terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ser carioca

Ser carioca é entrar em um ônibus, em uma segunda-feira de Carnaval à noite; passar a roleta e ficar ali, de pé, encarando os demais passageiros. Depois pigarrear; levantar a bermuda caída e ajeitar o chapéu de bobo da corte que escorria pela cabeça (eu acho que era um chapéu de bobo. Mas o cara poderia ter colocado qualquer coisa na cabeça, que ia continuar a parecer um chapéu de bobo), e começar a discursar para os ocupantes do veículo:

"Senhores passageiros. Boa Noite. Estou aqui, na graça de Deus, fazendo uma coisa que não me orgulho, mas que tenho que fazer. Senhores pasageiros; é a necessidade que me faz pedir aqui para vocês, nessa noite, nessa noite linda de Carnaval. Então. Eu podia estar roubando; eu podia estar matando, mas não, senhores passageiros: estou aqui para pedir o dinheiro da minha cerveja de hoje a noite", disse, tomando fôlego ante o olhar de incredulidade de sua platéia, puxou os bolsos da bermuda, que revelaram-se vazios. "Por isso estou aqui pedindo; senhores passageiros. Dois reais para a latinha; quatro reais para a Long Neck. O que os senhores puderem ajudar, Deus vai dar em dobro!"

Passando pelos bancos com o chapéu estendido, murmuraava apenas "dois reais, dois reais para a cerveja". Mas o ônibus, também repleto de foliões que iam e voltavam dos blocos, o ignorava.

Aí ele se fingiu (acho) de irritado, e começou a falar mais alto:

"Ninguém vai dar nada? Olha que eu roubo o ônibus hein?"

A última frase parece ter despertado algo no grupo de quatro rapazes que estavam no fundo, bebendo cerveja e olhando de soslaio o pedinte da cevada. Um deles, inspirado, olhou bem para o cara, apontou para ele e começou a cantar:

"Eu era um bêbado/e vivia drogado/hoje estou curadooo..."

Foi o que bastava para que TODO O ÔNIBUS (eu, inclusive), lembrasse que também eram cariocas, sem vergonha nenhuma na cara, e completasse a música, apontando para a figura de chapéu:

"Encontrei Jesus/ encontrei Jesus/ encontrei Jesus/ Na casa do Senhor não existe Satanás/ Xô Satanás/ Xô Satanás!"

E assim completamos a música e o pedinte só balança a cabeça, não sei se em concordância ou em deboche. Quando a canção terminou, ele levantou a cabeça. Olhou para todo mundo com um olhar de mãe que pega o filho fazendo arte (aquele olhar de "bonito isso hein?"), tomou fôlego e começou a cantar:

"Hoje eu vou tomar um porre/não me socorre/ que eu estou feliz/ nessa eu vou de bar em bar/ beber a vida/ que eu sempre quis/ eu vou/ eu vou..."

Infelizmente, não pude ver o final de duelo de canções do ônibus 474. Meu ponto estava próximo, dei sinal e saí do ônibus, rindo, pensando em como dentro de todo o carioca, homem ou mulher, bate o coração de um cara de pau: sem medo nenhum de dar a cara para o mundo, encarando de frente as conseqüências, com um sorriso debochado no rosto...

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