quinta-feira, 30 de abril de 2009

O antigo e o Novo

Entre as coisas mais legais ainda presentes na zona sul e no centro do Rio de Janeiro está a existência, ou sobrevivência, de alguns cinemas de rua. Embora tenham ocorrido baixas consideráveis nos últimos tempos, como os últimos suspiros do Cine Paissandu no bairro do Flamengo, zona sul do Rio, e do Cine Palácio no centro do Rio, ainda é possível encontrar boas opções de cinema na capital fluminense que não sejam dentro de horríveis e apertadas salas de shoppings; ou então dentro de qualquercoisa-plexes da vida - onde um saco de pipoca é mais caro que um prato de arroz, feijão e bife com salada. (parênteses: pelo amor de Deus, aquilo é PIPOCA! Feita com milho sal e manteiga! Um sacão de milho no supermercado é R$ 1,99! Não vale o preço cobrado nos cinemas...).

As mais gostosas alternativas de cinema de rua da cidade são, na minha modesta opinião, o Roxy, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com rua Bolívar, em Copacabana; o cine Odeon na Cinelândia, centro do Rio; e o cine São Luiz, no Largo do Machado, entre os bairros de Catete e Flamengo, na zona Sul. Todos foram reformados. E posso dizer uma coisa, sem parecer saudosista, apenas realista: os dois primeiros, após passarem por mudanças e tentativas de reconstruir a beleza da arquitetura original, colocam no chinelo, em termos de beleza, qualquer cinema “muderninho” construído no século XXI.

Tinha um professor na faculdade que comentava sobre isso. Sobre como a arquitetura do final do século XIX e início do XX construía, de forma costumeira, prédios com pé-direito alto e grandes arcos nas portas de acesso, lindamente enfeitados com figuras heráldicas ou mitológicas. “Construíamos prédios para gigantes, porque o homem se considerava um gigante. Agora construímos caixas de sapatos. Pois os homens se comparam hoje às baratas”, dizia ele, nas aulas.

O Roxy e o Odeon são exemplos disso. Em primeiro lugar são cinemas com letreiros enormes, vistosos, coloridos. Embora o Roxy tenha, após a reforma e modernização, adicionado várias comodidades do século XXI, como novos banheiros e elevador para idosos, ele manteve a magnífica escadaria de mármore, com apoios dourados e detalhes enfeitados na margem. É a primeira coisa que se vê quando se entra no cinema. Coisa para gigantes.

Já o Odeon, então, nem se fala. A reforma manteve os detalhes da sala, e a quantidade enorme de cadeiras da platéia e o balcão, ah, o balcão...é lindo e absolutamente extasiante sentar ali em cima e saber que pouquíssimos cinemas ainda os tem; ainda os conservam (parênteses: tenho medo de altura, mas adoro sentar em balcões, no teatro ou no cinema. Vai entender...)

Mas lembrei de tudo isso por causa do terceiro exemplar de cinema de rua predileto, em minha lista. O cine São Luiz, dos três, foi o que menos preservou as características originais do cinema. Ele é todo “muderninho” por dentro; tem pizzarias e restaurantes no andar de baixo e no andar de cima, três salas de cinema com venda de pipoca, café e livraria ao lado.

Entretanto, tem uma coisa que esse cinema tem, que os outros dois não possuem. Uma foto da sala de cinema, repleta de pessoas, em outubro de 1937. A foto é em preto e branco, antiga, e cheia de falhas, como costuma ser qualquer imagem antiga.

Mesmo com os borrões e manchas na foto, é possível perceber os rostos e roupas das pessoas. A foto foi tirada de frente; e os amantes do cinema aparentam estar com suas melhores roupas, homens e mulheres de chapéu, compenetrados, olhando com atenção para a tela...

Ontem fui ao São Luiz e fiquei admirando a foto. Onde estavam essas pessoas agora? Será que algumas ainda estariam vivas? Será que seus filhos e netos hoje estavam percorrendo as salas reformadas?

