domingo, 8 de fevereiro de 2009

O caso do enfeite de mesa

Cheguei à festa, no sábado à noite, suando horrores. É incrível como as noites desse verão de 2009 têm sido quentes. Não: abafadas. Sem vento. Como se o Rio de Janeiro inteiro tivesse se transformado em Realengo, cercada por montanhas, morros, por todos os lados, onde o ar não tem como circular.
Meus amigos, ao notarem meu estado lastimável, derretendo, fazem o que os amigos sempre devem fazer nessa hora: oferecem uma cerveja. Cansada demais para falar uma desculpa educada, simplesmente digo a verdade:
“Não, não posso. Não estou bebendo”
“Ah, tá tomando antibiótico?”
“Não, não vou beber por três meses”
“Hein? Por quê?”
“Porque comi um enfeite de mesa no Ano Novo”.
Silêncio. Vejo os olhares espantados de praticamente metade da festa em mim e percebo que, dessa vez, fui sincera demais, para gente demais.
Suspirei. O que se há de fazer, pensei. Na dúvida, diga a verdade, como diria Mark Twain. E contei a história. No réveillon, fui para uma festa patrocinada por uma operadora de telefonia celular. Era o melhor dos mundos, era o melhor de meu mundo: comida E bebida, fartas...DE GRAÇA. Não sei se é porque vivi em Realengo tanto tempo, e lá o pessoal, desde criança, sabe valorizar de verdade quando as coisas são dadas de graça (tinha briga forte por saquinho de doces, no dia de São Cosme e São Damião). Mas se tem uma coisa que me deixa completamente descontrolada são ambientes com comida e bebida de graça. Tenho sempre que aproveitar tudo, comendo coisas de que nem gosto muito, experimentando tudo. Simplesmente porque é de graça.
Enfim, a noite foi passando...espumante para cá, cerveja belga para lá, caipivodka para cá, blá-blá-blá, feliz ano novo, olha aquele cara caindo na escada e arrebentando o queixo, crise de soluço de dez minutos, alguém já morreu de soluço, o espumante acabou, ainda tem caipivodka, etc, etc...
E foi então eu vi, brilhando no centro de uma mesa. Dentro daquelas tigelas de vidro transparente. Uau, pensei. Jujubas coloridas. Jujubas coloridas E brilhantes. Peguei uma na mão, e comi. Comi a segunda. Na terceira (acho) uma grande amiga, sóbria, que estava na Coca Light a noite toda (por opção. Só um parênteses: ela é nascida e criada em Laranjeiras), percebe a situação. “Cospe! COSPE ISSO AGORA!” ela comanda, olhando direto para mim. Não obedeço, e ela tem que fazer o que toda mãe faz quando vê o filho engolindo areia/barata/qualquer objeto que não seja comida, e aperta minhas bochechas com força para que eu cuspisse. Cuspi, desiludida. Ela diz para não fazer mais isso, e eu, como criança pega no flagra, fico com ar amuado no rosto.
(parênteses. Não eram jujubas. Eram bolinhas de gel...)
Mais tarde, voltando para casa da festa, e mais sóbria, fico arrasada ao lembrar do ocorrido. Porque isso era coisa de bêbado, sim, mas bêbado de sarjeta, e eu sempre tive a impressão que era uma bêbada mais digna (como se houvesse dignidade nos bêbados..).
Minhas amigas, também no táxi, tentam me consolar, sem sucesso. Desconsolada, me confesso com o motorista, ainda não acreditando no que tinha feito.
“Moço, estou tão mal...”
Ele, de soslaio, pensando essa-garota-vai-vomitar-no-meu-tapete-novo. Mas olhou para minha cara, ficou satisfeito com o que viu e perguntou, amável.
“Qual o problema, minha filha?”
“Moço. Bebi demais e comi um enfeite de mesa!”
Ele suspirou. E com toda a sua sabedoria de motorista de táxi da madrugada do Rio, responde:
“Minha filha. Isso acontece!”

2 comentários:

  1. Tava gostoso? Fez mal?
    Se o sabor não era estranho e não deu piriri, você acaba de criar um novo tira-gosto! Pode por seu nome nele. Que tal "alelubinha"?

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  2. Eu não comi a bolinha de gel, mas fiquei com vontade...

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