Em meu caminho em direção ao metrô da estação carioca, no centro do Rio, durante meu aguardado retorno a minha humilde morada após um dia de labuta, tive uma agradável surpresa. Em frente ao conhecido edifício central, no número 156 da avenida Rio Branco, três rapazes com violinos em riste atacavam “As Quatro Estações”, de Vivaldi, a primeira parte apenas, a “Primavera – Allegro” (ou, como a música é mais conhecida, a trilha sonora da propaganda do sabonete Vinólia). Tocavam mal e desafinadamente; mas eram esforçados e tocavam com verdadeira emoção, de olhos fechados, os três.
Parei de andar para escutar melhor. Pude perceber, pela aglomeração de pessoas ao redor dos três cavaleiros, que eu não era a única a ser agradavelmente surpreendida. É muito raro que se toque música clássica no centro do Rio, que normalmente é agraciado com apresentações de índios bolivianos cantando “We are the World” em flautas de bambu; ou então algum forró gostosim pé de serra com triângulo. Acho que a beleza e a raridade da música acabaram atraindo as atenções de todos que, de maneira entusiástica, aplaudiram o final da “Primavera”.
Uma das coisas legais no centro é que, se qualquer pessoa fizer qualquer coisa em um ambiente espaçoso, como o Largo da Carioca; ou o Buraco do Lume, em frente à rua São José; as pessoas param para assistir. Pode ser show com palhaços; piadas em fita cassete em um alto falante; ou até demonstração de um super, hiper, limpador de pisos: não importa a qualidade, nem o tema do show, sempre há um público.
Lembro de uma vez que, voltando de Niterói às dez da noite, e caminhando com a máxima atenção aos possíveis trombadinhas, em direção ao ponto de ônibus na avenida Rio Branco, atravessei o Paço Imperial e fui andando, passando pelo Buraco do Lume. Era sexta-feira, e as barraquinhas de cerveja gelada com churrasquinho de gato pululavam no lugar. Com um adendo especial: algum vendedor empolgado trouxe uma máquina de videokê, e colocou lá a disposição do povo ébrio, disposto a soltar a voz na noite. Uma mulher, que já teve certamente em sua vida momentos mais sóbrios, cantava de forma aguda, aos berros, “Lua de Cristal”, uma música antiga da Xuxa. Independente da qualidade da canção, ou do gosto duvidoso da escolha da música, havia pelo menos 20 pessoas ao redor da mulher, admirando o seu show...
Antes de voltar a andar em direção à minha estação da Carioca, ouvi os acordes do novo trecho que os três violinistas começavam a tocar. Era a nona sinfonia de Beethoven, o trecho mais famoso (acho que é Ode à Alegria, o nome? Não lembro). Ouvi os primeiros murmúrios de exclamação da platéia que, satisfeita com a escolha, adicionavam à canção os sons de moedas caindo em um dos três estojos de violino, abertos aos pés dos músicos, prontos para receber o pagamento suado por aqueles momentos de orquestra urbana.
Uma senhorinha de idade, também entrando no metrô, comentou comigo que era ótimo ouvir “músicas de sua juventude” na rua. Certamente, aquela senhorinha não era tão idosa ao ponto de ter nascido no mesmo ano de Vivaldi ou de Beethoven. Mas preferi não responder ao comentário engraçado, e apenas abanei a cabeça em concordância, pensando que algumas músicas fazem parte da juventude do mundo. E os homens e mulheres tornam-se, novamente, crianças felizes ao escutá-las.
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Xi, vc não volta mais pra São Paulo. Escrevendo sobre o Rio com tanta poesia desse jeito, duvido que volte pra cá. Que pena. Tinha fé que um dia você viria...
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