sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Comida para quem precisa

Com cinco reais no bolso, o andarilho das ruas do Rio não passa fome no centro da cidade. As opções de comida, ainda que em barraquinhas ilegais, de camelôs, são várias, diversas, e até mesmo regionais. E tudo a preço de banana (parênteses: essa expressão não mais procede. Vocês já viram quanto está o preço da banana no mercado? Pela hora da morte!). Por esse montante, é possível pelo menos tomar café da manhã e almoçar com direito a sobremesa – embora o valor nutritivo das refeições seja discutível...

O consumidor pode começar seu tour gastronômico comprando, para café da manhã, um pãozinho de leite com manteiga e toddynho por dois reais, na esquina da rua da Assembléia com avenida Rio Branco. Bem alimentado, o transeunte vai para o trabalho, rezando para que a hora do almoço chegue rápido. E quando chega, o andarilho pode se dirigir até a frente da estação de metrô da Carioca, na altura do número 156 da avenida Rio Branco, onde tem um bom milho verde, ou então curau, por dois reais. O milho é uma boa opção de almoço barato, e estufa a barriga.

De sobremesa, o transeunte pode andar um pouquinho mais para fazer a digestão até a avenida México, esquina com Almirante Barroso. Subindo a México na direção dos carros, após ultrapassar vários camelôs de bolsa e roupa, o consumidor encontra barraquinhas de tapioca doce, a um real.

Com os cinco reais assim bem gastos em sua alimentação, o carioca ou turista pode se maravilhar ainda com as outras tantas opções que também poderia ter escolhido, caso não gostasse tanto de pão, milho e tapioca. É possível encontrar chocolates Suflair a um real, como sobremesa; pães doces no café da manhã; e empadas grandes em carrinhos móveis, que se movimentam por toda a avenida Rio Branco. Tudo, aviso ao leitor seguidor da lei, inserido dentro do comércio ilegal que pulula nas ruas do Rio.

Por que os camelôs existem? Porque há demanda. E por que há demanda? Porque é absurdamente barato.

Fiquei pensando nisso quando paguei R$ 7,50 por um misto de queijo e presunto na Casa do Pão de Queijo. Não sei onde os preços das comidas “legais” no centro do Rio vão parar. Mas sei onde eu vou estar, se continuar essa trajetória ascendente: parada na frente de algum camelô, em pé, feliz da vida, comendo pão; toddynho; milho verde e tapioca.

De como a pagação de mico nos atinge quando menos se espera...

Fui ontem ao hospital para tentar resolver um problema no joelho. Após quatro dias de folia carnavalesca, com direito a muita pulação, meu joelho direito começou a inchar como uma pequena batata e, quando sacos de gelo não mais surtiram efeito, recorri aos seguidores de Esculápio.

O caso é que esse meu bendito joelho sempre foi problemático, desde uma malfadada partida de Twister na minha casa (aquele jogo que tem uma roletinha, e uma toalha alcochoada com bolas de várias cores, e manda você colocar “pé direito no amarelo”; “mão esquerda no vermelho”...no meu caso, o saldo do jogo foi cair com toda a força com meu joelho direito no chão de madeira. Ele nunca mais foi o mesmo desde então). Sempre que forço a barra com exercícios físicos, ou muita atividade, ele acaba chiando e me deixando na mão.

Enfim, me consultei com o ortopedista de plantão, ele pediu que eu fizesse um raio X. Fui até o centro de imagens no hospital, fiz o exame (parênteses: as máquinas de raio X estão ficando assustadoras! São enormes e com uma aparência de robô psicótico. Parecem parentes do Hal, de “2001: Uma Odisséia no Espaço). Após colocar os sapatos, o técnico falou algo como “segue juntinho aqui um pouco para ver se saiu tudo direito”, pegou a chapa na grande máquina e começou a andar.

Segui o cara. E o cara começou a andar. E como andou o homem! Ia por vários corredores, esquerda, direita, esquerda de novo. E eu lá, seguindo o cara. Depois de uns cinco minutos, ele pára em frente a uma escada e começa a subir. Com um esgar de dor silencioso no rosto, começo a subir atrás dele, pensando com raiva porque diabos o técnico, sabendo que estou com problemas e dor aguda no joelho, me faz andar por um tour no hospital, com direito a escadas!

Após o término do segundo lance de escada, gemi baixinho quando o joelho começou a latejar fortemente, obviamente se perguntando se eu não era uma louca de ficar forçando o coitadinho dessa forma, após ter usado e abusado dele nos blocos carnavalescos (parênteses: o que ferrou mesmo o pobre foi o bloco Quizomba, na Lapa. Impossível ficar parado; impossível não pular. A música era tão boa! Me senti em Salvador). Ao ouvir o barulho de meu gemido, o técnico se virou. E olhou para mim com um ar de espanto:

“O que você está fazendo aqui?”

“O que eu estou fazendo aqui? Você mandou que eu seguisse você!”

“Eu não fiz nada disso!”

“Mandou sim. Você disse ‘segue juntinho aqui um pouco para ver se saiu tudo direito’”

“Hein? Não! Eu disse ‘Senta no banquinho ali um pouco para ver se saiu tudo direito!”.

Nós dois nos olhamos por um instante. E o cara não se controla e começa a tentar conter um riso no rosto, sem muito sucesso, ante meu ar desconsolado. Perguntei, exasperada:

“Era para eu ter esperado lá? E eu vou ter que voltar tudo de novo???”

Ainda tentando não rir, o técnico me consolou. Disse que eu poderia voltar próximo ao lugar onde eu estava, sem precisar andar muito, por meio do elevador de funcionários. Suspirei aliviada. Até ele falar:

“Só precisa subir mais um lance de escada até o elevador...”

Nunca, nunca, nunca mais jogo Twister na minha vida!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Querer tudo

Uma vez, estava assistindo televisão com a minha sobrinha do meio, Laura, de quatro anos. Quando chegou a parte dos comerciais do programa que estávamos assistindo (alguma série do Discovery Kids), ela começou a ver uma porção de anúncios de brinquedos. E a cada um que terminava, ela repetia, sem parar: "tia, quero isso" ou "tia, compra para mim?". Ao perceber que ela fazia isso ao final de todos os comerciais, eu me virei e perguntei a ela, meio exasperada:

"Mas Laura, você quer tudo?"

E ela, do alto de sua sabedoria dos quatro anos completos, olhou para mim como se eu tivesse dito o óbvio:

"É claro que eu quero tudo. Você não quer tudo?"

Ao ser confrontada com tão simples lógica, ri e não respondi minha sobrinha. Porém, depois de termos nos separado naquele dia, não pude deixar de pensar naquilo que ela disse. Sobre querer tudo.

Quando foi que paramos de desejar querer tudo? Quem nos disse que nunca poderíamos ter tudo que quiséssemos? E o pior de tudo: como passamos a acreditar nisso?

Hoje, uma amiga me ligou desconsolada. Havia conseguido uma bolsa de mestrado na Espanha, de dois anos. Mas o namorado não parecia muito inclinado a gostar da idéia, de ficar longe por um período tão longo. E insinuou querer terminar, antes que ela viajasse. Quase chorando ao telefone, contou-me que estava pensando seriamente em desistir da bolsa, e simplesmente fazer um mestrado aqui mesmo no País. E disse, desesperada: "Isso não é justo. Por quê tenho que escolher entre duas coisas boas? Por quê não posso ter tudo?"

Eu não sei porque minha amiga não podia ter tudo. Não sei porque chega a um ponto de nossa existência em que temos de lidar com escolhas com as quais nunca nos deparamos antes, aquelas que implicam com um ato o qual viraria um hábito, no nosso dia a dia: o ato de ceder. Somos doutrinados a pensar sempre, desde pequenos, que não podemos ter tudo; que temos que escolher as coisas que queremos para nós sempre na medida do possível, do razoável.

Mas temo que essa doutrina ensine uma outra coisa também, muito mais grave, muito mais danosa. Creio que esse hábito de ceder, tão arraigado dentro de nós a partir de uma certa idade, nos acostume com a idéia de que é normal desistirmos de nossos sonhos. E que a vida "não é mole"; ou "é isso aí"; ou ainda que "a vida não é fácil", entre outras frases lugares comuns que são ditas para nós, no momento em que vamos ceder algo importante.

Acho que nunca disseram para a gente que, se continuarmos sempre a ceder tudo, e não mais a querer tudo, isso nos transforma. E desistimos de ser aquela pessoa que gostaríamos de ser, quando tínhamos quatro anos de idade.

Tenho apenas 31 anos e não sei o que é a vida. Mas sei o que ela não é: não é uma estrada cujo objetivo é perder partes de si mesmo. Isso é o que acontece quando cedemos os nossos sonhos. Pode parecer piegas, mas acho que sonhos são sonhados para um dia se transformarem em realidade.

Laura tinha mais razão do que eu, naquela discussão. E eu vou fazer de tudo para ensiná-la que querer tudo, no que concerne a seus sonhos, nunca é desejar demais.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Ser carioca

Ser carioca é entrar em um ônibus, em uma segunda-feira de Carnaval à noite; passar a roleta e ficar ali, de pé, encarando os demais passageiros. Depois pigarrear; levantar a bermuda caída e ajeitar o chapéu de bobo da corte que escorria pela cabeça (eu acho que era um chapéu de bobo. Mas o cara poderia ter colocado qualquer coisa na cabeça, que ia continuar a parecer um chapéu de bobo), e começar a discursar para os ocupantes do veículo:

"Senhores passageiros. Boa Noite. Estou aqui, na graça de Deus, fazendo uma coisa que não me orgulho, mas que tenho que fazer. Senhores pasageiros; é a necessidade que me faz pedir aqui para vocês, nessa noite, nessa noite linda de Carnaval. Então. Eu podia estar roubando; eu podia estar matando, mas não, senhores passageiros: estou aqui para pedir o dinheiro da minha cerveja de hoje a noite", disse, tomando fôlego ante o olhar de incredulidade de sua platéia, puxou os bolsos da bermuda, que revelaram-se vazios. "Por isso estou aqui pedindo; senhores passageiros. Dois reais para a latinha; quatro reais para a Long Neck. O que os senhores puderem ajudar, Deus vai dar em dobro!"

