quarta-feira, 24 de junho de 2009

Twittando e outros bagulhos na Internet

Não importa em quantos lugares virtuais nos escondamos: as tranqueiras sempre nos encontram.

Renovei minha presença no Twitter há uns dois meses. Já tinha senha e login do serviço há uns dois anos, mas parei de usar porque não conseguia ver utilidade em todos saberem o que estou pensando/fazendo a cada segundo. Primeiro porque não é nada interessante; depois, porque acreditava firmemente que o resto do mundo tem mais o que fazer em suas vidas. Então esse ano, surpresa-surpresa: continuo achando meus post desinteressantes; mas descobri que o resto do mundo não tem mesmo mais o que fazer, e acessa o serviço, seguindo os passos de pessoas inexpressivas como eu.

Na verdade, reencontrei meu eu-twitteiro após insistência de uma amiga. E depois renovei esforços em permanecer on-line no portal inútil porque, surpresa-surpresa: descobri uma utilidade para ele. Tenho uma grande, grande amiga que mora em outro estado e trabalha em uma empresa malvada, que bloqueia Orkut, MSN e outros serviços de mensagens instantâneas, até mesmo portais de e-mail gratuitos. Mas a empresa ainda não descobriu o Twitter! Então, uso como se fosse um MSN para me comunicar com essa amiga, e também para saber como vai a vida dela, seu dia a dia.

Todos os dias fico impressionada com o monte de senhas que tenho que lembrar para entrar em vários sites que, como dizia o Calvin, do “Calvin e Haroldo” (aquela antiga tirinha de jornais, do tempo em que as tirinhas de HQs dos jornais tinham coisas realmente engraçadas e interessantes para dizer) “nunca tinha ouvido falar e nem têm utilidade, mas preciso desesperadamente”. É Orkut, MSN, Yahoo, hotmail, e agora o Twitter, todo santo dia. E pra quê isso tudo, pergunto eu, ao mesmo tempo que persigo na Internet outras maneiras de me viciar em outros bagulhos/progamas/sites de relacionamento que pipocam todos os dias na Internet.

Acho que o avanço desses trecos nos computadores pessoais tem muito a ver com os dizeres daquela antiga propaganda, “eu-tenho-você-não-tem”. Quando todo mundo tem, e todo mundo começa a falar com o resto do mundo que não tem, o resto do mundo fica ansioso e começa a querer também. É como uma grande bola de neve, que vai gradualmente se transformando, e aumentando até alcançar proporções globais.

Outro exemplo de avanço desenfreado pela Internet é a profusão dos blogs. Todo mundo quer ter um; está em vias de ter um; ou pensa em ter um. Na pior das hipóteses, é leitor de pelo menos um blogueiro. Uma pena que, entre tantos que são escritos a todo o momento, pouquíssimos são lidos. Contamos com a ajuda de amigos, que, para não ficarem de mal com a gente, acabam realizando o sacrifício de perder um pouco de seu tempo em ler algumas mal traçadas linhas virtuais.

Essa introdução toda e lenga-lenga infindável começou a se formar na minha cachola quando descobri hoje que estou sendo seguida por “awesomeman”. Peço desculpas aos meus amigos homens, mas conheço poucos que são “awesome” e nenhum é usuário do twitter. Ao tecer esses pensamentos lógicos em minha mente, cheguei a conclusão que não conheço a figura que está me seguindo.

Entro no perfil do ilustre desconhecido e descubro que os posts dele, no twitter, na prática, não são o passo a passo histérico e cotidiano de uma vida normal de um indivíduo, e sim um monte de anúncios, um coladinho no outro, de sites que vendem desde tupperware até CDs usados.

Comentando o fato com um amigo no MSN, ele suspirou (virtualmente) e balançou a cabeça de sua carinha-amarela-padrão-de-conversa-instantânea:

“O mal nos encontra em qualquer lugar...”

terça-feira, 23 de junho de 2009

MP3

As ruas do Rio de Janeiro estão repletas de passantes com MP3 em seus ouvidos. Entre eles, esta que vos fala. Um colega de trabalho meu é radicalmente contrário ao avanço dos tocadores de música nas orelhas dos transeuntes: diz que a melhor coisa ao se passear pelo Rio é ouvir os sons da rua. Eu contra-argumento que, com os tocadores de música nos meus ouvidos, o mundo adquire uma trilha sonora particular, que só eu possuo.

