz com água ou coisa que o valha – até que um cara saindo de uma loja com um extintor deu fim ao fogo. Detalhe: uma mulher tinha comprado um churro na mesma barraquinha SEGUNDOS antes de ela explodir. Se tivesse o desejo de comer churros dois segundos mais cedo, teria virado um horrível churrasquinho humano.
Infelizmente, churros são uma das coisas que mais vendem no centro da cidade. Não sei se é porque a barraca é mais barata; não sei se é a demanda. Mas é possível perceber que não se anda dez metros sem esbarrar em uma.
Estou falando tudo isso porque acabo de descobrir uma coisa que odeio mais que churros, entre as comidas nada saudáveis do centro: o camarão no espeto. Não faço a mínima idéia de quem inventou de vender algo tão xexelento na rua; mas se souber quem foi, juro que dou um soco na cara. Ontem, passando por perto de uma dessas barraquinhas, tive a honra de receber um bafo quente de camarão frito. A onda de fumaça se fixou no meu cabelo de forma vil, tanto que fiquei fedendo a camarão o resto do dia.
De onde se conclui: o que se faz com o último churro e com o último camarão frito de barraquinha da Terra? Você esmaga um com um pé; e outro com o outro pé!
Vamos ser lógicos: eles tem uma cor marrom esquisita, que lembra algo que todos estão familiarizados quando precisam ir ao banheiro; o formato também lembra a mesma bendita coisa, e o recheio é um doce de leite tão, mais tão concentrado, que chega a ser enjoativo só de olhar.
E outra coisa: churros são perigosos. Você não acreditaria, mas eles são. Lembro nitidamente de um dia em que estava indo para faculdade, no Largo do São Francisco, no centro da cidade, e atravessava a Rua do Ouvidor, quando uma das barraquinhas nojentas que vendem churros naquela via simplesmente EXPLODIU. Sério mesmo. Com direito a bola de fogo, gente correndo para todos os lados, e o cara dono da barraquinha pegando seu equipamento em chamas pelas alças de metal que não estavam incendiadas, desesperado, em busca de algum chafariz com água ou coisa que o valha – até que um cara saindo de uma loja com um extintor deu fim ao fogo. Detalhe: uma mulher tinha comprado um churro na mesma barraquinha SEGUNDOS antes de ela explodir. Se tivesse o desejo de comer churros dois segundos mais cedo, teria virado um horrível churrasquinho humano.
Infelizmente, churros são uma das coisas que mais vendem no centro da cidade. Não sei se é porque a barraca é mais barata; não sei se é a demanda. Mas é possível perceber que não se anda dez metros sem esbarrar em uma.
Estou falando tudo isso porque acabo de descobrir uma coisa que odeio mais que churros, entre as comidas nada saudáveis do centro: o camarão no espeto. Não faço a mínima idéia de quem inventou de vender algo tão xexelento na rua; mas se souber quem foi, juro que dou um soco na cara. Ontem, passando por perto de uma dessas barraquinhas, tive a honra de receber um bafo quente de camarão frito. A onda de fumaça se fixou no meu cabelo de forma vil, tanto que fiquei fedendo a camarão o resto do dia.
De onde se conclui: o que se faz com o último churro e com o último camarão frito de barraquinha da Terra? Você esmaga um com um pé; e outro com o outro pé!
Isso não vai mais voltar
Gostaria que, um dia, alguém inventasse uma maneira de nos transportarmos no tempo. Mas que essa viagem ao tempo não fosse destinada a presenciar momentos históricos, tipo na época da declaração da Independência, ou no dia em que inventaram o escorredor de arroz. Queria que pudéssemos viajar para os momentos mais marcantes de nossa vida. E presenciá-los, vivê-los tudo de novo, quantas vezes quiséssemos.