Passando pelos bancos com o chapéu estendido, murmuraava apenas "dois reais, dois reais para a cerveja". Mas o ônibus, também repleto de foliões que iam e voltavam dos blocos, o ignorava.

Aí ele se fingiu (acho) de irritado, e começou a falar mais alto:

"Ninguém vai dar nada? Olha que eu roubo o ônibus hein?"

A última frase parece ter despertado algo no grupo de quatro rapazes que estavam no fundo, bebendo cerveja e olhando de soslaio o pedinte da cevada. Um deles, inspirado, olhou bem para o cara, apontou para ele e começou a cantar:

"Eu era um bêbado/e vivia drogado/hoje estou curadooo..."

Foi o que bastava para que TODO O ÔNIBUS (eu, inclusive), lembrasse que também eram cariocas, sem vergonha nenhuma na cara, e completasse a música, apontando para a figura de chapéu:

"Encontrei Jesus/ encontrei Jesus/ encontrei Jesus/ Na casa do Senhor não existe Satanás/ Xô Satanás/ Xô Satanás!"

E assim completamos a música e o pedinte só balança a cabeça, não sei se em concordância ou em deboche. Quando a canção terminou, ele levantou a cabeça. Olhou para todo mundo com um olhar de mãe que pega o filho fazendo arte (aquele olhar de "bonito isso hein?"), tomou fôlego e começou a cantar:

"Hoje eu vou tomar um porre/não me socorre/ que eu estou feliz/ nessa eu vou de bar em bar/ beber a vida/ que eu sempre quis/ eu vou/ eu vou..."

Infelizmente, não pude ver o final de duelo de canções do ônibus 474. Meu ponto estava próximo, dei sinal e saí do ônibus, rindo, pensando em como dentro de todo o carioca, homem ou mulher, bate o coração de um cara de pau: sem medo nenhum de dar a cara para o mundo, encarando de frente as conseqüências, com um sorriso debochado no rosto...

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Eu amo a noite. Esse ser inveterado que nunca dorme, e sempre nos recebe de braços abertos. É o ambiente mais democrático que existe; mais ainda que o dia, repleto de portas fechadas onde o sol se esconde.

Eu amo a noite porque não há portas que tranquem a escuridão, pronta a acolher os felizes e os aflitos.

A noite é o ente que aproxima a humanidade, desde criança com medo do escuro. Mesmo antes de sabermos andar e falar, somos apresentados à noite; e sabemos que ali existe um mistério que não temos como desvendar. Saber que a noite é insondável; indefinível: é esse saber que nos une, de mãos dadas em pensamento, tomados por uma forte necessidade de permanecer conectado a algo que possamos mensurar o que seja.

A noite é desconhecida.

Mesmo a lua quando toca de leve o céu, não resolve o mistério da noite. Apenas alivia, oferecendo para nós um laivo de lembrança de que a luz também existe, de que a noite um dia termina. A lua é o símbolo da esperança em prol de um momento iluminado. E, justamente por isso, a lua pertence aos apaixonados, malucos, poetas e sonhadores, que anseiam pela explosão de uma supernova em suas almas.

É a ela que recorro quando saio após o sol se pôr; é a ela que peço que seja gentil; que me proteja dos monstros que abriga; e que me mostre um pouco dos grandes tesouros que esconde, sob sua aba negra.

Eu amo a noite porque ela me aceita como sou, e só revela o que quero mostrar. Tudo que é imperfeito é esmaecido na noite. Ela nada revela, apenas insinua. E é com esse desejo de descobrir algo o qual nem sabia que precisava descobrir, que a noite assim se assemelha um amante secreto; com gosto de mistério.

A noite é a música que nunca pára de tocar. Mas que, mesmo assim, não fazemos idéia da letra da canção.

É preciso mergulhar na noite e aceita-la. Permitir que qualquer de seus atos, sejam bons ou maus, alcance nossos espíritos. E quando o sol vier de manhã, saberemos um pouco mais; esqueceremos um pouco também; mas com a certeza de que a noite, independente do que somos, ou do que fazemos, estará pronta para nos abraçar novamente em algumas horas.

A noite é perfeição.

A vida é...

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Um Bloco, dois blocos

Acabo de voltar do “Barbas” e do “Dois pra Lá/Dois pra cá”. São dois blocos de Carnaval diferentes, mas muito similares na quantidade de gente ébria e feliz, cantando como se o mundo fosse acabar amanhã. Aliás, acho que é a coisa mais amo no Carnaval: essa sensação de que o mundo vai enfrentar o Apocalipse a qualquer momento, e que seria bom se todos realmente se voltassem para o que realmente importa, que é ser feliz.

O Barbas tem várias características engraçadas. Primeiro que, quem coordena o bloco na frente é um cara de barba, tipo “véio-do-rio-da-novela-pantanal”. Ele fica organizando o povo na frente, vendo se o carro de som não atropela ninguém, essas coisas super úteis. Segundo, é um bloco que fica tocando a mesma música sem parar, o chamado “samba-enredo” do bloco. Sinceramente, eu fujo correndo desses, pois acho chato, chato, chato, ficar ouvindo a mesma batida de música por duas horas (para vocês terem uma idéia, a música das escolas de samba do grupo especial só dura uma hora e vinte minutos, tempo máximo permitido para o desfile).

Mas o Barbas conta com um pequeno grande detalhe: ele tem um caminhão pipa! Que anda atrás do carro de som! Que tem uma mangueira cuja água gelada é jogada DIRETO no público morto de calor! E uma loira gordinha que sabe manejar a mangueira (no bom sentido) como ninguém!

Levei jatos de água na cabeça, feliz. Naquele momento, parecia que todos tinham voltado a ser crianças, quando jogar água em alguém era algo que rendia boas gargalhadas, e broncas das mães, quando percebiam nossas roupas molhadas.

Após o Barbas, que é em Botafogo, em uma das transversais da rua da Passagem, andei mais alguns metros até a rua Álvaro Rodrigues, onde estava passando o “Dois pra lá/dois pra cá”. O que o outro bloco não tinha de música, esse tinha de sobra. A bateria só toca marchinhas de carnaval bem antigas. Ouvi, alegre que nem pinto no lixo, pérolas como “Tomara que chova três dias sem parar”; “Não me leve a mal, vou beijar-te agora, hoje é Carnaval”; “E as pastorinhas...”. Letras gentis, belas, com aquele ritmo que não envelhece, porque música boa nunca cai no esquecimento.

O único senão de tudo é que tive que voltar a pé de Botafogo para Copacabana, porque, eh, o meu bloco fechou a rua e o trânsito de acesso para o bairro da Pincesinha do Mar. Mas o trajeto foi rápido. Porque era só contar os rostos felizes e as pessoas dançando para esquecer os pés doloridos e o cansaço. E simplesmente sentir-se bem, sentir-se melhor com a vida. Sentir-se viva!

E que venham os blocos de amanhã!

P.S. -Por quê não se vende bebidas Ice nos camelôs dos blocos? É só cerveja, água, cerveja, água...comércio ilegal, faça-me um favor: invista na di-ver-si-da-de!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A faxineira e o passado

Certa vez, meu pai adoeceu gravemente e ficou internado no hospital por semanas. Aqueles foram tempos difíceis e horripilantes, e agradeço aos Céus até hoje por eles terem ido, para nunca mais voltar. Porém, mesmo no passado, alguns momentos ocorridos em situações ruins se fixam de forma tão significativa em nossas cabeças que acabam se tornando inesquecíveis, e tão presentes como se tivessem acontecido ontem.

Lembrei hoje disso, de um momento em particular. Naquele tempo, há pelo menos dez anos, em uma das visitas que fiz a meu pai no hospital, acabei conhecendo uma pessoa cuja história deixou uma impressão fortíssima em minhas lembranças. Quando entrei no quarto onde meu pai estava, ele conversava com uma faxineira do hospital, animadamente. Ao notar minha presença, meu pai nos apresentou: ela era uma “fã antiga” da banda a qual meu pai pertencia quando era adolescente, a San Rio. Meu pai contava que, quando eles tocavam nos bailes, as pessoas lotavam os clubes nos quais eles passavam. E, com um sorriso no rosto, disse que a faxineira, dona Marialva, se lembrava bem de como era “aquela época”. Eu disse um “é mesmo?” educado e olhei para a mulher, que aparentava ter uns cinqüenta anos, alguns bem visíveis e marcados em seu rosto.

Ao observar o rosto da faxineira, tomei um susto. A face dela, em menos de um minuto, tinha se transformado completamente. Parecia que o rosto da mulher tinha, de súbito, sofrido uma invasão devastadora de um manancial de memórias, que agora tornavam seu semblante um painel rico de expressões. Um mar de lembranças daquela época passeava pelo rosto daquela senhora, pensei eu, quando a fitava, fascinada.