Eis que, em meio às reformas e atualizações, o antigo e o novo praticamente se reúnem, lado a lado, em vários pontos do Rio. Creio que isso pode ser dito de qualquer lugar do mundo. Mas no caso do Rio de Janeiro, é gostoso saber que, mesmo ao andar por lugares de grande trânsito, que passaram por tantas modificações, ainda é possível perceber o antigo nos acenando, direto do passado, com aquela certeza que um dia, nós, também, seremos uma imagem antiga e falhada pendurada em uma parede.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A Má Educação

Não sou muito fã dos filmes recentes de Pedro Almodóvar. Prefiro mais os filmes que ele fez em início de carreira, como “Pepi Luci Y Bom”, ou “Mulheres a beira de um ataque de nervos” (esse é o máximo...). Mas tenho que admitir que amei o título desse recente filme dele, “A Má Educação”. Acho um termo tão legal...isso porque as pessoas sempre preferem dizer que, quando alguém é grosso , é porque não recebeu educação nenhuma. Eu não concordo: acho que todo mundo recebe educação, mas a qualidade dessa educação é diferenciada, a depender do contexto de cada ser humano.

É impossível alguém não ter recebido nenhum tipo de educação, vivendo em sociedade. A não ser que você viva nas cavernas, como os antigos homens de Neandertal, não há como não ter assimilado qualquer tipo de tratativa social que permita viver de forma mais adequada, entre seus pares.

Mas infelizmente, a má educação é uma praga resistente, mais persistente que cabelos alisados de chapinha; gripe; e pochetes de lona. Ela está em toda a parte, de uma forma tão abrangente que as pessoas se acostumam a recebê-la e a tratá-la como normal.

Lembrei disso porque, ontem, entrei em um ônibus 175 - o mais rápido e barulhento para ir do centro da cidade para Copacabana - e, quando entreguei o dinheiro para o trocador, o seguinte diálogo bizarro aconteceu:

“Boa tarde”, eu disse.

O trocador me olha de cara feia, e responde:

“O QUÊ?”

Eu, assustada, repito com fio de voz (os trocadores do 175 são temíveis!).

“Boa...boa tarde...”

“Me chamou do quê??”

Eu, sem entender nada:

“Chamar? Não chamei o senhor de nada...”

“Me chamou sim, que eu ouvi.”

“Mas...eu só disse boa tarde!”

O homem me olhou com cara de espanto. Deu o troco em silêncio e, quando eu passava a roleta e sentava em um lugar vago, bem longe do trocador, ele balançava a cabeça e comentava, comigo e consigo mesmo.

“Boa tarde...ora essa! Boa tarde! Em 20 anos de trabalho é a primeira vez que alguém me dá uma boa tarde no serviço!”

Ouvi aquilo e não pude deixar de sorrir. É preciso ter certa dose de humor quando você percebe que a má educação superou a boa educação, ao ponto de esta última se tornar irreconhecível.

E para completar: quando saí do ônibus, o trocador agitou os braços, todo animado:

“Moça! Moça! Boa tarde, boa tarde!”

terça-feira, 28 de abril de 2009

Gripe

Tenho uma falta de sorte danada com gripes. Sempre acabam chegando nos piores momentos possíveis: véspera de viagem ou de feriadão; antes de uma mega hyper festa que eu gostaria de ir LINDA e não como a rena-do-nariz-vermelho-de-tanto-espirrar; ou então no meio de um show de rock.

Mas dessa vez, ah, dessa vez...tive que pegar uma gripe, um daqueles super resfriados mesmo, logo depois da histeria de notícias sobre gripe suína no mundo.

O resultado disso seria cômico se não fosse trágico. Não posso espirrar no trabalho que lá vem as piadas:

“Comeu carne de porco recentemente?" (parênteses: não dá para pegar gripe suína comendo carne de porco. Mas perguntam mesmo assim. Não importa a verdade, o que importa é a piada.)

