O Carnaval no Rio mudou muito nos últimos anos. Lembro que, quando era criança, a presença de blocos carnavalescos nas ruas era algo quase à beira da extinção. Uma coisa realmente triste, já que o Carnaval do Rio começou nas ruas. Recordo nitidamente que, na pracinha de Realengo, na avenida Santa Cruz, ficava um carro de som tocando marchinhas, e as pessoas dançavam e bebiam nas ruas. Até seres de grande inteligência, para não dizer outros adjetivos, começarem a levar armas e disparar tiros para o alto com o intuito de comemorar alguns momentos mais marcantes das canções. O carro de som sumiu rapidinho.
Seja por causa da violência ou simplesmente porque as pessoas começaram a achar que Carnaval era simplesmente ligar a televisão para assistir o desfile das escolas de samba no Sambódromo, na Apoteose (postura que minha família e nossos vizinhos começaram a assumir, quando o carro de som na pracinha de Realengo desapareceu dos carnavais), ou pular a sua folia em um Clube (agh!), o fato é que, nas décadas de 80 e início de 90 do século passado, blocos de carnaval não eram mais tão comuns nas ruas do Rio. Pensei nas palavras de um antigo professor de história, do segundo grau, que quando se aproximava a data, suspirava e dizia para nós, alunos: “tiraram o Carnaval de nós, do povo. Era de graça o que agora nós compramos”, falava, enquanto explicava para nós, adolescentes, que antigamente as escolas de samba desfilavam pela avenida Rio Branco, no centro do Rio, antes da inauguração da Marques de Sapucaí, em 1984. O público participava do desfile e era tão importante quanto as penas de pavão que enfeitavam as fantasias dos foliões.
Mas isso acabara, e agora o povo era obrigado a comprar ingressos para assistir um espetáculo que ele mesmo criara.
Porém, a inevitabilidade de que a folia pertencia às ruas não tardou a se fazer sentir. Pouco a pouco os blocos voltaram, e agora qualquer pessoa a acesso a jornais ou Internet pode descobrir que as ruas do Rio, no Carnaval, tornam-se intensos bailes de música ao vivo com cerveja gelada. Os nomes dos blocos são as coisas mais engraçadas do planeta. No Carnaval passado, comecei minha folia indo no “Vem ni mim que eu sou Facinha” (parênteses: não é composto apenas de facinhas, e sim de facinhos de uma maneira geral. Todo mundo é fácil nesse bloco, pois não há uma única pessoa sóbria. Sério mesmo.) para depois passar no “Rola Preguiçosa” (outro parênteses: o bloco começa com uma “Rola” inflável amarrada em uma picape, e termina quando a genitália masculina está completamente fora de combate, murcha, o ar escapando de seus ‘pulmões’. Tudo muito metafórico), continuando com o Cordão do Bola Preta, Barbas (onde uma loira gordona comanda uma mangueira de água de cima de um carro de som, molhando os corpos e cervejas de todos os foliões); Bip Bip (que é o nome de um bar no Rio, onde as pessoas se concentram, bebendo, até meia noite em um dia de Carnaval quando dão a volta ao redor do quarteirão onde fica o bar, sambando e cantando. E assim termina o bloco!); Quizomba (o melhor, o melhor, o melhor!) entre outros.
Sim, meu carnaval do ano passado foi bem divertido. Mas não há Carnaval mais marcante do que aquele em que você não participa. Durante anos fiquei de plantão, trabalhando, nessa época de folia, e não aproveitando ao máximo a ressurreição dos blocos – coisa que fiz ano passado, faminta como uma criança que foi liberada para comer doces após passar um longo tempo de castigo.
O último Carnaval que passei trabalhando foi o de 2007, e vou te contar, amigo: nada é pior que estar trabalhando pesado quando todo mundo está se divertindo. Lembro de ter começado meu dia de plantão com uma matéria em que fui obrigada a seguir uma passista e uma baiana em seu dia de preparação antes de entrarem na avenida. A passista morava em Vaz Lobo, a baiana, em Madureira. Uma hora para ir, uma hora para voltar para redação e bater matéria, onde descrevi coisas como os sacrifícios da passista que queria entrar com silicone esse ano na Marques de Sapucaí, mas o namorado só queria pagar um peito. “Convenci minha mãe a pagar o outro peito, com muito esforço” disse a linda mulata, com um sorriso de satisfação no rosto. Doze horas de trabalho no primeiro dia.
No segundo dia de plantão, mandaram que eu repercutisse junto à “mangueirenses famosos” a briga ocorrida naquele ano entre a cantora Beth Carvalho e a Mangueira. O problema é que não sou expert de Carnaval, e não sei quem é mangueirense famoso! Desesperada, digitei no google “mangueirenses famosos” e fui tentando ligar para as pessoas que esse salvador sistema de buscas pela Internet me indicou.
No terceiro dia tem um e-mail do meu chefe, na minha caixa de entrada, com o seguinte título: “Última roubada, prometo”. Eu tinha que fazer uma matéria analítica sobre os desfiles da escola de Samba do Rio e conversar com especialistas do Carnaval para saber se as escolas cariocas mudaram muito sua forma de desfilar naquele ano, na comparação com anos anteriores. Detalhe: eu não tinha assistido um ÚNICO desfile naquele ano, e ainda cometi o mico de ligar para a Leci Brandão, que me respondeu, surpresa, quando ouviu meu pedido: “Minha filha, eu só cubro o Carnaval de São Paulo há cinco anos! Você não vê pela televisão?”
O pior era ficar trancada na redação, localizada no centro do Rio, e ouvir os blocos passarem. Os risos, as músicas, os sons de bêbados e da folia que passava por nós, enquanto trancafiados, sóbrios, em quatro paredes...era horrível.
Lembrei disso tudo pois soube recentemente que não vou trabalhar no Carnaval esse ano. Portanto, estou apenas a alguns dias de ser mais uma animada participante dos blocos que pululam hoje no Rio. Esse ano vou tentar ir aos blocos que não consegui ir no ano passado, como o “Concentra mas não Sai”; “Se não quer me dar, me empresta” e “Carmelitas” (parênteses: os nomes dos blocos não são sensacionais?)
Emquanto escrevo, ouço agora os acordes de apitos e de um samba antigo pelo ar. Corro até a janela e vejo que já tem um bloco pré-carnavalesco passando pelas ruas de Copacabana, agora. Então, com licença que vou trocar de roupa, sair da frente desse computador, e começar minha folia mais cedo.
Ah. Estão cantando uma das minhas favoritas! "Hoje vou tomar um porre/não me socorre/que eu estou feliz..."
Cara, eu AMO o Rio de Janeiro!
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