Ela, sem notar meu ar de espanto, apoiou o queixo na ponta de seu esfregão e falou uma coisa que nunca esqueci:

“Ah, sim ! Como era bom aquele tempo..como eu era feliz e não sabia! Eu daria tudo para estar de volta, só por cinco minutos..”

O olhar dela parecia o de uma adolescente de 15 anos, quando falou aquilo. O som da saudade era tão amargamente perceptível em sua voz, que fui inundada por uma profunda tristeza. Porque, mesmo sem conhecê-la, era impossível não ser solidária aos sentimentos de uma pessoa, um ser, que gritava sem palavras a constatação de que o melhor de sua vida já havia passado.

Mas foi apenas um momento. Ela abaixou os olhos, encarou o chão, suspirou e continuou a trabalhar, esfregando o chão do quarto. Meu pai começava contar a história de um de seus shows, e minha atenção foi parcialmente desviada para ouvi-lo. Em um canto de minha mente, porém, meus olhos continuavam a observar a faxineira, que agora parecia concentrada no seu trabalho. O corpo de 50 anos de volta, o olhar de 15 anos esquecido.

Recordei de tudo isso hoje de manhã quando um amigo, mais velho que eu, iniciou um debate no trabalho, ao comenar que o Carnaval do Rio, hoje, não era “O” Carnaval do Rio, “o Verdeiro”, com “V” maiúsculo. Que ele tinha idade para conhecer o Carnaval do Rio, na década de 50 e 60, onde os blocos não eram “Carnaval de dentista” com data e hora para sair, e sim muito mais espontâneos. As pessoas iam para as ruas fantasiadas na sexta-feira, e só voltavam para casa na quarta-feira de Cinzas; dormiam nas ruas, na praia, para não perder o andamento de alguma folia que, porventura, passasse em sua frente durante os dias de samba, suor e cerveja.

Quando pensava em dizer algo para discordar, e comentar que os blocos hoje pelo menos eram uma melhoria ao que tínhamos em termos de Carnaval de rua no Rio há vinte anos – que era um grande NADA -, e que conhecia, nos tempos atuais, vários amigos que saíam de casa na sexta-feira à noite e só voltavam na quarta, destruídos depois da esbórnia, olhei bem para ele.

E notei o olhar, aquele mesmo olhar da faxineira. A angústia de ter sempre as duas visões, a do passado e a do presente, lutando no próprio rosto – mas com a vitória sempre pendendo para o que não existe mais, apenas na memória...

Não disse nada. Apenas sorri e continuei a ouvir meu amigo comentar sobre o Carnaval de antigamente.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

O Casal

Uma das coisas mais chatas é entrar no metrô sem um livrinho, ou um MP3 pra ouvir música, e assim passar o tempo. Porque, quando se entra no metrô completamente desarmada, como eu faço às vezes, a única coisa a se fazer durante a viagem é observar a cara dos outros passageiros.

Foi o que aconteceu comigo hoje de manhã.

Soube, desde o primeiro momento em que comecei a observar o homem e a mulher, que eram um casal. Porque, apesar de se posicionarem lado a lado, sem se tocar, um invadia inadvertidamente o “espaço” do outro. Próximos. Fisicamente, próximos, sabe? E nenhum dos dois aparentava algum incômodo com isso.

Mas eles não se falavam. Era estranho, porque além da ausência de palavras, também não se tocavam. Os olhares também não se cruzavam; ele estava mais ou menos de frente para mim, e ela, de lado. Os dois com a visão fixa em um horizonte imaginário, daqueles que só existem dentro da cabeça das pessoas. Ambos mergulhados, absorvidos em suas próprias almas, seus pensamentos.

De repente, o homem vira um pouco a cabeça e olha a mulher. Ela continua olhando para o outro lado. E ele se aproxima e dá um beijo de leve, na bochecha. A mulher, ainda olhando para o horizonte dentro dela mesma, limpa lentamente, com as costas da mão, o beijo que fora depositado em seu rosto.

O homem continua a olhar para a frente, em direção ao seu próprio horizonte, e eu não consegui deixar de sentir um pouco de pena. Ok, eu não conheço o casal, e não faço a mínima idéia do que ocorreu entre eles. Mas achei a cena tão forte, ela limpando o beijo dele vagarosamente, para deixar bem claro que não queria que o rosto permanecesse com qualquer impressão dos lábios dele.

Acho que o pior foi ela fazer isso no metrô. Porque a cena ficou visível para fofoqueiros curiosos de plantão como eu, que estavam por perto. Após alguns momentos observando ainda o casal, o homem notou que eu estava olhando na direção deles, me encarou, e depois desviou o olhar. Ele provavelmente percebeu que, se eu estava com a atenção voltada para eles há algum tempo, deveria ter visto o que ela fez.

Sinceramente? Aquele cara deve ter feito uma besteira enorme para ela ter feito aquilo. Sempre achei que, uma das coisas mais fortes que você pode fazer para ofender a pessoa amada é “limpar” beijos com a mão. Ora, não digo o gesto feito por alguma criança, incomodada devido a algum beijo babado, dado por um coleguinha do jardim de infância. Mas limpar um beijo de adulto, cometido por um adulto, em outro adulto: é muito expressivo. Mais do que raiva, há um toque forte de desprezo, nessa atitude.

O homem virou-se novamente para a mulher, e falou alguma coisa com ela, bem baixinho, sussurrando em seu ouvido. Mas ela permaneceu calada, e ainda não encarando o olhar dele.
Quando os dois saíram do metrô, na mesma estação em que eu deveria saltar, caminhavam lado a lado, ainda sem se tocar. Antes de subir na escada rolante, ele ainda tentou pegar a mão dela. Foi repelido com rapidez pelo gesto impaciente da mulher, que afastou-se um pouco dele.
Derrotado, o homem seguiu atrás dela, enquanto a mulher apressava o passo, indo em direção à escada rolante. Após uma enxurrada de novos transeuntes, que também desceram na mesma plataforma, minha visão foi obstruída. Não os vi mais.

Ai-ai...pode parecer loucura, depois de um relato desses. Mas depois de ter presenciado aquilo, meio que senti saudades de ser parte de um casal. Acho que, quando se está junto com alguém, é como comer pizza: mesmo quando é ruim, é bom...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Palavras desconexas

Um maluco no centro da cidade esbarra em mim e pede dinheiro. Digo que não tenho. O que o maluco faz? Uma coisa maluca, certamente: cospe no meu ombro, e sai correndo.
Ainda ouço as palavras berradas dele, enquanto se afasta de mim com os braços levantados: “cebola, cenoura, senhora, se toca, me toca, motoca, mococa...”

Nem tive tempo de xingar o maluco pelo seu ato nojento, e tento limpar o ombro com lenço umedecido. Suspiro. É a terceira vez que um maluco cisma comigo no centro do Rio. Será que existem pessoas marcadas pelos loucos da cidade para serem atazanadas por eles?

As ocasiões anteriores em que loucos cruzaram meu caminho também foram na avenida Rio Branco, uma das principais vias de acesso ao centro da cidade, juntamente com a avenida Presidente Vargas. O primeiro maluco simplesmente passou por mim e, quando eu o ultrapassei por andar mais rápido, ele deu um grande soco de mão fechada no meio das minhas costas. O susto foi mais intenso do que a dor, e quando me virei para ver porque diabos o cara tinha feito isso, pude perceber que ele estava no processo de fazer uma nova vítima. O homem de terno, avisado pelo meu grito de “cuidado”, se desviou do maluco e quase deu um pescoção no pobre esfarrapado, antes de este perceber o perigo e correr como se uma alma penada o perseguisse. (parênteses: o cara de terno falou uma coisa engraçada, nessa ocasião. Disse que, se o cara fosse pirado mesmo, “não correria de um tabefe”).

Na segunda vez, levei um copo de água na cara. Reclamei do calor para uma amiga que estava ao meu lado, voltando do almoço para o trabalho e, inadvertidamente, um louco que estava encostado na parede de um prédio, próximo ao lugar em que estávamos caminhando, ouviu minha reclamação sobre o calor no mesmo momento em que eu e minha colega passávamos na frente dele e, ato contínuo, tascou em meu rosto o conteúdo de um copo de água que estava em sua mão. Quando, fula da vida, comecei a berrar e gritar com o homem, ele só repetia, sem olhar para mim e com um olhar fixado no horizonte: “Eu faço poesia! Eu faço poesia!”.

Mas essa terceira vez, apesar de mais nojenta devido ao contato não calculado da saliva do maluco em meu ombro, foi a mais intrigante. Porque, sabe-se lá por quais motivos, fiquei com as palavras do cara na minha mente. “Cebola, cenoura, senhora, se toca, me toca, motoca, mococa...”. Tem uma sonoridade maluca, que não consigo tirar da cabeça.

Para mim, quem fazia poesia não era o maluco da água, e sim o louco do cuspe. Fico pensando se, ele tivesse nascido em uma tribo africana no século XVI; ou então entre os índios antes da chegada aos portugueses à terra que seria chamada posteriormente de Brasil; e falasse coisas assim, palavras desconexas, mas com uma sonoridade que gruda de forma absolutamente mágica na cabeça...creio que ele seria venerado, ou confundido com um enviado dos deuses.