Sempre tenho esses desejos quando acabo de passar por um momento espetacular. Como os dias de nascimento de minhas duas sobrinhas, Laura e Luiza. Laura, agora com quatro anos, nasceu de olhos abertos, e parecia que nos observava com atenção pelo vidro do berçário, os dedinhos da mão direta tocando levemente o queixo. E quase dois anos depois, Luiza nasce também de noite, também de olhos abertos, piscando para o mundo, e com a mesma mãozinha direita roçando a bochecha. Ou quando me apaixonei pela primeira vez, a dor e a delícia de encontrar a pessoa na escola todo o dia, querendo que ele me olhasse, as borboletas flutuando no meu estômago...ou ainda quando passei o primeiro ano novo na praia de Copacabana, e vi os fogos de artifício que sempre vi pela televisão ao vivo, pela primeira vez, ao lado da minha mãezinha, que não parava de pular como uma criança, falando o tempo todo: “Que lindoo, que lindo!”. Foi tão legal...poucas vezes vi minha mãe tão feliz, tão absolutamente extasiada. E, é claro, o momento em que eu vi a banda da minha adolescência, Pearl Jam, fazer o que seria o melhor show que assisti na vida; um épico, uma catarse coletiva de 40 mil pessoas, felizes, cantando músicas que são, até hoje, a trilha sonora da minha vida.
Fui ao show do Radiohead na última sexta. Foi como estar ali e não estar ali. Porque já tinha visto aquela cena mil vezes imaginada na minha cabeça, e é lógico que nada é exatamente igual ao que imaginamos, nunca. Então, as duas cenas ficavam oscilando na minha cabeça, absolutamente encantadoras. Absolutamente perfeitas.
Hoje fico com o show na minha cabeça, lamentando que ainda não tenham inventado uma possibilidade de se transportar novamente para aquelas cenas inesquecíveis que guardamos em nossa memória.
Uma vez, vi em um filme, acho que foi no “À Espera de Um Milagre” do Tom Hanks, um relato interessante, do qual me recordo até hoje. Um dos prisioneiros que estavam em uma prisão de condenados à morte era um índio de meia idade. Ele foi informado que seria executado na cadeira elétrica em breve. Ao saber disso, perguntou para Tom Hanks, que interpretava um dos guardas, se ele acreditava em vida após a morte. E depois contou uma história, de que na aldeia dele, acreditava-se que um homem quando morria ia para um lugar onde as melhores lembranças dele estavam guardadas. E então ele revelou que, quando tinha 18 anos, ele se casou com uma moça de sua aldeia. Que ela era linda e que ele a amava com todas as forças. Que em noites estreladas e de lua cheia eles se deitavam juntos, nunca se cansando do corpo um do outro. “Foi a melhor época da minha vida”, resumiu o condenado à morte, que parecia expressar um desejo intenso de que a crença de sua aldeia estivesse certa...
Gostaria de ter um lugar recheado de lembranças para ir. Às vezes acho que poderia passar a vida inteira presa em minhas próprias lembranças.
Sempre tenho esses desejos quando acabo de passar por um momento espetacular. Como os dias de nascimento de minhas duas sobrinhas, Laura e Luiza. Laura, agora com quatro anos, nasceu de olhos abertos, e parecia que nos observava com atenção pelo vidro do berçário, os dedinhos da mão direta tocando levemente o queixo. E quase dois anos depois, Luiza nasce também de noite, também de olhos abertos, piscando para o mundo, e com a mesma mãozinha direita roçando a bochecha. Ou quando me apaixonei pela primeira vez, a dor e a delícia de encontrar a pessoa na escola todo o dia, querendo que ele me olhasse, as borboletas flutuando no meu estômago...ou ainda quando passei o primeiro ano novo na praia de Copacabana, e vi os fogos de artifício que sempre vi pela televisão ao vivo, pela primeira vez, ao lado da minha mãezinha, que não parava de pular como uma criança, falando o tempo todo: “Que lindoo, que lindo!”. Foi tão legal...poucas vezes vi minha mãe tão feliz, tão absolutamente extasiada. E, é claro, o momento em que eu vi a banda da minha adolescência, Pearl Jam, fazer o que seria o melhor show que assisti na vida; um épico, uma catarse coletiva de 40 mil pessoas, felizes, cantando músicas que são, até hoje, a trilha sonora da minha vida.
