Uma vez, estava assistindo televisão com a minha sobrinha do meio, Laura, de quatro anos. Quando chegou a parte dos comerciais do programa que estávamos assistindo (alguma série do Discovery Kids), ela começou a ver uma porção de anúncios de brinquedos. E a cada um que terminava, ela repetia, sem parar: "tia, quero isso" ou "tia, compra para mim?". Ao perceber que ela fazia isso ao final de todos os comerciais, eu me virei e perguntei a ela, meio exasperada:
"Mas Laura, você quer tudo?"
E ela, do alto de sua sabedoria dos quatro anos completos, olhou para mim como se eu tivesse dito o óbvio:
"É claro que eu quero tudo. Você não quer tudo?"
Ao ser confrontada com tão simples lógica, ri e não respondi minha sobrinha. Porém, depois de termos nos separado naquele dia, não pude deixar de pensar naquilo que ela disse. Sobre querer tudo.
Quando foi que paramos de desejar querer tudo? Quem nos disse que nunca poderíamos ter tudo que quiséssemos? E o pior de tudo: como passamos a acreditar nisso?
Hoje, uma amiga me ligou desconsolada. Havia conseguido uma bolsa de mestrado na Espanha, de dois anos. Mas o namorado não parecia muito inclinado a gostar da idéia, de ficar longe por um período tão longo. E insinuou querer terminar, antes que ela viajasse. Quase chorando ao telefone, contou-me que estava pensando seriamente em desistir da bolsa, e simplesmente fazer um mestrado aqui mesmo no País. E disse, desesperada: "Isso não é justo. Por quê tenho que escolher entre duas coisas boas? Por quê não posso ter tudo?"
Eu não sei porque minha amiga não podia ter tudo. Não sei porque chega a um ponto de nossa existência em que temos de lidar com escolhas com as quais nunca nos deparamos antes, aquelas que implicam com um ato o qual viraria um hábito, no nosso dia a dia: o ato de ceder. Somos doutrinados a pensar sempre, desde pequenos, que não podemos ter tudo; que temos que escolher as coisas que queremos para nós sempre na medida do possível, do razoável.
Mas temo que essa doutrina ensine uma outra coisa também, muito mais grave, muito mais danosa. Creio que esse hábito de ceder, tão arraigado dentro de nós a partir de uma certa idade, nos acostume com a idéia de que é normal desistirmos de nossos sonhos. E que a vida "não é mole"; ou "é isso aí"; ou ainda que "a vida não é fácil", entre outras frases lugares comuns que são ditas para nós, no momento em que vamos ceder algo importante.
Acho que nunca disseram para a gente que, se continuarmos sempre a ceder tudo, e não mais a querer tudo, isso nos transforma. E desistimos de ser aquela pessoa que gostaríamos de ser, quando tínhamos quatro anos de idade.
Tenho apenas 31 anos e não sei o que é a vida. Mas sei o que ela não é: não é uma estrada cujo objetivo é perder partes de si mesmo. Isso é o que acontece quando cedemos os nossos sonhos. Pode parecer piegas, mas acho que sonhos são sonhados para um dia se transformarem em realidade.
Laura tinha mais razão do que eu, naquela discussão. E eu vou fazer de tudo para ensiná-la que querer tudo, no que concerne a seus sonhos, nunca é desejar demais.
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