“Teve contato com algum mexicano?” (outro parênteses: para falar a verdade, nunca tive contato com nenhum mexicano na minha vida. O máximo que cheguei de proximidade com algo mexicano foi beber tequila Jose Cuervo – a “ouro” – e os desenhos do Ligeirinho)

E a minha favorita, que ocorreu depois de um acesso mais forte de tosse: “A Fiocruz está te chamando!”

Gente, e no metrô? Se eu fosse daquelas que processam, processava todo mundo que estava no vagão comigo no metrô hoje de manhã. Toda a vez que eu espirrava (e infelizmente tenho uma seqüência de sete espirros matadora, que assusta qualquer um) sentia os olhares raivosos em cima de minha pessoa. Usei todos os meus lencinhos de bolso para proteger aqueles que estavam próximos de mim, mas nem isso era considerado por meus companheiros de transporte público: mais de 90% dos seres viventes no vagão só queriam que aquele foco infecto-contagioso (no caso, eu mesma) saísse do metrô.

Acabo de tomar um claritin. É corticóide mas é fogo na roupa; vamos ver se melhoro. E se tudo o mais falhar...sempre tem o temido chá de alho com limão da minha mãe. Morria de medo desse chá quando criança (por razões óbvias, porque cheira como o inferno deveria ser) mas tenho que admitir que, quando resprins; redoxons;benegripes; e chás vickes falham, a receita da minha mãe nunca me decepcionou.

Agora me dêem licença que vou espirrar lá no banheiro e já volto.

Ratos

Uma das coisas mais absolutamente desagradáveis no centro da cidade do Rio de Janeiro é a quantidade quase bubônica de ratos existente nesse trecho da cidade. Quando chove torrencialmente, aquelas chuvas de final de tarde, então, é um perigo: os ratos, desesperados por uma rota de fuga das águas, correm livremente pelas calçadas do centro, como uma cena daquele filme da década de 70 com a música do Michael Jackson, “Ben” (parênteses: eu também chorei quando o ratinho morre, ou quase morre, no filme e o menininho fica chorando e dizendo, “você vai ficar bem, Ben" – sem trocadilhos -, cuidando do ratinho no final. Mas continuo tendo pavor de ratos).

Dia desses um colega, voltando do almoço para o trabalho, contou uma história que me arrepiou a alma quando ouvi da primeira vez. Em pleno meio–dia no centro do Rio, na avenida Rio Branco, uma ratazana do tamanho de um gato pequeno corria desesperada pela calçada, deixando em pânico todas as mulheres e até mesmo alguns homens que por ali passavam na hora do almoço. Até que um homem (calçando uma botina, espero) resolveu acabar com aquela cena dantesca e deu, nas palavras do meu colega, “um bicão na ratazana” tão forte que o bicho voou pelo céu, caindo no meio da rua. E ele completou, com um adendo horroroso, que me provocou os arrepios já mencionados: “já pensou se ele atinge uma pessoa quando ele chutou a ratazana? O bicho ia cair em cima da cabeça de alguém, ou no peito de alguém...”

Urc.

Ontem choveu no centro do Rio, da maneira mais vil: aqueles pancadões de temporal completamente inesperados, que obriga você a deixar sete reais na mão de um cambista de guarda-chuvas automático para se proteger do aguaceiro. Quando voltava da faculdade para a casa, por volta das nove e meia da noite, dei um puxão brusco no meu colega de estudo, que me acompanhava até o ponto e sussurrei, quase em pânico: “olha lá, olha lá...meu Deus, aquelas sombras...é tudo rato???”

Dito e feito, leitores: cerca de dez pequenas sombras corriam rapidamente pela noite mal iluminada, e se abrigaram em uma banca de jornal.

Aquilo me lembrou um momento de pânico que tive há cerca de um ano, em uma banca de jornal ao lado do cruzamento da avenida Rio Branco com a rua do Ouvidor. Estava entretida, dentro da banca, olhando as histórias em quadrinhos que foram lançadas quando ouço berros do lado de fora da banca:

“Ih! Entrou, entrou!”

“Pega! Pega!”