Ando pela avenida Rio Branco com Roger Daltrey do The Who berrando que não será enganado novamente; passo pela rua da Assembléia com o Eddie Vedder dizendo que era apenas uma pedra, até a luz do ser amado torná-lo uma estrela; e ultrapasso os transeuntes apressados pela rua Gonçalves Dias, deliciada com Juliette Lewis contando que nunca conheceu um tolo faminto que não tivesse todo o potencial necessário para que ela pudesse vir a adorá-lo.

Gosto disso. Ao mesmo tempo que minha visão percebe os carros e pessoas em movimento ao meu redor, a música preenche os espaços percorridos, e dando a mim a saborosa impressão de que estou em um videoclipe, meu videoclipe particular.

Entretanto, ao mesmo tempo que admito minha apreciação ao hábito, não pude deixar de perceber hoje de manhã, quando passei por cerca de 20 pessoas, dez das quais estavam com MP3 nos ouvidos, que esse tocador de música pode ter uma função que, inicialmente, não se esperaria dele. Ao mesmo tempo que fornece trilha sonoras variadas para os transeuntes, o tocador de música promove um afastamento virtual, mas firme, dos indivíduos em sociedade.

É como aquela cena inicial do filme “Crash” do Paul Haggins, onde o personagem interpretado por Don Cheadle explica que, em Los Angeles, as pessoas não querem, não conseguem mais se tocar. Presas em seus próprios mundos delimitados por diferenças sociais, de religião, ou de raça, elas andam pela cidade em seus carros fechados, nas grandes rodovias, que cada vez mais ocupam espaço das calçadas onde raros passantes se atrevem a andar. Mas essa ausência do toque tem seu preço: vez ou outra, ocorre uma “colisão” entre as pessoas, que por viverem tão separadas uma das outras, presas em seu próprios nichos, acabam sentindo o tocar do outro como um “choque”.

Os MP3 nas ruas do Rio são os carros fechados das ruas de Los Angeles. Andamos em direção aos nossos destinos, ouvindo apenas o que delimitamos para nós mesmos, sem prestar atenção nos outros, tão parte integrante da humanidade como nós mesmos. E assim não ouvimos queixas; pedidos de ajuda, de dinheiro, por socorro...apenas concentrados em nossa própria música.

Hoje pela manhã, tirei os fones de ouvido e ouvi, pela primeira vez em muito tempo, os sons das ruas. Porque agora entendo que aquela manifestação sonora não era apenas “barulho”, e sim a multiplicidade dos sons dos passos de outras pessoas, que como eu, continuam a andar pelas ruas do mundo.

João do Rio

Não sei se as crônicas de João do Rio são famosas fora do Rio de Janeiro. Na verdade, não sei se ele é realmente conhecido dentro do Rio; como sou jornalista, todos os meus amigos e conhecidos do trabalho sabem quem foi o jornalista Paulo Barreto, porque aprenderam na faculdade (a mesma que não precisamos mais cursar, se quisermos exercer a profissão de repórter, de acordo com recente decisão do Supremo Tribunal Federal - STF). Mas acho que, se perguntar para os meus pais, ou para minha irmã, que não são jornalistas, se eles conhecem João do Rio, creio que uma negativa seria mais provável. Por isso,creio ser exato dizer que a data de hoje, 23 de junho, 88 anos exatos após o dia de sua morte, teve pouca ou nenhuma repercussão nos meios de comunicação, hoje.

A primeira vez que li algo dele foi na faculdade. O texto era “A alma encantadora das Ruas”, e começava de forma lindamente poética, assim:

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.”

Interessada, li mais textos dele, e fiquei fascinada com a série de reportagens sobre os cultos africanos na virada do século, no Rio de Janeiro. Na época, fiquei abismada como textos como aqueles eram publicados em um jornal. Vamos ser francos: hoje temos jornalistas, cronistas, editorialistas e colunistas. Não há, hoje, um profissional de imprensa escrita que redija matérias líricas, mas ao mesmo com dose de pesquisa e reportagem. Uma matéria poética, por assim dizer.

Acho que tenho uma queda por textos literários na imprensa, e sinto falta disso nos nossos matutinos e vespertinos. São cada vez mais raros. Não estou falando de crônicas; os cronistas ainda existem nos jornais, admito. Mas aquele tipo de texto escrito por um repórter que apurou detalhadamente o tema, mas escolhe a via do lirismo para explicar para o leitor do que ele está falando.

Creio que os textos dos jornais, em prol da imparcialidade, estão cada vez mais secos e frios. E sinto saudade de um jornal mais caloroso.

Embora nunca tenha vivido na época do João do Rio, sinto saudades dos textos dele.