Mas pensando bem sobre o assunto...acho que não. Um maluco como o do cuspe não existiria no passado. Só núcleos urbanos conseguem enlouquecer alguém daquele jeito.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Três violinistas

Em meu caminho em direção ao metrô da estação carioca, no centro do Rio, durante meu aguardado retorno a minha humilde morada após um dia de labuta, tive uma agradável surpresa. Em frente ao conhecido edifício central, no número 156 da avenida Rio Branco, três rapazes com violinos em riste atacavam “As Quatro Estações”, de Vivaldi, a primeira parte apenas, a “Primavera – Allegro” (ou, como a música é mais conhecida, a trilha sonora da propaganda do sabonete Vinólia). Tocavam mal e desafinadamente; mas eram esforçados e tocavam com verdadeira emoção, de olhos fechados, os três.

Parei de andar para escutar melhor. Pude perceber, pela aglomeração de pessoas ao redor dos três cavaleiros, que eu não era a única a ser agradavelmente surpreendida. É muito raro que se toque música clássica no centro do Rio, que normalmente é agraciado com apresentações de índios bolivianos cantando “We are the World” em flautas de bambu; ou então algum forró gostosim pé de serra com triângulo. Acho que a beleza e a raridade da música acabaram atraindo as atenções de todos que, de maneira entusiástica, aplaudiram o final da “Primavera”.

Uma das coisas legais no centro é que, se qualquer pessoa fizer qualquer coisa em um ambiente espaçoso, como o Largo da Carioca; ou o Buraco do Lume, em frente à rua São José; as pessoas param para assistir. Pode ser show com palhaços; piadas em fita cassete em um alto falante; ou até demonstração de um super, hiper, limpador de pisos: não importa a qualidade, nem o tema do show, sempre há um público.

Lembro de uma vez que, voltando de Niterói às dez da noite, e caminhando com a máxima atenção aos possíveis trombadinhas, em direção ao ponto de ônibus na avenida Rio Branco, atravessei o Paço Imperial e fui andando, passando pelo Buraco do Lume. Era sexta-feira, e as barraquinhas de cerveja gelada com churrasquinho de gato pululavam no lugar. Com um adendo especial: algum vendedor empolgado trouxe uma máquina de videokê, e colocou lá a disposição do povo ébrio, disposto a soltar a voz na noite. Uma mulher, que já teve certamente em sua vida momentos mais sóbrios, cantava de forma aguda, aos berros, “Lua de Cristal”, uma música antiga da Xuxa. Independente da qualidade da canção, ou do gosto duvidoso da escolha da música, havia pelo menos 20 pessoas ao redor da mulher, admirando o seu show...

Antes de voltar a andar em direção à minha estação da Carioca, ouvi os acordes do novo trecho que os três violinistas começavam a tocar. Era a nona sinfonia de Beethoven, o trecho mais famoso (acho que é Ode à Alegria, o nome? Não lembro). Ouvi os primeiros murmúrios de exclamação da platéia que, satisfeita com a escolha, adicionavam à canção os sons de moedas caindo em um dos três estojos de violino, abertos aos pés dos músicos, prontos para receber o pagamento suado por aqueles momentos de orquestra urbana.

Uma senhorinha de idade, também entrando no metrô, comentou comigo que era ótimo ouvir “músicas de sua juventude” na rua. Certamente, aquela senhorinha não era tão idosa ao ponto de ter nascido no mesmo ano de Vivaldi ou de Beethoven. Mas preferi não responder ao comentário engraçado, e apenas abanei a cabeça em concordância, pensando que algumas músicas fazem parte da juventude do mundo. E os homens e mulheres tornam-se, novamente, crianças felizes ao escutá-las.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Uma ronda no centro do Rio...

O andarilho curioso que se propuser a passear pelo centro da cidade do Rio de Janeiro, no maravilhoso ano do nosso senhor de dois mil e nove, deve se congratular por poder vivenciar o ambiente em uma época tão interessante. Após se preparar devidamente para o passeio, os homens escondendo qualquer traço visível de coisas caras em seu poder, como laptops ou blackberrys; e as mulheres com as bolsas devidamente fechadas e coladas ao corpo, com sandálias de salto grosso e baixo (tendo em vista o grande potencial de buracos nas ruas, com especial atenção à rua da tradicional Confeitaria Colombo, a Gonçalves Dias, rainha dos tropeços das moçoilas desavisadas, que desabam como árvores nas calçadas, após o salto agulha prender-se no piso de pedrinhas portuguesas quebradas), o visitante pode, apesar do risco sempre presente de ter suas posses materiais diminuídas, devido ao alto índice de larápios na região, contar com momentos bem agradáveis.

Partindo da praça XV, onde a família imperial portuguesa chegou ao Brasil em 1808, o andarilho pode descansar naquele chafariz maltratado que fica entre as barcas para Niterói, e a rua Primeiro de Março. Se não houver nenhum mendigo dormindo lá, o andarilho poderá ter uma visão privilegiada da antiga rua Direita, atual rua Primeiro de Março, caminho predileto para os que quisessem comprar escravos nos séculos XVII e XVIII (parênteses não confirmado: um professor de história da UFRJ, não lembro o nome, mencionou que a rua Direita foi a primeira a ter numeração, no Rio. Não sei se isso é verdade.) Sentado de frente para a rua Primeiro de Março, no batente do chafariz, o curioso poderá olhar à sua direita e admirar o Arco do Teles, antiga estrutura que era o ponto principal do antigo mercado de escravos do centro do Rio. O arco foi a única coisa que sobreviveu ao incêndio do mercado (não me pergunte em que ano, nunca fui boa com datas), e agora abriga inferninhos, pés-sujos e barzinhos aprazíveis para os que têm a falta de sorte de trabalhar de nove às seis, os chamados não-milionários (parênteses: na Rua do Mercado, localizada ao lado do Arco do Teles, temos o “Dito e Feito”, que se não me engano ainda tem Clube das Mulheres às terças-feiras, com Go-Go Boys esforçados, dançando em seus ferrinhos).

Levantando-se do batente do chafariz, pode se admirar à esquerda o prédio do Paço Imperial, que foi residência de governadores e vice-reis, e do próprio rei de Portugal Don João VI quando chegou ao Brasil, e agora é centro cultural, livraria e abrigo de um dos cafés mais caros do centro do Rio. Após ficar chocado com os preços daquela lanchonete metida à besta, onde uma água pode custar quatro reais, o curioso andarilho pode atravessar a Primeiro de Março com todo o cuidado, olhando para os lados devido ao intenso trânsito de ônibus e taxistas, que não sabem dirigir e atropelam com gosto os desavisados.

Aqui também a atenção deve ser redobrada devido aos moleques que roubam celular (lembro do meu Neo da Nokia sendo arrancado de minhas mãos por um inclemente trombadinha exatamente naquele trecho, há alguns anos). Mas se o visitante escapar desse percalço, pode atravessar a rua e andar um pouco mais à direita, até chegar à rua do Ouvidor. No século XIX, era a rua das modas francesas, onde as senhorinhas vinham ver os últimos modelitos de Paris. Hoje podemos ver que o comércio ainda é forte na rua, mas as modas das senhoras fica mais concentrada para o lado de lá da rua do Ouvidor, depois do cruzamento com a avenida Rio Branco.

Os modelitos de Paris devem se retorcer em seu túmulo ao verem que, ocupando seu antigo lugar no ambiente da alta-costura da moda, estão agora todas as lojas de departamento mais baratas do planeta, oferecendo a “última moda”, mas em outro contexto: é a moda em que as mulheres pagam os últimos trocados, com os últimos rescaldos do pagamento do mês, só para dizer que compraram uma coisinha (parênteses: atenção para a Top Fashion, loja que tem blusas de 9,99 reais!).

Os camelôs, na Ouvidor, são inúmeros, constantes, freqüentes e não há como escapar deles. (Uma vez pisei em uma lona amarela na rua do Ouvidor, onde um vendedor ia colocar seu material, um monte de bolsas falsificadas com as marcas “Luisa Vitton”, ou “Brada”. O homem ficou furioso e berrou comigo, mandando que eu afastasse meus pés da loja dele)
Ao término da rua do Ouvidor, nos deparamos com o Largo de São Francisco de Paula, um dos mais antigos ambientes urbanos do Rio. Conta-se que, no século XVIII, foram dados os primeiros passos para a construção de uma nova catedral no Rio, mas a construção parou no meio, somente os alicerces realizados. Esses alicerces foram aproveitados para a construção da Academia Real Militar e da Escola Politécnica, no centro do Largo.

Hoje, o Largo de São Francisco é um dos maiores abrigos para população de rua, e possui um cheiro perpétuo de fezes, urina, churros e camarão frito, esses dois últimos vendidos em barraquinhas no final da Ouvidor. Há um bando de cachorros também, e mendigos cuja razão mental já foi abandonada de suas respectivas cacholas. Uma ressalva: nunca fui assaltada nesse trecho. Corre à boca pequena um boato de que a Polícia deixaria a população de rua se instalar naquele ponto com a condição que nenhum estudante ou transeunte fosse assaltado nesse trecho.
Já o antigo prédio da Academia Real Militar é o encantador Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) onde estudo História à noite, e sou agraciada com momentos como quando o elevador quebra por meses e sou obrigada a subir quatro lances de escada em espiral para assistir às aulas; ou então fritar de calor em ambientes onde não há ventilação, nem ventiladores, no tórrido verão do Rio; ou receber pingos de chuva na cabeça devido a algum buraco no teto, nas noites de temporal.

Mas isso não é tudo. Entrando pela rua à esquerda do IFCS, mantendo sempre à esquerda, chegamos à Praça Tiradentes, onde o mártir da Inconfidência Mineira conheceu seu fim. Hoje a praça é rodeada de pontos finais de ônibus diversos, onde filas homéricas de trabalhadores que moram nas zonas oeste e norte aguardam a saída de seu transporte, um veículo a cada hora, e se amontoam em meio aos pontos fixos de travestis e prostitutas que ganham seu pão naquele ambiente.