Um dos transeuntes que gritava avisou ao dono da banca que um rato acabara de entrar embaixo de seu estabelecimento. E o dono, ao saber disso, começou a berrar desesperado:
“Mas vocês deixaram? Como vocês deixaram? Meu deus, esse rato vai acabar com meu estoque, vai comer todas as minhas revistas!”

E eu, em pânico, dentro da banca, sabendo que tinha um pequeno roedor embaixo de onde eu estava, só olhava palidamente para o dono, que falava alto para quem quiser ouvir:
“Anda gente, me ajuda a procurar pelo amor de Deus!”

Sou uma pessoa deveras solícita na maior parte das vezes. Acho que, assim como o profeta mencionou uma vez, gentileza gera gentileza. Mas o temor irracional de algumas coisas (baratas voadoras; alturas; oompa loompas da fantástica fábrica de chocolates) ainda prevalece sobre qualquer sentimento gentil que eu pudesse ter no corpo. Foi aí que eu comecei a berrar com o dono:

“Moço eu só quero sair daqui! Ele está na calçada? Está na rua???”

“Não dona ele entrou para dentro da banca e...!”

Vapt! Já tinha saído da banca como um raio.

Há limites para tudo. Mas às vezes acho que não há limites para o medo.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Memória de Semana Santa

Ainda hoje, vejo que existe um hábito que resiste a todas as semanas santas, desde minha infância até hoje. Não, não é o ato de não comer carne antes do domingo; ou de ir à missa no domingo de Páscoa. É a insistência de todas as emissoras de televisão descarregarem na semana santa todos os filmes possíveis e imagináveis sobre a vida de Jesus.

Desde minha tenra idade, até hoje, não tem erro: pode zapear os canais durante a semana santa, que você encontrará passando em algum canal “Rei dos Reis”; “O manto sagrado”; “Ben-Hur” entre outros. Neste momento em que escrevo essas linhas, está passando um filme péssimo sobre Jesus na sessão da tarde (parênteses: estou de plantão na redação, sem nada para fazer).

Quando era criança, acreditava que Jesus aparecia na televisão toda a semana. A culpa era de uma propaganda da antiga TVS, ou atual SBT, em que uma figura aparentando ser Jesus (um ator, obviamente)se destacava em um fundo preto com um luz no canto superior da tela, com uma voz completamente assustadora em off, dizendo “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu realmente achava que era Jesus ali na televisão, e toda a vez que ele aparecia eu ficava chocada de medo (tipos, poxa, Jesus esta lá na tevê, e está me olhando!).

Até hoje o Jesus mais perfeito, mais com cara de Jesus, ou de como os católicos acham que ele deveria parecer, é o ator de “Rei dos Reis”. Dei um Google no filme e vejo que o ator que personificou o crucificado se chamava Jeffrey Hunter, e o filme é de 1961. É o único filme sobre a vida de Jesus que me emociona. Os outros são..sei lá. Não gostei da “Última tentação de Cristo” apesar de ter adorado a premissa da história. Amo Martin Scorsese, e sou fissurada no William Dafoe. Mas é que o Dafoe não parecia com o meu Jesus Cristo, sabe? Acho que fiquei muito conectada com a figura de Hunter na memória para considerar outra pessoa para o papel.

Creio que os parâmetros que delineamos em nossas mentes para figuras emblemáticas da nossa história, e de nosso passado, acabam se tornando mais vívidos do que a própria realidade. Como a percepção de que as pessoas católicas durante a semana santa se tornam, de súbito, mais religiosas, e por isso com maior interesse em assistir filmes sobre a vida de Jesus.

Não assisti a nenhum filme sobre Jesus essa semana santa, e não pretendo assistir. Se estiver passando "Reis dos Reis" em algum canal enquanto estiver "zapeando" até posso mudar de idéia, mas por uma questão de nostalgia, e não de religião. E acho que realmente todas as semanas deveriam ser santas, para todas as religiões; com as pessoas ligando todos os dias para as questões do espírito, e não apenas em um período de sete dias por ano.