Ao descrever os cordões de carnaval, João do Rio tecia pérolas como dizer que o “o cordão é o carnaval, é o último elo das religiões pagãs, é bem o conservador do sagrado dia do deboche ritual; o cordão é a nossa alma ardente, luxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas mulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, bárbara, lamentável”

Na boa: tem descrição mais acurada do que essa para se descrever um bloco carnavalesco? Acho isso mais “New Journalism” do que qualquer escrito de Gay Talese...

Ouso dizer que, quando houve o propalado avanço do jornalismo imparcial (imparcial, claro, na teoria, porque vamos e convenhamos, jornalista imparcial é como Papai Noel: você quer acreditar que ele exista, mas no fundo sabe que aquilo é invenção), não se pensou muito também no que o leitor gostaria de ter em suas mãos, folheando os jornais diários. Aposto que, entre vários textos sérios e imparciais, o adepto da leitura dos periódicos gostaria de ter pelo menos uma opção de jornalismo fora dos moldes do “imparcial”.

Um pouco de poesia não faz mal para a vida de ninguém.

No Táxi

As conversas mais bizarras que tenho na minha vida são com motoristas de táxi no Rio de Janeiro. Já tive o desprazer de discutir com uma motorista sobre o final de “Em Algum Lugar do Passado”, visto que não chegamos a um acordo se o Christopher Reeve merecia ir “pro céu” encontrar a Jane Seymour depois de sua morte (parênteses: a motorista era espírita, e dizia que Reeve, por ter se matado, tinha que ir para o limbo dos suicidas ou coisa parecida. Eu não concordei com a avaliação de que ele se matou; acho que ele ficou desesperado por saber que não ia encontrar a Jane de novo e simplesmente entrou em choque. E também não acredito em limbos para suicidas); já debati calorosamente depois do show do Pearl Jam com um motorista que se atreveu a dizer para mim, logo após o show, que “Soundgarden era melhor” (!!!); e até mesmo passei dicas de culinária para um motorista velhinho muito simpático, ensinando-o a fazer farofa cearense (parênteses: depois que terminei de ditar a receita, ele suspirou e disse, “minha filha, nem cachorro come isso”, para logo em seguida completar, diante de meu olhar indignado: “nem cachorro come porque não sobra, minha filha, de tão bom!”).

Ontem foi um daqueles dias. Quando voltava para casa, o táxi onde eu estava passou pela comitiva do presidente Lula, que estava no Rio de Janeiro e se dirigia para Copacabana. O motorista, natural do Rio Grande do Norte, quando viu aquela carreata de carros, não pôde se furtar de falar:

“Êta! Quem diria! O cara saiu lá do ‘Norte’ para ser presidente do Brasil. É porreta esse homem!”

“...”

“Olha, vou te dizer uma coisa, menina; mesmo se esse cara rouba a gente, ele merecia ser presidente, por tudo que passou. Merece sabe?”

Não pude ficar calada.

“Moço, acho que, independente da história de um homem, se ele ‘rouba’ não merece ocupar nenhum cargo público”

“Mas senhorita, veja bem: ele passou por maus bocados...”

“Concordo, mas acho que nem o senhor, nem eu, temos alguma coisa a ver com a pobre história do Lula. Isso não justifica roubo.”

“Mas senhorita, olhe só. Ele só rouba porque sabe que ser pobre é uma m... Eu também roubaria no lugar dele!”

“Moço, o senhor não entendeu o que eu disse: o que quero dizer é que, no lugar dele, não é para se ‘roubar’ ninguém, entende? Ele trabalha para nós, para o País, e não o contrário.”

“Mas menina, olha a pressão que o homem está passando. Veja meu caso, tenho seis filhos, uma mulher e uma sogra vivendo na minha casa. Se para fazer a gestão da minha casa eu corto um dobrado, imagine ele, que manda no País inteiro? Não, moça. Ele é só um ser humano, pode roubar sim, se quiser.”

“Sim, ele pode. O que estou dizendo é que ele não deve.”

“Ah, a senhorita ainda é jovem, não sabe o que é administrar uma casa. Nem sempre o que se deve a gente faz...eu por exemplo alimento minha família com o táxi a noite, e trabalho como motorista de madame de dia. E eu adoro salame, sabe?

“Sei...(?!)”

“Mas todo mundo gosta de salame lá em casa. E salame é caro. Então, o que faço? Eu compro salame escondido e como o salame no carro. Está certo, sei que é pecado esconder comida, mas poxa! Eu sou aquele que administra a casa não é? Não tenho direito a um salame inteiro?”