Acredito que os lugares, assim como as pessoas, possuem alma própria. Vejo, hoje, muito do centro do Rio com certa atenção e cuidado. Pois cada vez mais sinto a personalidade desse trecho tão interessante da cidade se esvair gradativamente, sem chance de recuperação...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Domingos

Não sei porque os domingos, de uma maneira geral, se assemelham como dias de melancolia absoluta para nós, adultos. Olhe seu rosto em uma manhã de sábado, e o compare a sua face em uma manhã de domingo. Enquanto a primeira expressão facia revela todo um ar esperançoso em relação ao final de semana, que ainda está todo por vir, a segunda, mesmo que contenha um sorriso ainda possui um laivo de melancolia, como se seus olhos dissessem, lá no fundo, "seu final de semana está acabando".

Foi como me senti hoje. Ontem, tão animada; hoje, só pensando na segunda-feira cada vez mais próxima. E o que fiz para minorar a situação? Dormi o dia inteiro, para esquecer da segunda, e acabei deslocando todo o meu domingo para os braços de Morpheus...

O engraçado é que, quando estou viajando, o domingo é encarado de uma forma completamente diferente. Acordo e penso: "ah! tenho o dia inteiro para fazer alguma coisa divertida, em um lugar em que ninguém me conhece!!"

Lembro de um final de semana em Ilha Grande, a primeira vez em que fui àquele lugar maravilhoso, em que os dois dias passados pareceram uma semana, duas semanas. Pois foram tantas coisas ótimas para ver, para fazer, que o sábado e o domingo pareciam dois dias dentro de um túnel do tempo, no qual podiam se esticar e até (por quê não?) durar para sempre...

É claro que não durou. Chegou ao fim, como todas as coisas boas, que são finitas.

Até o sol pareceu melancólico hoje. O entardecer parecia gritar, "segunda-feira, segunda-feira!"

Enfim. Acho que vou sair agora e tentar ver a beleza de uma noite de domingo, e assim salvar o dia. O tempo parece firme; a lua começa a se posicionar no céu. A noite sempre parece recepcionar bem àqueles que gostam de caminhar pela terra.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Sobre o Carnaval no Rio

O Carnaval no Rio mudou muito nos últimos anos. Lembro que, quando era criança, a presença de blocos carnavalescos nas ruas era algo quase à beira da extinção. Uma coisa realmente triste, já que o Carnaval do Rio começou nas ruas. Recordo nitidamente que, na pracinha de Realengo, na avenida Santa Cruz, ficava um carro de som tocando marchinhas, e as pessoas dançavam e bebiam nas ruas. Até seres de grande inteligência, para não dizer outros adjetivos, começarem a levar armas e disparar tiros para o alto com o intuito de comemorar alguns momentos mais marcantes das canções. O carro de som sumiu rapidinho.

Seja por causa da violência ou simplesmente porque as pessoas começaram a achar que Carnaval era simplesmente ligar a televisão para assistir o desfile das escolas de samba no Sambódromo, na Apoteose (postura que minha família e nossos vizinhos começaram a assumir, quando o carro de som na pracinha de Realengo desapareceu dos carnavais), ou pular a sua folia em um Clube (agh!), o fato é que, nas décadas de 80 e início de 90 do século passado, blocos de carnaval não eram mais tão comuns nas ruas do Rio. Pensei nas palavras de um antigo professor de história, do segundo grau, que quando se aproximava a data, suspirava e dizia para nós, alunos: “tiraram o Carnaval de nós, do povo. Era de graça o que agora nós compramos”, falava, enquanto explicava para nós, adolescentes, que antigamente as escolas de samba desfilavam pela avenida Rio Branco, no centro do Rio, antes da inauguração da Marques de Sapucaí, em 1984. O público participava do desfile e era tão importante quanto as penas de pavão que enfeitavam as fantasias dos foliões.

Mas isso acabara, e agora o povo era obrigado a comprar ingressos para assistir um espetáculo que ele mesmo criara.

Porém, a inevitabilidade de que a folia pertencia às ruas não tardou a se fazer sentir. Pouco a pouco os blocos voltaram, e agora qualquer pessoa a acesso a jornais ou Internet pode descobrir que as ruas do Rio, no Carnaval, tornam-se intensos bailes de música ao vivo com cerveja gelada. Os nomes dos blocos são as coisas mais engraçadas do planeta. No Carnaval passado, comecei minha folia indo no “Vem ni mim que eu sou Facinha” (parênteses: não é composto apenas de facinhas, e sim de facinhos de uma maneira geral. Todo mundo é fácil nesse bloco, pois não há uma única pessoa sóbria. Sério mesmo.) para depois passar no “Rola Preguiçosa” (outro parênteses: o bloco começa com uma “Rola” inflável amarrada em uma picape, e termina quando a genitália masculina está completamente fora de combate, murcha, o ar escapando de seus ‘pulmões’. Tudo muito metafórico), continuando com o Cordão do Bola Preta, Barbas (onde uma loira gordona comanda uma mangueira de água de cima de um carro de som, molhando os corpos e cervejas de todos os foliões); Bip Bip (que é o nome de um bar no Rio, onde as pessoas se concentram, bebendo, até meia noite em um dia de Carnaval quando dão a volta ao redor do quarteirão onde fica o bar, sambando e cantando. E assim termina o bloco!); Quizomba (o melhor, o melhor, o melhor!) entre outros.

Sim, meu carnaval do ano passado foi bem divertido. Mas não há Carnaval mais marcante do que aquele em que você não participa. Durante anos fiquei de plantão, trabalhando, nessa época de folia, e não aproveitando ao máximo a ressurreição dos blocos – coisa que fiz ano passado, faminta como uma criança que foi liberada para comer doces após passar um longo tempo de castigo.

O último Carnaval que passei trabalhando foi o de 2007, e vou te contar, amigo: nada é pior que estar trabalhando pesado quando todo mundo está se divertindo. Lembro de ter começado meu dia de plantão com uma matéria em que fui obrigada a seguir uma passista e uma baiana em seu dia de preparação antes de entrarem na avenida. A passista morava em Vaz Lobo, a baiana, em Madureira. Uma hora para ir, uma hora para voltar para redação e bater matéria, onde descrevi coisas como os sacrifícios da passista que queria entrar com silicone esse ano na Marques de Sapucaí, mas o namorado só queria pagar um peito. “Convenci minha mãe a pagar o outro peito, com muito esforço” disse a linda mulata, com um sorriso de satisfação no rosto. Doze horas de trabalho no primeiro dia.

No segundo dia de plantão, mandaram que eu repercutisse junto à “mangueirenses famosos” a briga ocorrida naquele ano entre a cantora Beth Carvalho e a Mangueira. O problema é que não sou expert de Carnaval, e não sei quem é mangueirense famoso! Desesperada, digitei no google “mangueirenses famosos” e fui tentando ligar para as pessoas que esse salvador sistema de buscas pela Internet me indicou.

No terceiro dia tem um e-mail do meu chefe, na minha caixa de entrada, com o seguinte título: “Última roubada, prometo”. Eu tinha que fazer uma matéria analítica sobre os desfiles da escola de Samba do Rio e conversar com especialistas do Carnaval para saber se as escolas cariocas mudaram muito sua forma de desfilar naquele ano, na comparação com anos anteriores. Detalhe: eu não tinha assistido um ÚNICO desfile naquele ano, e ainda cometi o mico de ligar para a Leci Brandão, que me respondeu, surpresa, quando ouviu meu pedido: “Minha filha, eu só cubro o Carnaval de São Paulo há cinco anos! Você não vê pela televisão?”

O pior era ficar trancada na redação, localizada no centro do Rio, e ouvir os blocos passarem. Os risos, as músicas, os sons de bêbados e da folia que passava por nós, enquanto trancafiados, sóbrios, em quatro paredes...era horrível.

Lembrei disso tudo pois soube recentemente que não vou trabalhar no Carnaval esse ano. Portanto, estou apenas a alguns dias de ser mais uma animada participante dos blocos que pululam hoje no Rio. Esse ano vou tentar ir aos blocos que não consegui ir no ano passado, como o “Concentra mas não Sai”; “Se não quer me dar, me empresta” e “Carmelitas” (parênteses: os nomes dos blocos não são sensacionais?)

Emquanto escrevo, ouço agora os acordes de apitos e de um samba antigo pelo ar. Corro até a janela e vejo que já tem um bloco pré-carnavalesco passando pelas ruas de Copacabana, agora. Então, com licença que vou trocar de roupa, sair da frente desse computador, e começar minha folia mais cedo.

Ah. Estão cantando uma das minhas favoritas! "Hoje vou tomar um porre/não me socorre/que eu estou feliz..."

Cara, eu AMO o Rio de Janeiro!

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Palhaços

Nunca achei graça em palhaços. Quando era criança, fui pouco ao circo, apenas duas vezes. (circos não paravam com freqüência em Realengo, onde eu morava naquela época). Mas essas duas ínfimas vezes foram suficientes para que eu achasse os equilibristas muito mais interessantes que os palhaços. Na televisão, não achava graça nem no Carequinha (pessoal de trinta anos deve saber de quem estou falando). E a graça diminuiu mais ainda quando minha mãe levou a mim e a minha irmã para ver um show dele e, no final do evento, ele meio que se recusou a dar autógrafos para as crianças, dizendo que estava com pressa.