Fui ao show do Radiohead na última sexta. Foi como estar ali e não estar ali. Porque já tinha visto aquela cena mil vezes imaginada na minha cabeça, e é lógico que nada é exatamente igual ao que imaginamos, nunca. Então, as duas cenas ficavam oscilando na minha cabeça, absolutamente encantadoras. Absolutamente perfeitas.
Hoje fico com o show na minha cabeça, lamentando que ainda não tenham inventado uma possibilidade de se transportar novamente para aquelas cenas inesquecíveis que guardamos em nossa memória.
Uma vez, vi em um filme, acho que foi no “À Espera de Um Milagre” do Tom Hanks, um relato interessante, do qual me recordo até hoje. Um dos prisioneiros que estavam em uma prisão de condenados à morte era um índio de meia idade. Ele foi informado que seria executado na cadeira elétrica em breve. Ao saber disso, perguntou para Tom Hanks, que interpretava um dos guardas, se ele acreditava em vida após a morte. E depois contou uma história, de que na aldeia dele, acreditava-se que um homem quando morria ia para um lugar onde as melhores lembranças dele estavam guardadas. E então ele revelou que, quando tinha 18 anos, ele se casou com uma moça de sua aldeia. Que ela era linda e que ele a amava com todas as forças. Que em noites estreladas e de lua cheia eles se deitavam juntos, nunca se cansando do corpo um do outro. “Foi a melhor época da minha vida”, resumiu o condenado à morte, que parecia expressar um desejo intenso de que a crença de sua aldeia estivesse certa...
Gostaria de ter um lugar recheado de lembranças para ir. Às vezes acho que poderia passar a vida inteira presa em minhas próprias lembranças.
quinta-feira, 5 de março de 2009
Dois Rios
Estava voltando da praia no Arpoador e peguei um táxi para voltar para casa. Era o entardecer, muito bonito, após um dia lindo de praia. O motorista ouviu o destino, perguntou qual o caminho que eu preferia tomar, e eu respondi, rapidamente:
“Pela praia, que é mais bonito.”
“Boa resposta. O dia hoje está muito bonito.”
“O Rio é muito bonito, não é?”
“Bom moça, aí eu discordo de você. Aliás, sempre vou discordar quando afirmam que o Rio é bonito”
“?”
“Moça, é errado dizer que o Rio de Janeiro é bonito. Porque não é. O que é bonito é a zona sul do Rio, a Barra...eu sou de Madureira, fui nascido e criado lá. Madureira é Rio de Janeiro, foi um lugar legal de crescer, mas se tem uma coisa que Madureira não tem é beleza.”
“É mesmo. O senhor tem toda razão.”
“A moça concorda?”
“Sim, claro. Eu sou de Realengo, que é um dos lugares mais feios do planeta.”
“Ah, então a moça sabe do que estou falando. Tenho uma prima que mora em Realengo, é quente pra diabo.”
“Sim. E feio!”
“Pois é. As pessoas falam que o Rio é isso, o Rio é aquilo. Mas eu acho que, na verdade, existem duas cidades: essa da zona sul que encanta gringo e turista, e o resto. Mas as pessoas esquecem que isso aqui, da zona sul, é apenas 10% da cidade inteira, que é suja e mal cuidada...”
“...e onde mora a maior parte da população.
“E onde mora a maioria da população! Eu, por exemplo, nunca fui no bondinho nem no Pão de Açúcar. E a moça?”
“Fui aos 25 anos pela primeira vez, nos dois lugares.”
“E no centro? A primeira vez que fui ao centro do Rio eu devia ser macaco velho, com vinte e poucos anos...estudava e trabalhava em Madureira, não precisa sair de lá.”
“Eu fui pela primeira vez com 17 anos.”