“A-ham. Moço, pode parar por aqui, por favor? Esquerda.”

“Está certo, está certo: a moça não gosta de quem esconde comida, já deu para perceber. Mas te digo uma coisa, a senhorita é jovem, vai lembrar disso depois: ninguém está a salvo de ser ladrão. Todo mundo já roubou alguma coisa na vida, seja material ou não...”

“É verdade, é verdade. Boa noite para o senhor, bom trabalho!”

Saí do taxi pensando como se pode começar uma conversa sobre ser presidente e terminar falando de salame. Realmente bizarro.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Who?

O que acontece quando você se apaixona por uma banda que não mais existe?

Há uns dois meses, vi um documentário chamado “Amazing Journey: The Story of The Who”. Sempre tive curiosidade em conhecer mais sobre o The Who, visto que é uma das bandas prediletas de Eddie Vedder, vocalista da minha banda de coração, Pearl Jam. Porém só conhecia os “hits” da banda como “My Generation” ou “Baba O’Riley” e poucas, pouquíssimas vezes ouvi um álbum deles do início ao fim. Mas essa ausência de conhecimento profundo sobre a discografia da banda nunca foi tão fortemente lamentada quando vi, no documentário, as entrevistas antigas, as imagens de shows realizados nas décadas de 60 e 70 que me deixaram, literalmente, babando.

Quase imediatamente após ver o documentário, baixei três álbuns: Tommy, Quadrophenia e Who’s Next. Não consigo ouvir outra coisa nos últimos 60 dias. Ao ouvir Tommy, recordei que uma das minhas lembranças televisivas mais antigas refere-se ao filme sobre a ópera rock da banda, onde o vocalista do The Who, Roger Daltrey, faz o personagem principal. Eu devia ter uns 11, 12 anos e fiquei impressionadíssima com a história do garoto que era cego, surdo e mudo e adorava jogar em máquinas de pinball. A trama era tão bizarra; o filme era tão absurdamente colorido que eu fiquei até de madrugada (eu tinha essa mania, saía do quarto quando todos estavam dormindo, ligava a televisão e ficava vendo filmes antigos que passavam nos canais da televisão aberta...) vendo (e torcendo para minha mãe não acordar, e me mandar dormir). Em Quadrophenia, fiquei absolutamente espantada: como diabos um álbum produzido em 1973 pode parecer tão incrivelmente atual? A coloração dos sons, vívida, explodia a cada música dentro de mim, de uma forma completa, maravilhosa.

Mas foi em Who’s Next que fiquei mais obcecada. Primeiro, porque o álbum já começa com Baba O’Riley. Caramba, um disco que começa com essa música já deixa todos seus contemporâneos no chinelo. “I don't need to fight/To prove I'm right/I don’t need to be forgiven” é uma frase que serve para praticamente qualquer um de nós, em algum momento de nossas vidas. Fiquei extasiada com o humor de “My Wife” onde um cara pede ajuda para escapar da esposa que vai acabar com o couro dele por não aparecer em casa “since Friday”. E “The Song is Over”...! Quão triste e final essa música é.

Agora, vou quase diariamente no “you tube” para ver imagens deles, tocando ao vivo. E quando começo a apreciar os acordes e performances, tão incríveis em vídeo, tenho vontade de voltar no tempo e ser apenas uma adolescente de 15 anos em 1973 em Londres, ou nos Estados Unidos, apenas para ver aquilo, de perto, na grade, em carne e osso.

Como é triste que somente uma, duas gerações no máximo possam ver uma banda em seu auge! Como é injusto não podermos ter o poder de congelar shows mágicos como aqueles em que eles faziam, em "garrafas sensoriais", onde pudéssemos nos meter dentro toda vez que quiséssemos sentir aquela experiência novamente?

Tenho o consolo de, pelo menos uma vez na minha vida, ter visto o Pearl Jam ao vivo. Mas ver um show do The Who, no pico de sua beleza musical, é um desejo que só poderei realizar nos meus sonhos...

Acho que os shows deles devem ter sido mágicos. Perfeitos.

Felizes aqueles que sabem reconhecer quando momentos mágicos musicais acontecem. E mais afortunados ainda aqueles que guardam isso na mente, como um tesouro.

Nada é mais raro em nossas lembranças do que um momento perfeito.

Somos todos jornalistas?

Leio nos jornais que o Supremo Tribunal Federal (STF) derrubou a obrigatoriedade de diploma para exercício da profissão de jornalista. Após muitas piadas e debates a respeito (uma das mais inventivas que escutei foi originada da criatividade de meu pai, que me perguntou como eu me sentia agora que eu estava oficialmente sem profissão legalizada) fiquei pensando nas utilidades que poderia ter, agora, o pedaço de papel chamado diploma que se encontra lá em casa.