Também não achava o Bozo engraçado. Assistia ao programa dele, mas porque gostava das brincadeiras que ele inventava com o público de casa, como a corrida dos cavalinhos e batalha naval (parênteses: durante anos, anos mesmo, pensei que batalha naval fosse uma brincadeira inventada pelo Bozo. Cometi o erro de falar isso em voz alta no trabalho, há uns quatro anos atrás, somente para ser devidamente e merecidamente ridicularizada. Muito paciente, um colega de trabalho me explicou como se fazia para brincar de batalha naval no papel. Fiquei confusa. Perguntei: “Mas...o que impedia de, quando você estivesse brincando com algum amigo, e ele falasse algum quadradinho no qual você tivesse um submarino, você simplesmente mentisse, e dissesse ‘água’ para ele?”. O meu colega me olhou e simplesmente respondeu: “Ética!”).

Enfim, meu histórico com palhaços sempre foi muito ruim. Por isso, não pude deixar de dar um olhar de desgosto quando aquele palhaço entrou no 433, ônibus em que eu estava, indo em direção ao hotel Glória, onde se realizaria um seminário sobre petróleo. Era a época em que a empresa em que eu trabalhava estava praticamente falida, e não tinha dinheiro para pagar táxis ou motoristas para levarem os repórteres às pautas. Então, eu ia para as pautas de ônibus.
O palhaço entrou pela porta de saída, por trás, e não pagou passagem, como cortesia do motorista. E começou a fazer palhaçadas. As pessoas riam, e se divertiam, enquanto eu só pedia aos Céus para que o ônibus andasse mais rápido. Estava entrando na Praia do Flamengo quando meu telefone toca. Começo a conversar com um amigo, distraída, até ver que o ponto de ônibus o qual eu ia descer se aproximava.

Foi quando ouvi as terríveis frases do palhaço:

“Vamoooss fazeeeer uma brincadeiraaa agoraaa (parênteses: ele falava assim mesmo, forçando sempre os últimos sons de cada palavra). A primeiraaa pessoaaa que levantar agora vai ser o encalhadoo e a encalhadaaa do ônibuss!”

Gelei. Meu ponto era o próximo. Não tinha como não descer ali. Pensei, alguém vai descer comigo, quando levantava lentamente do banco do ônibus, ainda com o celular na mão, e ouvindo alguma coisa que dizia meu amigo, do outro lado da linha.

Então, o palhaço me viu. Seus olhos pintados de preto e branco e seu nariz vermelho tremeram de satisfação enquanto ele apontava para mim e dizia:

“AA encalhadaaa do ônibusss, pessoaall! Palmasss para elaaa!”

E o ônibus inteiro explodiu em gargalhadas e palmas. Meu amigo ouviu o barulho e perguntou o que estava acontecendo, enquanto eu pedia para ele esperar enquanto eu dava o sinal e descia do ônibus, completamente vermelha de vergonha, andando apressadamente, mas não tão rápido ao ponto de conseguir perder o corinho empolgado de vozes do 433, que gritava:

“En-ca-lha-daaa! En-ca-lha-daaa!”
Saí do ônibus tremendo. Meu amigo, ainda aguardando do outro lado da linha, quando percebeu o súbito silêncio perguntou, confuso:

“Alguém está te chamando de encalhada?”

Fui para o hotel Glória, quase chorando de ódio pelo que tinha acontecido. O pior é que, quando encontrei uma amiga no seminário e contei o que tinha acontecido, com uma voz que denotava toda a raiva que eu sentia por todos os palhaços do mundo, ela simplesmente começou a rir. Ao ver meu olhar, ela tentou me consolar dizendo:

“Amiga, me desculpa, mas não tem com rir disso. Olha só, pelo menos você vai ter uma história divertida para contar para os outros... você ainda vai rir disso, você vai ver”, ela me disse, com um sorriso amável no rosto.

Bom. Ainda não consigo rir da história. Isso não impede, é claro, que outros riam. E continuo ODIANDO palhaços.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Janelas

Uma das lembranças mais aterrorizantes da minha adolescência foi ter passado por um blecaute no hotel Glória. Eu tinha uns 17 anos, acabava de entrar na faculdade de jornalismo, e estava indo para o hotel com o objetivo de participar de uma entrevista de estágio na assessoria de comunicação de uma grande empresa. Cheguei ao hotel, entrei no elevador e, quando entrava no corredor para buscar a sala correta onde seria realizada a entrevista, as luzes se apagaram repentinamente.

Não sei se algum de vocês já esteve em um ambiente de escuridão total. Eu confesso que nunca tinha estado em nenhum, até aquele momento. Isso porque, como eu fui obrigada a notar naquele instante, os corredores do hotel Glória não possuem janelas. Nem umazinha. Nem mesmo uma clarabóia, absolutamente nada.

Fiquei em silêncio, por um momento, tentando ver pelo menos sombras, contornos, qualquer coisa que me lembrasse algum tipo de objeto. Nada. A sensação era tão forte que, mesmo sem querer, comecei a ficar nervosa. Era óbvio que o hotel passava por um problema de energia, e que não havia nada de sobrenatural naquilo, e que essas coisas simplesmente acontecem (com mais freqüência do que eu gostaria. Lembrem-se dos apagões de 2001, onde fomos obrigados a enfrentar picos de falta de luz por ausência de planejamento de um governo que simplesmente não prestou atenção quando chovia). Mas eu não conseguia não deixar de ficar nervosa. O sentimento de início de pânico começou a crescer quando, me movimentando, percebi que tinha perdido a noção de onde estavam as paredes.

Comecei a ouvir barulhos, sons de coisas caindo e pessoas chamando outras pessoas. Estranhamente isso me deixou mais calma. E quando ouvi o som de passos no corredor, vindo em direção a mim, não fiquei assustada. Pois sabia que era alguém que estava passando pela mesma escuridão que eu, e isso diminuía a sensação de estar sozinha naquele breu horroroso. Como eu desconfiava, o dono dos passos era um funcionário do hotel, um boy, que estava tentando ver se alguém precisava de ajuda durante o blecaute. Pedi a ele que me guiasse, pois não era conhecedora do lugar, como ele parecia ser, pelo som de seus passos, e não sabia como sair do corredor. Ele me pegou pela mão e me conduziu pelas escadas, e seguimos os dois tateando as paredes descendo quatro andares, até andar térreo do hotel, onde (finalmente) havia alguma luz.
Após ligar e receber a notícia que a entrevista tinha sido adiada devido à falta de energia no Glória, fui para casa pensando em como as janelas eram invenções úteis.

Lembro de ter passado pela minha cabeça a trama de um conto do escritor de ficção científica Isaac Asimov, “O Cair da Noite”, onde o autor conta a história de um planeta que tem seis sóis e em que é sempre dia, com uma única exceção: a noite cai uma vez a cada trocentos milhares de anos e a população, que não entende o que é a escuridão, que nunca a tinha contemplado na vida, simplesmente enlouquece. E civilizações inteiras são destruídas nesse momento, sendo reconstruídas apenas quando a luz dos seis sóis voltam a brilhar.

Quando li o conto achei a história do “enlouquecimento” da população meio exagerada, e isso meio que derrubou um pouco meu gosto pela trama. Até aquele dia do hotel Glória. Passei a respeitar o autor que soube perceber o impacto da escuridão na mente humana. E também passei a valorizar, por mais bobo que isso seja, a importância das janelas em nosso dia a dia.
As lembranças daquele dia e do que pensei sobre as janelas foram reativadas ontem, quando um amigo me contou que pediu para mudar seu lugar, no ambiente de trabalho. Tendo trocado recentemente de emprego, ele nunca notara que, em suas funções anteriores, sua mesa sempre contou com a visão, mesmo que parcial, de uma janela e, com ela, de um pedaço do céu, do sol, do tempo e da vida no lado de fora. Mas no novo emprego, cuja sala é em formato de “L” , o lugar em que ele ficava não contava com nem um pequeno pedaço de janela.

Após dois dias trabalhando assim, ele sentiu um incômodo, que nem mesmo sabia que estava dentro dele.

Como tinha sido levado em condições muito boas para o novo trabalho, o qual foi convidado para ocupar, achou que tinha liberdade para pedir por uma troca. Dito e feito: trocaram sua mesa por outra, perto da janela.

E agora, quando ele trabalha, sabe que, se desviar sua atenção do computador ou dos papéis que tem que examinar, pode ter a visão da enseada de Botafogo, a luz do sol batendo na água, como pequenos diamantes, na altura de seu olhar.

Acho que a vida fica mais leve quando podemos contar com a luz do sol...

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Filmes, vestidos e mulheres

Fui devolver uma fita ontem (sim, eu sei que o VHS acabou. Mas para mim, filme em locadora sempre vai ser fita, mesmo que seja armazenado em um super CD high tech), depois do trabalho, e olhava com interesse para as prateleiras, sedenta por novas tramas (acabei pegando “Disque BUtterfield 8” com Elizabeth Taylor. Muito bom...). Até que minha atenção foi atraída por uma gostosa conversa entre duas mulheres e o atendente, que conversavam sobre as divas do cinema, enquanto assistiam várias e várias vezes uma das incontáveis cenas de escada de Vivien Leigh como Scarlett O’Hara em “O Vento Levou” (sério, na boa: quantas cenas de escada tem esse filme? Lembrei de cabeça de umas quatro, pelo menos. Acho que a escada era praticamente um ator coadjuvante). Foi mais ou menos assim:

O ATENDENTE: “Olha o vestidoooo! O vestidooo”

MULHER NÚMERO UM: “Gente, na próxima encarnação quero renascer como vestido de Scarlet!”