“Pois é moça. Acho que aqui temos dois Rios, mesmo. Um que todo mundo quer viver, e o outro que só se suporta, pois não tem opção de morar em lugar melhor...”
"E onde o senhor mora agora?"
"Onde mais, moça? Madureira. Como tá perigoso lá, o aluguel é barato. Mas trabalho na zona sul, porque ninguém pega táxi em Madureira. E vejo o Rio bonito do turista todo o dia, para voltar para o Rio do carioca de noite...é a vida, moça. É a vida. São dez reais e cinquenta. Boa tarde, moça."
“Pela praia, que é mais bonito.”
“Boa resposta. O dia hoje está muito bonito.”
“O Rio é muito bonito, não é?”
“Bom moça, aí eu discordo de você. Aliás, sempre vou discordar quando afirmam que o Rio é bonito”
“?”
“Moça, é errado dizer que o Rio de Janeiro é bonito. Porque não é. O que é bonito é a zona sul do Rio, a Barra...eu sou de Madureira, fui nascido e criado lá. Madureira é Rio de Janeiro, foi um lugar legal de crescer, mas se tem uma coisa que Madureira não tem é beleza.”
“É mesmo. O senhor tem toda razão.”
“A moça concorda?”
“Sim, claro. Eu sou de Realengo, que é um dos lugares mais feios do planeta.”
“Ah, então a moça sabe do que estou falando. Tenho uma prima que mora em Realengo, é quente pra diabo.”
“Sim. E feio!”
“Pois é. As pessoas falam que o Rio é isso, o Rio é aquilo. Mas eu acho que, na verdade, existem duas cidades: essa da zona sul que encanta gringo e turista, e o resto. Mas as pessoas esquecem que isso aqui, da zona sul, é apenas 10% da cidade inteira, que é suja e mal cuidada...”
“...e onde mora a maior parte da população.
“E onde mora a maioria da população! Eu, por exemplo, nunca fui no bondinho nem no Pão de Açúcar. E a moça?”
“Fui aos 25 anos pela primeira vez, nos dois lugares.”
“E no centro? A primeira vez que fui ao centro do Rio eu devia ser macaco velho, com vinte e poucos anos...estudava e trabalhava em Madureira, não precisa sair de lá.”
“Eu fui pela primeira vez com 17 anos.”
“Pois é moça. Acho que aqui temos dois Rios, mesmo. Um que todo mundo quer viver, e o outro que só se suporta, pois não tem opção de morar em lugar melhor...”
"E onde o senhor mora agora?"
"Onde mais, moça? Madureira. Como tá perigoso lá, o aluguel é barato. Mas trabalho na zona sul, porque ninguém pega táxi em Madureira. E vejo o Rio bonito do turista todo o dia, para voltar para o Rio do carioca de noite...é a vida, moça. É a vida. São dez reais e cinquenta. Boa tarde, moça."
segunda-feira, 2 de março de 2009
Caminhos, jornadas e escolhas
Estou lendo um livro chamado “Comer, Beber, Rezar”. É sobre uma mulher que abandona tudo nos Estados Unidos para passar um ano viajando, passando por Itália, Indonésia e Índia. O objetivo da viagem não poderia ser mais delicioso: ela está em busca de coisas que não tinha em sua vida cotidianíssima e normalíssima (bom, mais ou menos normalíssima. Ela parece viajar muito em seu trabalho. Ainda não sei direito o que ela faz, não terminei o livro). A autora, até a parte em que eu li, parece experimentar outros tipos de percepção quando confrontada com culturas diferentes do rame-rame cotidiano anglo saxão, que é acordar; trabalhar; sair do trabalho; encher a cara; voltar para a casa e dormir - para começar tudo de novo no dia seguinte.