Na prática, podemos dizer que um pedaço de papel só vale alguma coisa desde que muitos ao mesmo tempo acreditem que ele vale algo. É o mesmo princípio do dinheiro; trocando em miúdos, aquele pedaço de celulose trabalhado e pouco higiênico (parênteses: já reparou como nos preocupamos em lavar as mãos quando saímos do banheiro, mas nem tchum quando recebemos, da mão repleta de unhas sujas e pretas de um trocador de ônibus, uma nota xexelenta de dois reais?), que guardamos em nossas carteiras não vale absolutamente nada por si só. Somos nós que damos valor a ele; é a visão da sociedade que confere àquele pólo de doenças e alergias algum tipo de significado.

O mesmo vale para o diploma. Aquele pedaço de papel tem valor apenas porque muitas pessoas ainda acreditam que ele carregue, em si, a comprovação de que um indivíduo foi razoavelmente preparado para exercer alguma profissão. É o nosso “recibo” para entrada em seletos grupos no ambiente social, nichos teoricamente mais nobres, onde o trabalho é mais valorizado por ser mais especializado e, por conseqüência, mais vantajoso financeiramente (outro parênteses: é claro que isso é só na teoria; tenho certeza que o seu Miguel que vende churrasquinho na Mallet, zona oeste do Rio, ganha muito mais do que eu...mas também, não agüentaria ficar matando gatos como ele fica, com objetivo de conseguir matéria-prima para seu trabalho).

Sem a obrigatoriedade, imagino que os jornais se sentirão mais livres para colocar um bando de advogados, astrofísicos e tocadores de harpa como colaboradores para bater matérias. Mas esse não é o ponto que me incomoda mais, e sim uma conclusão teórica a partir da decisão do STF: a idéia de que qualquer um pode ser jornalista; qualquer um pode escrever para um jornal, agência de notícias, rádio.

Orgulho ferido à parte, pergunto: será que a reprodução da notícia como a realizamos hoje é realmente assim tão fácil ao ponto de qualquer um poder executá-la? É claro que existem os blogs, e qualquer um pode escrever sobre o que quiser na Internet (vide esse veículo que é lido por vós, neste momento). Mas a estrutura das matérias a apuração, é igual a se escrever em um blog?

Acho que todos nascemos fofoqueiros. Mas nem todos são jornalistas natos.

Creio que muitos chefes de redação que estão na ativa hoje vão pensar duas vezes antes de contratar alguém que não tenha nenhuma experiência em veículos de mídia, nem tampouco diploma de jornalismo. Acho que, independente da decisão do STF, o diploma vai continuar válido sim, enquanto muitas pessoas ainda acreditarem no significado que ele carrega: a de que seu portador passou pelo menos quatro anos tentando se preparar o melhor possível para exercer a profissão de sua escolha.

Ou talvez a melhor definição para essa situação tenha sido de uma amiga, também jornalista. Durante nossa gostosa hora de almoço ontem, ao ler as notícias sobre o ocorrido, perguntei, intrigada:

“Isso significa que a gente é ilegal, agora?”

“Não”, ela respondeu. “Mas a gente é imoral. E engorda!”

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Barzinho

Estava zapeando canais de noite quando parei para ver um episódio do programa “Cilada” do Multishow, sobre barzinhos, com o humorista Bruno Mazzeo. Normalmente não acho graça nesse programa, mas esse episódio me fez rir, particularmente, porque trata de um assunto que conheço muito bem: as dicas de sobrevivência em barzinhos do Rio de Janeiro.

Uma das coisas que mais me fez rir no programa foi uma cena que provavelmente todo mundo já passou, se tentou beber em grupo grande em um bar no Rio: a de pagar muito, mais muito mais do que você realmente consumiu se ficar até o fechamento da conta - visto que quase ninguém, em uma grande mesa de bar, deixa o dinheiro do que consumiu mais os 10% do serviço correspondente à casa.

Quando eu morava em São Paulo, adorava ficar até o fechamento do bar com outros “heróis da resistência”. Na época meu fígado era jovem e inocente, e eu fazia o que queria dele. Sempre era o mesmo grupo dos que encerravam a noite; e quando a conta chegava, eu já fazia os cálculos mentais de quanto teria que dar a mais para fechar a conta, sem ter que recorrer a lavar pratos. Essa distorção na conta já era tão esperada que, em uma ocasião, quando de novo fui uma das últimas a encerrar a noite junto com mais quatro amigos, quase caí da cadeira junto com meus parceiros etílicos ao descobrir que, pela primeira vez na história desse País, as pessoas que deixaram dinheiro conosco e saíram mais cedo erraram as contas “para cima” - de tal forma que nós, os últimos guerreiros da mesa, não precisamos pagar nada (???) e ainda sobrou dinheiro para uma última rodada!