P.S. - Minha mãe acaba de ligar e, como vou dormir na casa dos meus pais hoje, avisa que tem macarrão com atum para jantar. “Porque, você sabe, não dá para comer carne, é semana santa...”

Sentidos e Verdades

Estava voltando em minha hora de almoço um dia desses e, antes de voltar ao trabalho, cutuquei minha amiga ao lado, que tinha almoçado comigo, e exclamei:

“Olha isso! Como é possível viver em um mundo assim. Olha as revistas na banca de jornal: de um lado, todas são sobre dietas e como ter o corpo em forma, e do outro tem um livro de como fazer as receitas de doce da cozinha maravilhosa da Ofélia!”, disse para minha amiga, que começou a rir e acrescentou:

“Não esqueça das propagandas de fast food.”

“Como?”

“Temos milhares e milhares de propagandas e comerciais de fast food e, ao mesmo tempo, toda a publicidade do mundo para comprar aparelhos de ginástica ou entrar na academia perfeita...”

“Isso! Você pegou o jeito. É exatamente isso o que eu quero dizer. Queremos comer muito e mal, e queremos ser magros; queremos ser saudáveis e não deixar de comer hambúrgueres; e queremos perder peso mas não suportamos fazer exercício”, afirmei, enfática, apontando para o grande anúncio de uma cadeia de lanchonetes, que estava próximo a nós duas. “É como se a gente quisesse beber um copo d’água e ao mesmo tempo manter a água no copo! Não tem sentido!”

“Mas você sabe o porquê disso, não?”

“...? Mas é claro que não? Qual o porquê disso?”

“Querida, por favor. Se tem uma coisa que as pessoas não tem na vida, é lógica. Por isso o Spock do Jornada das Estrelas fez tanto sucesso: é porque ele representa algo que nunca vamos ser, lógicos”, disse ela enquanto dava uma segunda baforada no cigarro que fumava. “Eu por exemplo, não quero morrer tão cedo; mas ao mesmo tempo, fumo dois maços por dia. Você precisa emagrecer por causa do seu joelho. Mas come no Mcdonald’s toda a semana; Qual a lógica disso?”

“Não sei...acho que o mundo tá louco, sabe?”

“Ah, amiga, qual é.”, disse a minha companheira de almoço, que revirou os olhos antes de acrescentar, apagando o cigarro com o bico do sapato fino (que provoca dores horrorosas no pé, mas que ela continua usando quase todos os dias, para se sentir “bela”). “Esse é o tipo de coisa que falamos para nos isentar da culpa. Mas a verdade é uma só, e todos sabem"

"Que seria...?"

"O mundo somos nós.”, finalizou, para em seguida acrescentar que ia tentar parar de fumar, pela terceira vez.

Stress e Apatia

Estava no metrô outro dia. Sabe aqueles avisos que vêem pelo alto falante, e o cara diz, “senhor passageiro, não ultrapasse a linha amarela.”? Pois bem, estava no metrô, e a voz no alto falante disse quase a mesma coisa, mas a entonação era de alguém que estava completamente extenuado. O homem dizia algo como “Senhores, senhores passageiros, POR FAVOR! NÃO ultrapasse a linha AMARELA! Não ultrapasseee! Eu repito, É PROIBIDO UL-TRA-PAS-SAR A LINHA AMAREEELA!”.

O tom foi tão nervoso que as pessoas nas plataformas se entreolharam, confusas. Mas depois que a voz foi embora, todos voltaram ao que estavam fazendo antes de serem interrompidos pelo extenuado anúncio.

O stress, assim como coca-cola, chiclete, e chapinha para cabelo, tornaram-se comuns entre nós. Nem nos assustamos quando percebemos que alguém está correndo pela rua; ou andando apressadamente pelas escadas do metrô ao sair da plataforma; ou chorando e no ponto de ônibus porque perdeu a condução. Achamos normal. “Isso acontece” pensamos, e voltamos a pensar em coisas mais agradáveis.