Creio que as mulheres foram as leitoras principais desse livro, as que alavancaram as vendas dessa obra. É de se imaginar algo assim, visto que a busca da escritora é descrita de uma forma muito feminina – embora o tema, de se sair pelo mundo em uma jornada, tenha sido o tema de várias histórias com personagens masculinos, desde o ano de mil e bolinha. Entretanto, enquanto posso visualizar várias mulheres, ou até mesmo alguns homens, entrando nas livrarias para comprar o livro, não consigo imaginar muitas delas ou deles fazendo o que ela fez: indo para a Itália porque queria aprender italiano; indo para Índia para buscar orientação espiritual e religiosidade.
Fiquei triste ao ver na capa que mais de quatro milhões desse livro foram vendidos no mundo. Isso mesmo, triste. Porque, pensei eu, as mulheres que compraram o livro, em sua maioria, devem ter se sentido atraídas pela história da escritora - que praticamente fugiu de sua própria vida -, e recomendaram para suas amigas como um livro maravilhoso; e estas, por sua vez, também sugeriram para outras amigas, e assim por diante. Um círculo virtuoso de leitura, admito. Mas não de vivência.
Por que é mais fácil para nós, homens e mulheres, comprar livros do que fazermos nós mesmos as coisas que os livros descrevem? Por que não vi notícias nos jornais de quatro milhões de pessoas que abandonaram seus empregos pelo mundo para buscar algo novo para suas vidas?
E o mais importante de tudo isso, pelo menos para mim: porque eu estou entre essas pessoas que compram livros, e não inserida dentro daquele pequeno grupo que realmente parte em busca de algo, em suas próprias jornadas?
Recordo agora de um poema de Robert Frost. Não lembro o título, mas sei de cor um trecho que guardo na memória, com temor por realizá-lo, com temor por não realizá-lo. “Two roads diverged in a wood/ and I--I took the one less traveled by/And that has made all the difference”.
Creio que as mulheres foram as leitoras principais desse livro, as que alavancaram as vendas dessa obra. É de se imaginar algo assim, visto que a busca da escritora é descrita de uma forma muito feminina – embora o tema, de se sair pelo mundo em uma jornada, tenha sido o tema de várias histórias com personagens masculinos, desde o ano de mil e bolinha. Entretanto, enquanto posso visualizar várias mulheres, ou até mesmo alguns homens, entrando nas livrarias para comprar o livro, não consigo imaginar muitas delas ou deles fazendo o que ela fez: indo para a Itália porque queria aprender italiano; indo para Índia para buscar orientação espiritual e religiosidade.
Fiquei triste ao ver na capa que mais de quatro milhões desse livro foram vendidos no mundo. Isso mesmo, triste. Porque, pensei eu, as mulheres que compraram o livro, em sua maioria, devem ter se sentido atraídas pela história da escritora - que praticamente fugiu de sua própria vida -, e recomendaram para suas amigas como um livro maravilhoso; e estas, por sua vez, também sugeriram para outras amigas, e assim por diante. Um círculo virtuoso de leitura, admito. Mas não de vivência.
Por que é mais fácil para nós, homens e mulheres, comprar livros do que fazermos nós mesmos as coisas que os livros descrevem? Por que não vi notícias nos jornais de quatro milhões de pessoas que abandonaram seus empregos pelo mundo para buscar algo novo para suas vidas?
E o mais importante de tudo isso, pelo menos para mim: porque eu estou entre essas pessoas que compram livros, e não inserida dentro daquele pequeno grupo que realmente parte em busca de algo, em suas próprias jornadas?
Recordo agora de um poema de Robert Frost. Não lembro o título, mas sei de cor um trecho que guardo na memória, com temor por realizá-lo, com temor por não realizá-lo. “Two roads diverged in a wood/ and I--I took the one less traveled by/And that has made all the difference”.
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domingo, 1 de março de 2009
A Roupa e o Ser
Fui à praia do Arpoador ontem e, quando cheguei à areia, acompanhada de uma amiga, vi uma discussão entre um catador de latas; um vendedor de comidinhas e bebidinhas de barraquinha; e um policial. Aparentemente, os barraqueiros estavam acusando o vendedor de latinhas de ter sumido com a bolsa de um cliente. O vendedor jurava inocência; os barraqueiros contavam sua parte da história com insistência; e o policial ouvia e tentava acalmar os dois lados.