MULHER NÚMERO 2: “Por quê ela se inclina dessa maneira?”

O ATENDENDENTE: “Para ficar longe do mau-hálito, bitch. A boca do Clark Gable tinha cheiro de esgoto, é o que diziam”

MULHER NÚMERO 2: “POR QUÊ a gente não se veste mais assim? Eu quero um vestido da Scarlet!”

O ATENDENTE: “Ficou louca? Nesse calor do Rio?

MULHER NÚMERO 2: “Nada a ver, o sul dos Estados Unidos também era quente...”

O ATENDENTE: “A-COR-DA bitch! Isso é um filmee! Se fosse vida real esse vestido estaria com duas rodelas de suor nos suvacos da Scarlett”

Sorri de forma compreensiva, meio sem querer. Na verdade, eu entendi o que a mulher número dois falou. Quando eu era criança, via filmes antigos na tevê aberta e não entendia porque as mulheres não se vestiam mais daquela maneira. Era tudo tão bonito, feminino, cheio de glamour...

Lembrei da conversa hoje, quando voltava, acompanhada de algumas amigas, para o trabalho após o almoço, para o segundo round. Uma mulher desconhecida passou pelo meu grupo, e todas nós fizemos um silêncio avaliativo, tentando absorver a quantidade de informações que havia naquela pessoa. Era uma mulher nem bonita, nem feia, mas o que vestia chamaria atenção de qualquer um que tivesse olhos para ver: trajava um vestido meio roxo, meio oncinha, onde a parte de cima, do busto, era complementada com uns pontos brilhantes básicos, cujo tecido não consegui identificar. Usava como acessórios uma bolsa verde escura com alças douradas e um sapato de salto fino, agulha, também meio roxo, meio oncinha.

“Oh!”, suspirou minha amiga ao lado. “Meu Deus...!”

“Ela vai trabalhar ASSIM?” disse outra amiga.

“Claro que é uma roupa de trabalho”, rebati, acrescentando que só gringos vão ao centro da cidade por diversão.

“Mas não faz o menor sentido! Ela não tem espelho em casa?”, disse a terceira amiga, que ainda não havia falado nada.

Embora tudo fosse de gosto duvidoso e, sinceramente, não muito bonito em uma avaliação pessoal, admirei a coragem daquela mulher. Ela estava tentando ser feminina de todas as formas que seus adereços permitissem. Gosto quando uma mulher se preocupa em se vestir como uma mulher, e não tem medo de usar os recursos visuais que os ditames sociais nos impuseram. Às vezes acho que, por um desejo de nos equiparamos aos homens, acabamos optando por peças de vestuário sóbrias demais, que nos aproximam mais da moda masculina. É o caso dos terninhos, por exemplo. (parênteses: essa perspectiva é completa e totalmente pessoal. Odeio terninhos. Não sei se os odeio ou se eles me odeiam. Nunca encontrei um que me servisse bem)

É uma avaliação sexista, e nada feminista, creio. Mas como ainda temos liberdade de expressão (enquanto a China não domina o mundo...) ouso dizer que nada veste melhor uma mulher do que um vestido.

Mas é claro, há vestidos e vestidos. Como diria Coco Chanel, “vista-se mal e notarão a roupa. Vista-se bem e notarão a mulher”.

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P.S. – Mostrei para um amigo, homem, o que tinha escrito. Ele suspirou e comentou que “nada era mais ferino do que língua de mulher, falando da roupa de outra mulher...”

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Sobre Casamentos

Uma grande amiga vai casar em breve e, em meio às especulações sobre o que vestir, comecei a lembrar sem querer aos casamentos que tive o prazer de assistir, quando era criança e depois adolescente, em Bangu e em Realengo (os bairros mais quentes e mais inapropriados para se vestir um longo, sedoso, e calorento vestido de noiva). Lembrei do casamento da prima da Vitória, cujo nome esqueci completamente, e que era cega como um morcego, míope mesmo, e casou de óculos (naquela época, em minha pré-adolescência, usar lentes não era comum, e algo bem mais caro do que hoje). Como não queria aparecer de óculos nas fotos, tirava sempre que o retratista aparecia para cumprir sua função no evento. Mas como não enxergava nada sem eles, e apertava os olhos, inconsciente ou conscientemente, para ver melhor, ficou com cara de fuinha em todas as imagens do álbum de seu casamento.

Recordei ainda do primeiro casamento da minha irmã, em que os sobrinhos do meu cunhado, que eram “daminhos” de honra, acharam um barato os degraus do altar e, enquanto o padre realizava a cerimônia, ficavam saltando daquilo com pequenos gritos de “uhú, uhú”, enquanto os pais dos pequenos seres e meu ex-cunhado achavam tudo aquilo uma gracinha. Até que o próprio padre interrompeu a cerimônia de casamento e disse: “Chega! Chega disso! Vocês dois, PAREMJÁCOMISSOO! Saiam já daí e fiquem ali do lado até a cerimônia acabar."

Lembrei também do casamento do Paulo com a Gisele, o melhor amigo do meu ex-cunhado que casou com a então melhor amiga da minha irmã. O olhar dos dois, quando se cruzaram pela primeira vez após ela entrar na Igreja foi um dos olhares mais cheios de amor que eu já tive o privilégio de presenciar.

Mas esse não foi o casamento mais marcante que presenciei, durante a minha estadia na zona oeste do Rio. Essa classificação eu destino ao casamento de Verônica, minha amiga e de Waleska, em Bangu. Não lembro do nome da casa de festas, mas era, é claro, em um lugar muito quente (parênteses: não sei se era muito caro na época, mas não lembro de ter ido praticamente a nenhuma festa de casamento com ar-condicionado, naquela época. Era tudo no ventilador mesmo). Enquanto me abanava na festa com a Waleska, me perguntando se aquele lugar poderia ser mais quente ou se simplesmente o vento esqueceu o caminho para Bangu, o responsável pelo cerimonial do evento (parênteses: o-cara-que-fica-com-a-roupa-mais-quente-do-evento-depois-do-noivo), anunciou, com um sorriso no rosto: “E agora, os noivos vão dançar a primeira música como marido e mulher, e escolheram sua canção para esse momento!”.

Todo mundo pára de conversar. Os dois vão para o centro do salão, e eu comentava com Waleska como Veronica estava bem composta naquele vestido de renda, mesmo com a temperatura de 40 graus Celsius, quando parei no meio de minha fala, ao ouvir os primeiros acordes da tal “canção”. E escancaro a boca, de espanto.

A música já iniciava seus primeiros versos.

“Tô fazendo amor/com outra pessoa/
Mas meu coração/vai ser pra sempre seu”

Olho para a Waleska. Ela está com os olhos esbugalhados, olhando para mim com o mesmo ar de espanto que estava em metade das pessoas da festa, que começavam a rir e cochichar, enquanto os noivos, felizes, nem aí para o bafafá que criaram, rodopiavam no salão.
Pigarrei e perguntei para a Waleska:

“Er...você sabia disso?”

“Disso? Disso? Eu nem sei O QUÊ é isso!”

“Mas...” eu continuava a falar, confusa... “Quem é ela na história? A outra pessoa ou a que tem o coração do cara??”

Waleska olhou para eles, e comentou:

“Quer saber? Acho que isso não importa agora.”

Olhei para os dois e vi que ainda estavam dançando juntinhos, abraçados. Felizes mesmo. Suspirei e respondi:

“Waleska, você é uma sábia!”

E viva os casamentos na zona oeste!

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Só no centro da cidade...

Os ambulantes do centro do Rio de Janeiro são um espetáculo à parte, em termos de criatividade. Esqueça por um momento se você concorda ou discorda da existência do comércio de rua: o que importa é que ele está lá, queira ou não. E esbanjando alternativas para conseguir vender seu treco, que vai do absolutamente útil (como chocolates) ao absolutamente inútil e insuportável (como aquelas cornetas que imitam o som de um gato sendo morto ou no cio, ou os dois).

E a engenhosidade está lá, firme e forte. Lembro até hoje de uma placa de um vendedor de salgados da Central do Brasil, que vi quando era adolescente. Era minha época de faculdade e, como morava em Realengo ainda, tinha que pegar o trem na estação de minha terra (detalhe: a primeira vez que andei de trem foi nessa época, e tive que pagar o mico de “dar sinal” na estação, até uma senhora muito educada, que também esperava, me explicar que os trens param em todas as estações), descer na Central, depois pegar um ônibus para a Praia Vermelha, na Urca. Andando até o ponto de ônibus, um vendedor, impávido, se posicionava na frente de sua barraquinha com a seguinte placa: “Salgado mais suco: um real. Com salgado de ontem: cinqüenta centavos”.

Mas lembrei dessa história para contar outra, na verdade. Aconteceu hoje. Tinha saído para almoçar, e estava voltando para o trabalho (porque esse é o lugar que você realmente gostaria de estar em uma segunda-feira de sol de verão...tsc.) quando vi um cara andando devagar, por uma rua que é, normalmente, repleta de camelôs, no centro. E, como sempre, os ambulantes estavam lá.