Me preocupa o fato de nos acostumarmos demais ao desconforto do outro. Sinto que não somos mais conectados, como humanidade. Parece que, sempre que a maioria, eu inclusive, percebe o nervosismo de um estranho, acredita que isso não é problema seu, e segue com seu caminho. É claro que há casos e casos; na avenida Rio Branco, no centro da cidade do Rio, algumas pessoas ainda reagem quando vêem alguém sendo assaltado, por exemplo. Mas você pode perceber, que são uma, duas, cinco pessoas que reagem e tentar ajudar alguém em sofrimento, quando existem 20, 30, 50 ao redor que nada fazem. Apenas observam. E deixam para lá.

Eu queria perguntar para o cara do alto falante porque ele estava tão nervoso. E queria ter ajudado mais, quando vi pessoas precisando de minha ajuda, de qualquer ajuda, na rua. Mas como todos, sinto-me contaminada com uma onda de apatia que parece assolar o mundo.
Queria saber a resposta para parar de me sentir assim. Queria mesmo.

Ex Machina

Estava na fila de um caixa eletrônico no centro quando noto que a pessoa que estava tentando usar o maquinário começa a bater nervosamente no maquinário. Os dois homens que estavam na fila aguardando comigo começam a se entreolhar e a olhar desconfiadamente para o senhor barbudo, de óculos, calça jeans e camisa pólo, que começava paulatinamente a perder a paciência com o caixa eletrônico. Mas antes que pudéssemos perguntar solicitamente qual era o problema, ele começou a berrar e a chutar a máquina do caixa.

“Máquina estúpida! Máquina estúpida”, ele gritava, entre um chute e outro, enquanto nós que estávamos na fila observávamos estupefatos. O som dos berros chamou a atenção do vigilante do banco, que se aproximou rapidamente do homem e pediu para ele se afastar “do maquinário”.
“Não me afasto! Não me afasto! Máquina estúpida, estúpida!” continuou ele a gritar, até o segurança colocar a mão no ombro do homem e pedir para ele se acalmar. Ao ver o tamanho do vigilante, dois metros, peito parrudo, o senhorzinho, que era nervoso mas não maluco, tentou se explicar.

“Essa máquina está de sacanagem comigo, seu guarda. Todo o dia eu venho aqui e tiro dinheiro nessa maquina e hoje ela está dizendo que a tarja do meu cartão está suja ou com defeito e não dá para sacar nada...!”

“Já tentou outra máquina? Ou limpar a tarja?”

“Já tentei aquela outra ali”, apontou para uma outra que realizava saques, em que estava uma senhorinha que acompanhava tudo de olhos esbugalhados. “E deu a mesma coisa.”

“Então, senhor, talvez sua tarja esteja suja ou danificada.”

Neste momento, o homem olhou com tanta raiva para o guarda que achei que ia começar a chutar o vigilante também. Mas ao invés disso, ele suspirou, colocou a mão na carteira e começou a agitar algo na frente do guardinha.

“Olha isso, olha isso. Carteira de couro, couro legítimo com proteção máxima para meus cartões...eu sempre cuidei bem dos meus cartões...”

“Senhor, outras pessoas querem fazer saque. Se o senhor não se acalmar e parar de bater na máquina vou ter que pedir para que se retire.”

“Não precisa pedir nada. Eu me retiro! Me retiro!”, ele dizia bufando enquanto saía da agência. Mas fez um comentário final antes de sua saída da agência. “Eu me retiro porque sou do tempo em que se confiava mais na palavra de um homem do que de uma máquina!”, disse.

Se isso fosse um conto do Isaac Asimov, tenho certeza que no banco haveria um cientista ou um especialista em robótica dizendo que as máquinas eram mais confiáveis, pois não podiam mentir, como os homens. Porém...porém...entendo o que o homem quis dizer. Já reparou como, nos tempos de hoje, confiamos mais no que dizem os computadores, os sistemas, os caixas eletrônicos da vida, do que em outros seres humanos?