Foi um momento lindo, e lembrado por mim com grande carinho, pois foi a única vez em que isso ocorreu, em todos os meus 31 anos de existência.

No Rio de Janeiro, problemas com a conta também ocorrem. Mas esse, para mim, não é o pior de se beber em barzinhos. Tenho dois tópicos os quais chamo de “kriptonita vermelha” para mim, que eu abandono qualquer verniz de civilização e fico de mau humor a noite toda: mesa em frente ao cara que toca a música ao vivo do bar (que, no programa Cilada, era um ator que só cantava músicas de Jorge Vercilo e a única música famosa do Claudio Zoli, “na madrugada a vitrola rolando um blues...”); e garçom folgado. O primeiro tópico me irrita profundamente porque o que mais gosto nessas ocasiões - além de beber, é claro - , é ficar conversando sobre bobeiras e cultura inútil com os amigos. E com o som às alturas, você precisa berrar para ser ouvido enquanto tenta entender o que o outro fala em meio a pérolas como “nada vai me fazer desistir do amor”.

Uma das últimas vezes em que fui a um bar, no centro do Rio, o Devassa na rua do Rosário, aconteceu exatamente isso: quando cheguei com um amigo para segurar uma mesa para outros que ainda chegariam, fui informada pelo gerente que só havia UMA única mesa vazia...que era em frente ao cantor da música ao vivo (parênteses: também acho super injusto pagar couvert artístico nos bares. Poxa, eu só vou a shows quando gosto da música do cara que está cantando. Porque diabos tenho que pagar alguém para cantar músicas que absolutamente eu NÃO gosto? Deveria ser inventado o couvert do silêncio, onde se pagaria para o cantor não cantar. Eu pagaria sem pensar duas vezes!).

Mas o que mais irrita, mesmo é o garçom folgado. Isso aqui no Rio de Janeiro é mais comum do que vendedor de chocolate nas esquinas da avenida Rio Branco. O garçom folgado é aquele que, só porque você já veio ao local escolhido umas duas vezes, acha que te conhece e quer escolher as coisas para você, tanto em comidas quanto em bebidas.

O seguinte diálogo surreal aconteceu comigo, noite dessas no Rio:

“A senhorita por aqui de novo! Que alegria! Quer começar a esquentar a noite com uma dose de cachaça?”

“Hoje não, obrigada....”

“Mas a senhorita SEMPRE pede uma dose de cachaça quando vem aqui...!”

(parênteses: eu estava com um grupo que englobava um “certo alguém” que eu tentava impressionar. Mas depois de uma apresentação dessas, as coisas não estavam começando muito bem...)

“Eu-não-quero-dose-de-ca-cha-ça” disse, entre dentes, enquanto tentava ignorar o garçom, que não se deu por vencido:

“Mas pelo menos o filezinho aperitivo com queijo e cebola ‘vai’ hoje né? Ou entrou nessas coisas de dieta? Olha que a senhora não precisa disso...”

Lancei o olhar mais gelado possível para o garçom e falei, o mais seca possível:

“Uma água gelada sem gás por favor.”

“Tudo bem, quer começar devagar, eu entendo. Quando resolver cair na caipirinha ou no filé é só chamar viu? E não se preocupe com as calorias: homem que é homem adora uma gordurinha na picanha (!!!)”

Dizendo essa frase final fatídica, o garçom se voltou para atender outros pedidos, me deixando vermelha de vergonha e totalmente constrangida na frente do cara que eu tentava impressionar.

Nunca mais voltei no bar, e não volto por um bom tempo. O que é uma pena: garçons folgados à parte, a cachaça e o filé do lugar são realmente bons...

terça-feira, 9 de junho de 2009

Momentos constrangedores

Não suporto momentos constrangedores. Para mim, são tão ruins quanto dores físicas excruciantes percorrendo meu corpo. Sempre quando estou prestes a passar por um, ou lembro de algum momento em que passei, a memória é tão nítida que o mal-estar da lembrança volta de uma forma tão vívida, que parece estar ocorrendo de novo.