O vendedor de latinhas, quando percebeu que a situação começou a ficar preta para o lado dele, começou a berrar que era trabalhador, pegou o saco de latinhas que tinha juntado o dia inteiro, jogou aos pés dos barraqueiros e do policial. Mas não foi isso que me chamou atenção. Foram as palavras berradas do vendedor, quando percebeu que não estavam acreditando nele. Insultou os barraqueiros e completou:
“Vai, vai reclamar da vida para esse calça curta, que nem poliça (sic) é. O cara é um segurança, olha como ele tá vestido!”
Já tinha notado a mudança de uniformes dos policiais que atendem na praia, no Rio de Janeiro. Diferente do uniforme completo, que incluía calças, botas, camisa branca do lado de dentro e blusa abotoada, os oficiais da lei agora usam bermudas azul marinho, tênis com meias, camiseta branca, boné e cassetete. Uma roupa bem mais coerente para lidar com o calor de 40 graus que agora é padrão no verão carioca.
Mas, estranhamente, pessoas acostumadas com a farda dos policiais de antigamente não mais os reconhecem imediatamente como figuras de autoridade. É como se nossos olhos estivessem já acostumados com um padrão, e a mudança de roupa dos policiais demorassem a se encaixar em nossos olhos, que fazem, ainda, uma ligação muito grande entre a roupa de uma pessoa e seu dever.
Vejo isso no meu trabalho também. Repórteres de televisão têm um padrão de vestuário impecável: homens de terno, mulheres de tailleur, sempre. E jornalistas que cobrem a área de economia estão quase sempre com roupas sociais, em sua maioria. Claro, alguns tentam quebrar essa regra não escrita, e usam jeans. Mas até o momento, pelo que tenho observado, não são maioria.
Lembro de uma pauta em que fui visitar a fábrica de uma importante marca de cosméticos. Era no interior do estado, estava um calor horroroso, e fui com uma blusa preta, sem mangas, e uma saia vermelha, com sandálias pretas. Fui apresentada à mulher do dono da fábrica, durante a visita. E, quando ela me cumprimentou, não pôde deixar de comentar:
“Nossa, você é diferente do que eu imaginava. Esperava alguém de terninho.”
Fiquei vermelha quase que imediatamente e, com um sorriso amarelo, expliquei apenas que estava muito calor para usar terninho. Ela percebeu a grosseria do comentário, pediu desculpas e começamos o tour pela fábrica. Mas é claro que, depois daquela observação, parte da minha confiança, que seria absolutamente necessária no lidar com a fonte, foi jogada no lixo.
Ainda não entendo como algumas pessoas consideram futilidade falar, discutir ou se preocupar com roupas. É algo que mexe com sua mentalidade, com sua percepção de si mesmo, de uma forma que praticamente nenhum outro objeto material faz.
A escolha do que você usa define como você quer aparentar ser para os outros. Mas ainda é mais do que isso: a nossa seleção de roupas mostra como queremos ser para nós mesmos.
O vendedor de latinhas, quando percebeu que a situação começou a ficar preta para o lado dele, começou a berrar que era trabalhador, pegou o saco de latinhas que tinha juntado o dia inteiro, jogou aos pés dos barraqueiros e do policial. Mas não foi isso que me chamou atenção. Foram as palavras berradas do vendedor, quando percebeu que não estavam acreditando nele. Insultou os barraqueiros e completou:
“Vai, vai reclamar da vida para esse calça curta, que nem poliça (sic) é. O cara é um segurança, olha como ele tá vestido!”