A princípio o cara não me chamaria atenção, tipo comum, rosto normal. Mas ele acabou, sim chamando minha atenção. Porque elwe estava cantando. Cantando em uma voz bem alta, sem pressa. E cantando não qualquer música, mas uma música do Belo, chamada “Tua Boca” (parênteses: conheço a melodia pois minha irmã é fã incondicional de Belo, me avisou que vai vê-lo no Via Show e já me acionou para ficar de babá das minhas sobrinhas. Não que eu tenha alguma coisa contra pessoas que compram “tecidos finos” de traficantes e fazem experiências de água oxigenada Márcia 40 volumes com o próprio cabelo...). Achei estranhíssimo alguém cantar essa música no meio do dia, pra ninguém em especial. Porque a letra tem rimas tipo “Céu/ Tua boca tem o céu/Infinito no prazer/Toda vez que amo você”. A não ser que esteja em um musical antigo da Metro Goldwin Meyer, não era uma coisa comum.

Foi então que vi. A reação dos camelôs à música. Como se a canção de Belo fosse um toque de desaparecimento coletivo, TODOS os camelôs começaram a arrumar suas tralhinhas na maior pressa, e fugir desesperados, para a mesma direção – contra o sentido dos carros que entravam na rua.

O camelódromo urbano estava quase vazio (uma senhora se enrolou com seu tabuleiro de bijouterias, deixou parte cair no chão e ainda tentava pegar o resto, agachada) quando os guardas municipais apareceram. Confusos, viram uma rua com calçada desimpedida de ambulantes, onde antes eles pululavam como mulher em liquidação de vestidos da Mercatto. Aí, somente aí (é, eu sou lenta mesmo), me toquei que a música do Belo era, na verdade, um código para um VAZATODOMUNDO.

O homem continuou assobiando a música, baixinho, enquanto os guardas estavam na rua.
Quando os oficiais da lei foram embora, derrotados por “Tua Boca” do Belo, o homem foi até o começo da rua. E recomeçou a cantar. Mas não era o Belo. Era o “Rap do Salgueiro”, de Claudinho e Bochecha (reconheci, sim. Admito que gosto dessa música de graça mesmo). O trecho que ele cantava era do início da canção, aquele que era assim “Olê, Olá/Salgueiro vem com pira e aForça vai chegar iê/Eu quero ver, abalar/sacudir a massa/Arrepiar/Agitar o mundo, vamos navegar/O Salgueiro Força e Pira, ninguém pode parar”.

Lentamente, os camelôs voltaram a ocupar seus lugares. E o homem parou de cantar.

Acho que a inteligência é uma meretriz doida que serve bem quem a trata bem.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O caso do enfeite de mesa

Cheguei à festa, no sábado à noite, suando horrores. É incrível como as noites desse verão de 2009 têm sido quentes. Não: abafadas. Sem vento. Como se o Rio de Janeiro inteiro tivesse se transformado em Realengo, cercada por montanhas, morros, por todos os lados, onde o ar não tem como circular.
Meus amigos, ao notarem meu estado lastimável, derretendo, fazem o que os amigos sempre devem fazer nessa hora: oferecem uma cerveja. Cansada demais para falar uma desculpa educada, simplesmente digo a verdade:
“Não, não posso. Não estou bebendo”
“Ah, tá tomando antibiótico?”
“Não, não vou beber por três meses”
“Hein? Por quê?”
“Porque comi um enfeite de mesa no Ano Novo”.
Silêncio. Vejo os olhares espantados de praticamente metade da festa em mim e percebo que, dessa vez, fui sincera demais, para gente demais.
Suspirei. O que se há de fazer, pensei. Na dúvida, diga a verdade, como diria Mark Twain. E contei a história. No réveillon, fui para uma festa patrocinada por uma operadora de telefonia celular. Era o melhor dos mundos, era o melhor de meu mundo: comida E bebida, fartas...DE GRAÇA. Não sei se é porque vivi em Realengo tanto tempo, e lá o pessoal, desde criança, sabe valorizar de verdade quando as coisas são dadas de graça (tinha briga forte por saquinho de doces, no dia de São Cosme e São Damião). Mas se tem uma coisa que me deixa completamente descontrolada são ambientes com comida e bebida de graça. Tenho sempre que aproveitar tudo, comendo coisas de que nem gosto muito, experimentando tudo. Simplesmente porque é de graça.
Enfim, a noite foi passando...espumante para cá, cerveja belga para lá, caipivodka para cá, blá-blá-blá, feliz ano novo, olha aquele cara caindo na escada e arrebentando o queixo, crise de soluço de dez minutos, alguém já morreu de soluço, o espumante acabou, ainda tem caipivodka, etc, etc...
E foi então eu vi, brilhando no centro de uma mesa. Dentro daquelas tigelas de vidro transparente. Uau, pensei. Jujubas coloridas. Jujubas coloridas E brilhantes. Peguei uma na mão, e comi. Comi a segunda. Na terceira (acho) uma grande amiga, sóbria, que estava na Coca Light a noite toda (por opção. Só um parênteses: ela é nascida e criada em Laranjeiras), percebe a situação. “Cospe! COSPE ISSO AGORA!” ela comanda, olhando direto para mim. Não obedeço, e ela tem que fazer o que toda mãe faz quando vê o filho engolindo areia/barata/qualquer objeto que não seja comida, e aperta minhas bochechas com força para que eu cuspisse. Cuspi, desiludida. Ela diz para não fazer mais isso, e eu, como criança pega no flagra, fico com ar amuado no rosto.
(parênteses. Não eram jujubas. Eram bolinhas de gel...)
Mais tarde, voltando para casa da festa, e mais sóbria, fico arrasada ao lembrar do ocorrido. Porque isso era coisa de bêbado, sim, mas bêbado de sarjeta, e eu sempre tive a impressão que era uma bêbada mais digna (como se houvesse dignidade nos bêbados..).
Minhas amigas, também no táxi, tentam me consolar, sem sucesso. Desconsolada, me confesso com o motorista, ainda não acreditando no que tinha feito.
“Moço, estou tão mal...”
Ele, de soslaio, pensando essa-garota-vai-vomitar-no-meu-tapete-novo. Mas olhou para minha cara, ficou satisfeito com o que viu e perguntou, amável.
“Qual o problema, minha filha?”
“Moço. Bebi demais e comi um enfeite de mesa!”
Ele suspirou. E com toda a sua sabedoria de motorista de táxi da madrugada do Rio, responde:
“Minha filha. Isso acontece!”

sábado, 7 de fevereiro de 2009

Dois Personagens

Quando eu era pequena, li “Capitães da Areia” de Jorge Amado. Acho que eu tinha uns 12 anos. E me apaixonei perdidamente pelo personagem de Dora, a única menina integrante do poderoso bando de João Bala. Sua coragem em fugir para a cidade após a morte da mãe, para que não a separassem do irmãozinho menor, ambos órfãos, ambos suscetíveis a ir para orfanatos, separadamente. Sua valentia ao enfrentar os garotos do bando, quando levada a eles por João Grande (e eles pensam, erroneamente, que ela era uma prostituta). Sua determinação em amar João Bala mesmo quando estava prestes a morrer...e sua transformação em estrela, uma estrela com uma grande cauda dourada, representando sua cabeleireira loira (porque somente os mais valentes viram estrela no céu). Ah, como eu vibrava com ela! Pensava que, quando crescesse, queria ser tão corajosa quanto ela, tão valente quanto ela, tão determinada quanto ela.
Mas o tempo passou, eu cresci, li outros livros. Me interessei por outros personagens. Um deles estaria no livro “Cem Anos de Solidão” do Gabriel Garcia Márquez. Amaranta se apaixona por Pietro Crespi, que fica noivo de Rebeca, sua irmã. Rebeca se apaixona por outro homem, Jose Arcadio, e foge de seu noivo. Crespi fica desesperado. Amaranta o consola e, lentamente, o faz voltar a sentir alegria. A ser feliz. Pietro se apaixona por Amaranta, e a pede em casamento. Ela diz não. Ele se mata. Após a morte de Crespi, ela pega um ferro de passar roupa, e queima sua própria mão, completamente. Não emite um som, apenas fica com o ferro em sua mão, queimando.
Quando li o livro, fiquei completamente intrigada com o personagem de Amaranta, e ela me acompanhou em muitos pensamentos, que tentavam desvendar o porquê de sua atitude. A única conclusão que consegui chegar é que Amaranta, na verdade, tinha um medo tão intenso das coisas da vida, que esse temor não era dirigido somente às coisas ruins que poderiam acontecer, mas também às coisas boas. Ela tinha tanto medo de a vida dar errado, quanto da vida dar certo. E morreu virgem, com uma bandagem perpétua na mão, porque realmente amava Pietro (o fato de queimar sua própria mão como penitência por matar seu amor era prova disso) mas tinha medo. Medo da alegria, da tristeza, da saúde e da doença, e do até que a morte os separe.
Fiquei pensando em Dora e em Amaranta na última sexta-feira à noite. Estava na fila do cinema com uma amiga, quando um senhor não tão de idade, acompanhado de seu filho jovem e parrudo, fura a fila e compra os ingressos, na frente de todo mundo. Quando um senhor que também aguardava, como todos nós a sua vez, reclamou em alto e bom som, sendo ele notoriamente da mesma idade do homem que acabava de furar a fila, os dois se postam na frente do que reclamara, e o xingam e o ameaçam, de forma grosseira.
Mas as pessoas da fila, incluindo esta que escreve, não faz nada. Nem mesmo quando o filho parrudo de vinte e poucos anos pergunta se alguém tem algo a dizer sobre o assunto. Nem mesmo naquele momento.
É consolo pensar que eu não fui a única a não reagir, a não falar nada? Que havia pelo menos umas trinta pessoas na fila que fizeram o mesmo?
Acho que não. E fiquei pensando como alguém que sonhava em ser Dora, acabou se transformando em Amaranta...