sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A faxineira e o passado

Certa vez, meu pai adoeceu gravemente e ficou internado no hospital por semanas. Aqueles foram tempos difíceis e horripilantes, e agradeço aos Céus até hoje por eles terem ido, para nunca mais voltar. Porém, mesmo no passado, alguns momentos ocorridos em situações ruins se fixam de forma tão significativa em nossas cabeças que acabam se tornando inesquecíveis, e tão presentes como se tivessem acontecido ontem.

Lembrei hoje disso, de um momento em particular. Naquele tempo, há pelo menos dez anos, em uma das visitas que fiz a meu pai no hospital, acabei conhecendo uma pessoa cuja história deixou uma impressão fortíssima em minhas lembranças. Quando entrei no quarto onde meu pai estava, ele conversava com uma faxineira do hospital, animadamente. Ao notar minha presença, meu pai nos apresentou: ela era uma “fã antiga” da banda a qual meu pai pertencia quando era adolescente, a San Rio. Meu pai contava que, quando eles tocavam nos bailes, as pessoas lotavam os clubes nos quais eles passavam. E, com um sorriso no rosto, disse que a faxineira, dona Marialva, se lembrava bem de como era “aquela época”. Eu disse um “é mesmo?” educado e olhei para a mulher, que aparentava ter uns cinqüenta anos, alguns bem visíveis e marcados em seu rosto.

Ao observar o rosto da faxineira, tomei um susto. A face dela, em menos de um minuto, tinha se transformado completamente. Parecia que o rosto da mulher tinha, de súbito, sofrido uma invasão devastadora de um manancial de memórias, que agora tornavam seu semblante um painel rico de expressões. Um mar de lembranças daquela época passeava pelo rosto daquela senhora, pensei eu, quando a fitava, fascinada.

Ela, sem notar meu ar de espanto, apoiou o queixo na ponta de seu esfregão e falou uma coisa que nunca esqueci:

“Ah, sim ! Como era bom aquele tempo..como eu era feliz e não sabia! Eu daria tudo para estar de volta, só por cinco minutos..”

O olhar dela parecia o de uma adolescente de 15 anos, quando falou aquilo. O som da saudade era tão amargamente perceptível em sua voz, que fui inundada por uma profunda tristeza. Porque, mesmo sem conhecê-la, era impossível não ser solidária aos sentimentos de uma pessoa, um ser, que gritava sem palavras a constatação de que o melhor de sua vida já havia passado.

Mas foi apenas um momento. Ela abaixou os olhos, encarou o chão, suspirou e continuou a trabalhar, esfregando o chão do quarto. Meu pai começava contar a história de um de seus shows, e minha atenção foi parcialmente desviada para ouvi-lo. Em um canto de minha mente, porém, meus olhos continuavam a observar a faxineira, que agora parecia concentrada no seu trabalho. O corpo de 50 anos de volta, o olhar de 15 anos esquecido.

Recordei de tudo isso hoje de manhã quando um amigo, mais velho que eu, iniciou um debate no trabalho, ao comenar que o Carnaval do Rio, hoje, não era “O” Carnaval do Rio, “o Verdeiro”, com “V” maiúsculo. Que ele tinha idade para conhecer o Carnaval do Rio, na década de 50 e 60, onde os blocos não eram “Carnaval de dentista” com data e hora para sair, e sim muito mais espontâneos. As pessoas iam para as ruas fantasiadas na sexta-feira, e só voltavam para casa na quarta-feira de Cinzas; dormiam nas ruas, na praia, para não perder o andamento de alguma folia que, porventura, passasse em sua frente durante os dias de samba, suor e cerveja.

Quando pensava em dizer algo para discordar, e comentar que os blocos hoje pelo menos eram uma melhoria ao que tínhamos em termos de Carnaval de rua no Rio há vinte anos – que era um grande NADA -, e que conhecia, nos tempos atuais, vários amigos que saíam de casa na sexta-feira à noite e só voltavam na quarta, destruídos depois da esbórnia, olhei bem para ele.

E notei o olhar, aquele mesmo olhar da faxineira. A angústia de ter sempre as duas visões, a do passado e a do presente, lutando no próprio rosto – mas com a vitória sempre pendendo para o que não existe mais, apenas na memória...

Não disse nada. Apenas sorri e continuei a ouvir meu amigo comentar sobre o Carnaval de antigamente.

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