Já tinha notado a mudança de uniformes dos policiais que atendem na praia, no Rio de Janeiro. Diferente do uniforme completo, que incluía calças, botas, camisa branca do lado de dentro e blusa abotoada, os oficiais da lei agora usam bermudas azul marinho, tênis com meias, camiseta branca, boné e cassetete. Uma roupa bem mais coerente para lidar com o calor de 40 graus que agora é padrão no verão carioca.
Mas, estranhamente, pessoas acostumadas com a farda dos policiais de antigamente não mais os reconhecem imediatamente como figuras de autoridade. É como se nossos olhos estivessem já acostumados com um padrão, e a mudança de roupa dos policiais demorassem a se encaixar em nossos olhos, que fazem, ainda, uma ligação muito grande entre a roupa de uma pessoa e seu dever.
Vejo isso no meu trabalho também. Repórteres de televisão têm um padrão de vestuário impecável: homens de terno, mulheres de tailleur, sempre. E jornalistas que cobrem a área de economia estão quase sempre com roupas sociais, em sua maioria. Claro, alguns tentam quebrar essa regra não escrita, e usam jeans. Mas até o momento, pelo que tenho observado, não são maioria.
Lembro de uma pauta em que fui visitar a fábrica de uma importante marca de cosméticos. Era no interior do estado, estava um calor horroroso, e fui com uma blusa preta, sem mangas, e uma saia vermelha, com sandálias pretas. Fui apresentada à mulher do dono da fábrica, durante a visita. E, quando ela me cumprimentou, não pôde deixar de comentar:
“Nossa, você é diferente do que eu imaginava. Esperava alguém de terninho.”
Fiquei vermelha quase que imediatamente e, com um sorriso amarelo, expliquei apenas que estava muito calor para usar terninho. Ela percebeu a grosseria do comentário, pediu desculpas e começamos o tour pela fábrica. Mas é claro que, depois daquela observação, parte da minha confiança, que seria absolutamente necessária no lidar com a fonte, foi jogada no lixo.
Ainda não entendo como algumas pessoas consideram futilidade falar, discutir ou se preocupar com roupas. É algo que mexe com sua mentalidade, com sua percepção de si mesmo, de uma forma que praticamente nenhum outro objeto material faz.
A escolha do que você usa define como você quer aparentar ser para os outros. Mas ainda é mais do que isso: a nossa seleção de roupas mostra como queremos ser para nós mesmos.
No supermercado
“Tem certeza que vai levar isso?”
“Como?”
“Senhora. Olha. Não é porque sou caixa daqui que vou deixar de ser sincero. Mas olha só: impossível não dizer. A senhora não devia levar isso, não por esse preço.”
“O preço?”
“Senhora, pagar mais de nove reais por sete tomates é um roubo.”
“Mas são orgânicos. Por isso é que são mais caros.”
“Há. Orgânicos. Sei. Olha senhora, todo mundo é orgânico, eu sou orgânico, a senhora é orgânica...”
“Não, o que eu digo é que eles são fabricados sem agrotóxico.”
“E a senhora realmente acredita nisso? Olha para essa cor de tomate, senhora. Eu sei do que estou falando, sou de Minas, minha família inteira é, minha avó tinha um sítio e criava tomates no jardim. Ela não usava agrotóxicos, isso eu sei. E o tomate dela não ficava dessa cor, nem desse tamanho.”
“Mas eu acho que eles usam outro tipo de método...”
“Senhora, vai por mim: isso aqui é tão orgânico quanto esse Toddynho. Aliás, vai levar Toddynho a esse preço?”
“Está na promoção...”
“Senhora, no ______ e no ___________ está pela metade do preço.”
“É claro que está, eles não pagam impostos. São um bando de sonegadores. Por isso os preços são tão baratos.”
“Senhora, vou falar francamente, porque sou super franco: quem se importa? E daí que eles não pagam impostos? Os impostos vão para algum lugar que preste? Vão arrumar a minha rua em Vaz Lobo ou asfaltar a casa da minha prima no Jabour? Ou consertar o trem Gramacho-Saracuruna? Então, para que se importar se eles embolsam o dinheiro?