Foi assim quando me fantasiei de espanhola para uma suposta festa a fantasia, que simplesmente não contou com ninguém mais fantasiado, além de mim. Era em um lugar chamado Mosteiro, em São Paulo. A festa era o aniversário do namorado de uma amiga. Não conhecia o namorado direito, mas tinha (e ainda tenho) muito carinho pela minha amiga. Então, peguei uma fantasia de espanhola que nunca tinha usado (havia comprado para outra festa a fantasia que acabei não indo. Deveria ter prestado atenção ao histórico do vestuário. Maus fluidos, maus fluidos...) e fui, com a cara e a coragem, acreditando que todos deveriam estar mais ou menos na mesma linha que eu.

O primeiro choque foi quando um amigo veio me pegar para a festa, e ele não estava fantasiado. Quando perguntei o motivo, disse simplesmente que não estava a fim de se fantasiar. Okay, pensei, direito dele, deixa ele. Mas depois, ao pegar uma outra amiga e perceber que ela também não estava fantasiada, o choque deu lugar a uma tensão crescente, e a um péssimo pressentimento. Essa amiga, muito solícita em minhas preocupações, se arrumou novamente, mesmo estando praticamente pronta quando a encontramos, e tentou colocar uma roupa que parecesse uma fantasia (ela não tinha comprado nada para a ocasião), mas infelizmente estava normalíssima, em comparação com a minha produção (hello? Eu era uma espanhola, pelo amor de Deus...)

O desastre foi perceptível quando entrei no lugar. Acho que era uma das noites mais frias de São Paulo; uns cinco graus, pelos relógios nas calçadas, que dão as temperaturas. E todos estavam vestidos de acordo; botas, casacos, blusas de lã, cachecol...e ninguém, absolutamente ninguém fantasiado.

Quando chegamos à mesa da minha amiga e do namorado dela, descobrimos que somente nós tínhamos chegado para festa. Aparentemente, o frio espantou as cerca de 30 pessoas que estavam confirmadas para o evento, segundo minha amiga, que inicialmente estava fantasiada de enfermeira, mas depois apenas removeu o chapéu e manteve-se com um vestido branco simples, não muito adequado ao frio que fazia, mas ainda assim, aparentando ser uma pessoa normal, e não uma louca espanhola com castanholas nas mãos. Quanto ao seu namorado, ele se vestiu de monge. Chegando ao local e percebendo o ambiente (o mosteiro reservou apenas uma parte do lugar para a festa, não o local todo, que estava cheio de pessoas vestidas normalmente, querendo tomar algo quente em um sábado à noite), ele simplesmente tirou o hábito, já que estava de calça jeans e pulôver por baixo do hábito.

Eu não tinha como tirar a fantasia de espanhola. E reparem, não era uma fantasia qualquer: era “A” fantasia. Toda vermelha e preta, cheia de babados, fenda na perna, com direito a meia arrastão preta, mangas bufantes e rosa vermelha no cabelo. Um amigo me emprestou um casaco longo para cobrir parte de cima da fantasia. Mas não adiantava: sempre que eu ia ao banheiro era um espetáculo, porque o rabo do vestido de espanhola,com seus babados vermelhos de cetim, atraía todos os olhares.

Acho que foi um dos episódios mais “quero- que- alguém-abra-um -buraco –para- eu- me- esconder” que já passei. Tenho arrepios hoje só de lembrar.

Mas minha ojeriza a momentos constrangedores não se aplica somente a cenas envolvendo minha pessoa. Tenho tiques de nervoso quando percebo que alguém está passando por algum momento constrangedor, ou está em vias de passar. Por exemplo, na rua, quando vejo que alguém saiu do banheiro com papel higiênico grudado no sapato sem perceber, eu persigo a pessoa até tirar o papel grudado, sem a pessoa perceber, para que ela seja poupada desse constrangimento, quando percebesse o papel nojento.

Nem em filmes eu agüento ver. Até hoje, não vi a cena de “Carrie, a Estranha” em que os colegas de escola derrubam um balde de sangue de porco em cima dela, quando estava sendo coroada rainha do baile.

Lembrei disso porque, no final de semana, a minha sobrinha do meio, Laura, de quatro anos, fez uma coisa que me fez perceber que talvez isso seja genético. Estávamos assistindo a algum filmes desses bobos de criança/adolescente no Disney Channel quando era perceptível que a personagem principal ia passar por um péssimo momento: os vilões do filme estavam prestes a derrabar ponche em cima do lindo vestido novo dela! E a Laura, percebendo isso, fechou os olhos, colocou as mãos no rostinho, e falou “me avisa quando acabar”.

