Quando eu era pequena, li “Capitães da Areia” de Jorge Amado. Acho que eu tinha uns 12 anos. E me apaixonei perdidamente pelo personagem de Dora, a única menina integrante do poderoso bando de João Bala. Sua coragem em fugir para a cidade após a morte da mãe, para que não a separassem do irmãozinho menor, ambos órfãos, ambos suscetíveis a ir para orfanatos, separadamente. Sua valentia ao enfrentar os garotos do bando, quando levada a eles por João Grande (e eles pensam, erroneamente, que ela era uma prostituta). Sua determinação em amar João Bala mesmo quando estava prestes a morrer...e sua transformação em estrela, uma estrela com uma grande cauda dourada, representando sua cabeleireira loira (porque somente os mais valentes viram estrela no céu). Ah, como eu vibrava com ela! Pensava que, quando crescesse, queria ser tão corajosa quanto ela, tão valente quanto ela, tão determinada quanto ela.
Mas o tempo passou, eu cresci, li outros livros. Me interessei por outros personagens. Um deles estaria no livro “Cem Anos de Solidão” do Gabriel Garcia Márquez. Amaranta se apaixona por Pietro Crespi, que fica noivo de Rebeca, sua irmã. Rebeca se apaixona por outro homem, Jose Arcadio, e foge de seu noivo. Crespi fica desesperado. Amaranta o consola e, lentamente, o faz voltar a sentir alegria. A ser feliz. Pietro se apaixona por Amaranta, e a pede em casamento. Ela diz não. Ele se mata. Após a morte de Crespi, ela pega um ferro de passar roupa, e queima sua própria mão, completamente. Não emite um som, apenas fica com o ferro em sua mão, queimando.
Quando li o livro, fiquei completamente intrigada com o personagem de Amaranta, e ela me acompanhou em muitos pensamentos, que tentavam desvendar o porquê de sua atitude. A única conclusão que consegui chegar é que Amaranta, na verdade, tinha um medo tão intenso das coisas da vida, que esse temor não era dirigido somente às coisas ruins que poderiam acontecer, mas também às coisas boas. Ela tinha tanto medo de a vida dar errado, quanto da vida dar certo. E morreu virgem, com uma bandagem perpétua na mão, porque realmente amava Pietro (o fato de queimar sua própria mão como penitência por matar seu amor era prova disso) mas tinha medo. Medo da alegria, da tristeza, da saúde e da doença, e do até que a morte os separe.
Fiquei pensando em Dora e em Amaranta na última sexta-feira à noite. Estava na fila do cinema com uma amiga, quando um senhor não tão de idade, acompanhado de seu filho jovem e parrudo, fura a fila e compra os ingressos, na frente de todo mundo. Quando um senhor que também aguardava, como todos nós a sua vez, reclamou em alto e bom som, sendo ele notoriamente da mesma idade do homem que acabava de furar a fila, os dois se postam na frente do que reclamara, e o xingam e o ameaçam, de forma grosseira.
Mas as pessoas da fila, incluindo esta que escreve, não faz nada. Nem mesmo quando o filho parrudo de vinte e poucos anos pergunta se alguém tem algo a dizer sobre o assunto. Nem mesmo naquele momento.
É consolo pensar que eu não fui a única a não reagir, a não falar nada? Que havia pelo menos umas trinta pessoas na fila que fizeram o mesmo?
Acho que não. E fiquei pensando como alguém que sonhava em ser Dora, acabou se transformando em Amaranta...
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirPois você acaba de deixar a Amaranta de lado e voltar a ser Dora. Só pelo fato de ter feito esta reflexão, neste ambiente violento que nos deixa a todos anestesiados e com medo, você já pode se considerar a caminho de virar uma brilhante estrela no céu.
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