“Acho que seu supervisor está nos olhando...”
“Deixa que olhe. Desculpa, senhora, vou falar mais baixo. Não quero constranger a senhora, é que sou muito sincero.”
“Agradeço muito.”
“Olha aqui isso. Seis cebolas por sete reais...já sei, já sei, são orgânicas.”
“Isso mesmo.”
“Eu sei que todo mundo tem o direito de acreditar no que quiser. Mas senhora, eu vou te dizer uma coisa: tem muita gente que ganha dinheiro em cima da fé das pessoas. Minha avó diz que todo mundo está perdendo a fé, mas acho que é o contrario. As pessoas acreditam demais, sabe? Acreditam em qualquer coisa...”
“Prefiro acreditar que não sou enganada.”
“Sim. É, tenho certeza que prefere. E tenho certeza que a senhora é mais feliz que eu. Olha isso. Quatro reais por uma caixa de leite...”
“Vai dizer que nos outros supermercados está mais barato, não?”
“Não senhora. Acho que a senhora está pagando o preço que deve. Por ter esperança, sabe? Deu 64 reais. Boa noite senhora, boa sorte.”
“Como?”
“Senhora. Olha. Não é porque sou caixa daqui que vou deixar de ser sincero. Mas olha só: impossível não dizer. A senhora não devia levar isso, não por esse preço.”
“O preço?”
“Senhora, pagar mais de nove reais por sete tomates é um roubo.”
“Mas são orgânicos. Por isso é que são mais caros.”
“Há. Orgânicos. Sei. Olha senhora, todo mundo é orgânico, eu sou orgânico, a senhora é orgânica...”
“Não, o que eu digo é que eles são fabricados sem agrotóxico.”
“E a senhora realmente acredita nisso? Olha para essa cor de tomate, senhora. Eu sei do que estou falando, sou de Minas, minha família inteira é, minha avó tinha um sítio e criava tomates no jardim. Ela não usava agrotóxicos, isso eu sei. E o tomate dela não ficava dessa cor, nem desse tamanho.”
“Mas eu acho que eles usam outro tipo de método...”
“Senhora, vai por mim: isso aqui é tão orgânico quanto esse Toddynho. Aliás, vai levar Toddynho a esse preço?”
“Está na promoção...”
“Senhora, no ______ e no ___________ está pela metade do preço.”
“É claro que está, eles não pagam impostos. São um bando de sonegadores. Por isso os preços são tão baratos.”
“Senhora, vou falar francamente, porque sou super franco: quem se importa? E daí que eles não pagam impostos? Os impostos vão para algum lugar que preste? Vão arrumar a minha rua em Vaz Lobo ou asfaltar a casa da minha prima no Jabour? Ou consertar o trem Gramacho-Saracuruna? Então, para que se importar se eles embolsam o dinheiro?
“Acho que seu supervisor está nos olhando...”
“Deixa que olhe. Desculpa, senhora, vou falar mais baixo. Não quero constranger a senhora, é que sou muito sincero.”
“Agradeço muito.”
“Olha aqui isso. Seis cebolas por sete reais...já sei, já sei, são orgânicas.”
“Isso mesmo.”
“Eu sei que todo mundo tem o direito de acreditar no que quiser. Mas senhora, eu vou te dizer uma coisa: tem muita gente que ganha dinheiro em cima da fé das pessoas. Minha avó diz que todo mundo está perdendo a fé, mas acho que é o contrario. As pessoas acreditam demais, sabe? Acreditam em qualquer coisa...”
“Prefiro acreditar que não sou enganada.”
“Sim. É, tenho certeza que prefere. E tenho certeza que a senhora é mais feliz que eu. Olha isso. Quatro reais por uma caixa de leite...”
“Vai dizer que nos outros supermercados está mais barato, não?”
“Não senhora. Acho que a senhora está pagando o preço que deve. Por ter esperança, sabe? Deu 64 reais. Boa noite senhora, boa sorte.”
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