Admito. Fiquei orgulhosa. Porque minha sobrinha tem chances de perpetuar minha ojeriza contra momentos constrangedores e, com o passar do tempo, poderá ajudar as pessoas nas ruas que tem papel higiênico nos sapatos, ou simplesmente andam com o zíper das calças aberto pelas ruas. É uma conquista que me deixa feliz.

De como encontrei Joaquin Phoenix em São Paulo

Foi em 2000, acho. Morava em São Paulo nessa época. Estava indo para o trabalho e entrei no mesmo ônibus que sempre pegava para chegar ao prédio, o “terminal santo amaro”: um dos ônibus mais xexelentos que já tive o desprazer de conhecer. Era de manhã, umas nove e meia. Quando estava na roleta, vejo um homem de pé, em frente à porta de saída do ônibus. E constatei, em choque, que meus olhinhos estavam observando Joaquin Phoenix. Sim, isso mesmo: o irmão do River Phoenix, que foi o imperador vilão do filme “Gladiador” e o Johnny Cash do filme “Johnny e June”. (parênteses: foi ele também quem chamou o 911 quando o irmão dele, River, entrou em colapso na calçada da boate Viper Room, após uma overdose que o mataria. Lembro ainda hoje da gravação do telefonema que ele deu pedindo por uma ambulância passando na televisão, quando noticiaram a morte do River no Jornal Nacional. Foi tudo tão triste...ninguém deveria assistir a um irmão morrendo em uma calçada suja de Los Angeles...)

Aí, bom. Após gritar mentalmente que o cara estava lá, que “oh meu deus era ele mesmo”, fui raciocinar com mais calma. Querida louca, chamei a mim mesma com carinho, não pode ser ele. Primeiro que ninguém está reconhecendo o cara aqui no ônibus. Segundo, é que, bem, não queria falar dessa forma com você, querida louquinha, na hipótese improvável desse cara estar em São Paulo, é bem improvável que o Joaquin Phoenix pegasse um “terminal santo amaro” para onde quer que seja.

Mas minha mente engenhosa tinha desculpas para tudo. Argumentei comigo mesma: ora, ora. Ninguém o reconhece porque ele não é tão conhecido assim no Brasil. O único filme que ele fez que teve alguma repercussão aqui foi Gladiador (até aquele momento); as pessoas não o reconhecem porque ele não é um super-star-que-todo-mundo-reconhece-como-o-Tom Cruise. Ah, e outra coisa, debati comigo mesma, ele está de óculos escuros! Isso dificulta o reconhecimento facial. E o fato de ele estar no ônibus, bom, ele vem de uma família de hippies, morou em comunidades naturebas e em trailers quase toda a infância. Faz sentido ele querer sentir de novo aquela sensação de conhecer a cidade como um andarilho urbano moderno, argumentei, comigo mesma, enfática.

Até este ponto do debate mental, nem toda essa linda argumentação me convenceu inteiramente. Então, as duas partes dentro da minha cabeça, a louca e a razoável, fizeram um acordo. Ambas sabiam que Joaquin tinha uma cicatriz parecida com a de lábio leporino nos lábios. Então, pensei: vou atravessar a roleta, ir para o fundo do ônibus e dar uma olhada bem de perto na cara dele. Se tiver a cicatriz, é ele com certeza.

E dito e feito. Como diria Machado de Assis: foi batata! A cicatriz estava lá! Fiquei eufórica com a minha descoberta e estava prestes a interpelá-lo para comprovar toda minha suspeita quando ele desceu do ônibus.

Cheguei ao trabalho animadíssima, contando para todos quem eu encontrara. Infelizmente ninguém acreditou em mim. Recomendações sobre o não uso de drogas e álcool antes do horário de trabalho me foram dadas, mas eu insisti em minha argumentação de tal maneira que as pessoas, aos poucos, pararam de tentar me convencer do contrário.

Não importa se não acreditaram. Era o Joaquin Phoenix. Foi a primeira vez que veria um astro de Hollywood assim tão de perto (a segunda vez seria a Drew Barrymore em um show dos Strokes, na época em que ela namorava o baterista, Fabrizio Moretti. Mas como não reconheci a tampinha descabelada que passou por mim como a serva romântica de “Para Sempre Cinderela” e a Josie de “Nunca Fui Beijada”, isso não conta muito). E quando se vê estrelas assim tão próximas de você, em um ônibus indo para o trabalho, a vida parece tão mais interessante...!

Nunca se sabe quem vamos encontrar quando saímos de casa. É o que me faz sair da cama, todos os dias, em direção à vida.