O senhorzinho está certo. A palavra de uma máquina vale sim, hoje, mais do que a de um ser humano. Acho que a humanidade, de uma forma intrínseca, perdeu a confiança nela mesma, e acha que o primeiro caminho para qualquer pessoa é, sem sombra de dúvida, mentir. Uma frase como a do escritor Mark Twain, que disse uma vez “na dúvida, diga a verdade”, soaria tão infantil nos tempos de hoje...porque, nos nossos tempos, hoje, quem realmente liga para a verdade?

Sobre hábitos e costura

Estou lendo um livro muito interessante, “As seis mulheres de Henrique VIII” uma biografia compilada sobre as pobres fêmeas que tiveram o azar de se envolver com o pai da Igreja Anglicana. O livro tem me ajudado nos meus próprios estudos de história, além de ser praticamente uma revista Caras do século XVI: há sexo, traição, romance, drama, mortes trágicas.

Mas tem um detalhe sobre a primeira rainha de Henrique, Catarina de Aragão, que me chamou atenção e o qual não consigo parar de pensar. No livro, a autora Antonia Fraser conta que a primeira mulher de Henrique costurava TODAS as camisas do marido. A princípio, pensei que Antonia estivesse se referindo ao hábito de consertar camisas. Mas não: a rainha FAZIA todas as camisas do rei. Como uma costureira faria, entende?

Apesar de saber que, naquela época, as mulheres nobres ou não eram “educadas nos afazeres domésticos” (uma frase tão clichê...) a informação me fez pensar. Isso porque o tema sobre costura tornou-se próximo aos meus próprios afazeres, depois de ter penado durante duas horas para consertar um descosturamento da borda de meu edredom. Isso mesmo, duas horas. E ficou uma completa barafunda, sem tirar nem por. Nem consigo imaginar qual seria o grau de dificuldade de fazer uma camisa.

Minha mãe saberia fazer uma camisa. Aliás, pelo que converso com amigos que têm em torno de minha idade, 31 anos, era comum que, no tempo de nossa infância, nossas mães tivessem uma máquina de costura em casa, para fazer coisas que iam desde consertar uma costura até vestidos e camisas. Até hoje minha mãe é craque na máquina de costura. Quando ela abre a máquina Singer, velha, pesadíssima, que deve ter a minha idade, as minhas sobrinhas mais novas, Laura de quatro e Luiza de dois anos, ficam fascinadas rondando aquilo, perguntando o que é, para que serve...minha mãe explica com paciência e eu pergunto para elas se elas querem aprender a costurar. “Quero!”, berram as duas, em uníssono.

Quando era pequena, eu não quis de jeito nenhum. Nem minha irmã mais velha. Minha mãe tentou nos ensinar a pintar a óleo; a fazer caixinhas de madeira; vasos de papel jornal; cartões de papel vegetal; tricô; crochê. Sem sucesso. De todas essas atividades, minha irmã e eu aprendemos mais ou menos a fazer cartões e crochê. Mas não nos esforçamos para deter essas habilidades, infelizmente. De minha parte, a coisa que mantenho bem dos ensinamentos de minha mãe é sua culinária, mistura das cozinhas carioca, mineira e cearense (ou seja, brasileirona mesmo), que vão desde a galinha ao molho pardo a pizza de batata e farofa cearense.

Mas é interessante notar que as mães da minha geração tinham tantas habilidades domésticas úteis, que não se reproduziram em suas filhas, ou filhos. Nenhum de meus amigos ou amigas próximas a minha idade sabe pintar, tricotar, ou fazer caixinhas de madeira. Alguns nem sabem cozinhar (essa foi para você Renatinha, rs!).

Isso tudo veio à baila porque estou acompanhando Lost, a série que trata de sobreviventes de um desastre de avião tentando sobreviver numa ilha maluca. Na boa? Se eu estivesse na ilha, me jogavam na água. Porque eu não teria praticamente nenhuma habilidade manual ou doméstica que ajudasse a um grupo perdido em uma ilha deserta.