sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Palhaços

Nunca achei graça em palhaços. Quando era criança, fui pouco ao circo, apenas duas vezes. (circos não paravam com freqüência em Realengo, onde eu morava naquela época). Mas essas duas ínfimas vezes foram suficientes para que eu achasse os equilibristas muito mais interessantes que os palhaços. Na televisão, não achava graça nem no Carequinha (pessoal de trinta anos deve saber de quem estou falando). E a graça diminuiu mais ainda quando minha mãe levou a mim e a minha irmã para ver um show dele e, no final do evento, ele meio que se recusou a dar autógrafos para as crianças, dizendo que estava com pressa.

Também não achava o Bozo engraçado. Assistia ao programa dele, mas porque gostava das brincadeiras que ele inventava com o público de casa, como a corrida dos cavalinhos e batalha naval (parênteses: durante anos, anos mesmo, pensei que batalha naval fosse uma brincadeira inventada pelo Bozo. Cometi o erro de falar isso em voz alta no trabalho, há uns quatro anos atrás, somente para ser devidamente e merecidamente ridicularizada. Muito paciente, um colega de trabalho me explicou como se fazia para brincar de batalha naval no papel. Fiquei confusa. Perguntei: “Mas...o que impedia de, quando você estivesse brincando com algum amigo, e ele falasse algum quadradinho no qual você tivesse um submarino, você simplesmente mentisse, e dissesse ‘água’ para ele?”. O meu colega me olhou e simplesmente respondeu: “Ética!”).

Enfim, meu histórico com palhaços sempre foi muito ruim. Por isso, não pude deixar de dar um olhar de desgosto quando aquele palhaço entrou no 433, ônibus em que eu estava, indo em direção ao hotel Glória, onde se realizaria um seminário sobre petróleo. Era a época em que a empresa em que eu trabalhava estava praticamente falida, e não tinha dinheiro para pagar táxis ou motoristas para levarem os repórteres às pautas. Então, eu ia para as pautas de ônibus.
O palhaço entrou pela porta de saída, por trás, e não pagou passagem, como cortesia do motorista. E começou a fazer palhaçadas. As pessoas riam, e se divertiam, enquanto eu só pedia aos Céus para que o ônibus andasse mais rápido. Estava entrando na Praia do Flamengo quando meu telefone toca. Começo a conversar com um amigo, distraída, até ver que o ponto de ônibus o qual eu ia descer se aproximava.

Foi quando ouvi as terríveis frases do palhaço:

“Vamoooss fazeeeer uma brincadeiraaa agoraaa (parênteses: ele falava assim mesmo, forçando sempre os últimos sons de cada palavra). A primeiraaa pessoaaa que levantar agora vai ser o encalhadoo e a encalhadaaa do ônibuss!”

Gelei. Meu ponto era o próximo. Não tinha como não descer ali. Pensei, alguém vai descer comigo, quando levantava lentamente do banco do ônibus, ainda com o celular na mão, e ouvindo alguma coisa que dizia meu amigo, do outro lado da linha.

Então, o palhaço me viu. Seus olhos pintados de preto e branco e seu nariz vermelho tremeram de satisfação enquanto ele apontava para mim e dizia:

“AA encalhadaaa do ônibusss, pessoaall! Palmasss para elaaa!”

E o ônibus inteiro explodiu em gargalhadas e palmas. Meu amigo ouviu o barulho e perguntou o que estava acontecendo, enquanto eu pedia para ele esperar enquanto eu dava o sinal e descia do ônibus, completamente vermelha de vergonha, andando apressadamente, mas não tão rápido ao ponto de conseguir perder o corinho empolgado de vozes do 433, que gritava:

“En-ca-lha-daaa! En-ca-lha-daaa!”
Saí do ônibus tremendo. Meu amigo, ainda aguardando do outro lado da linha, quando percebeu o súbito silêncio perguntou, confuso:

“Alguém está te chamando de encalhada?”

Fui para o hotel Glória, quase chorando de ódio pelo que tinha acontecido. O pior é que, quando encontrei uma amiga no seminário e contei o que tinha acontecido, com uma voz que denotava toda a raiva que eu sentia por todos os palhaços do mundo, ela simplesmente começou a rir. Ao ver meu olhar, ela tentou me consolar dizendo:

“Amiga, me desculpa, mas não tem com rir disso. Olha só, pelo menos você vai ter uma história divertida para contar para os outros... você ainda vai rir disso, você vai ver”, ela me disse, com um sorriso amável no rosto.

Bom. Ainda não consigo rir da história. Isso não impede, é claro, que outros riam. E continuo ODIANDO palhaços.

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