sexta-feira, 10 de abril de 2009

Memória de Semana Santa

Ainda hoje, vejo que existe um hábito que resiste a todas as semanas santas, desde minha infância até hoje. Não, não é o ato de não comer carne antes do domingo; ou de ir à missa no domingo de Páscoa. É a insistência de todas as emissoras de televisão descarregarem na semana santa todos os filmes possíveis e imagináveis sobre a vida de Jesus.

Desde minha tenra idade, até hoje, não tem erro: pode zapear os canais durante a semana santa, que você encontrará passando em algum canal “Rei dos Reis”; “O manto sagrado”; “Ben-Hur” entre outros. Neste momento em que escrevo essas linhas, está passando um filme péssimo sobre Jesus na sessão da tarde (parênteses: estou de plantão na redação, sem nada para fazer).

Quando era criança, acreditava que Jesus aparecia na televisão toda a semana. A culpa era de uma propaganda da antiga TVS, ou atual SBT, em que uma figura aparentando ser Jesus (um ator, obviamente)se destacava em um fundo preto com um luz no canto superior da tela, com uma voz completamente assustadora em off, dizendo “Paz, amor, fé, esperança, luz e união não são apenas palavras. Você tem certeza de que fez tudo o que podia pelo seu semelhante? Pense bem, pois um dia vamos nos encontrar. E eu gostaria muito de chamá-lo de meu filho”. Eu realmente achava que era Jesus ali na televisão, e toda a vez que ele aparecia eu ficava chocada de medo (tipos, poxa, Jesus esta lá na tevê, e está me olhando!).

Até hoje o Jesus mais perfeito, mais com cara de Jesus, ou de como os católicos acham que ele deveria parecer, é o ator de “Rei dos Reis”. Dei um Google no filme e vejo que o ator que personificou o crucificado se chamava Jeffrey Hunter, e o filme é de 1961. É o único filme sobre a vida de Jesus que me emociona. Os outros são..sei lá. Não gostei da “Última tentação de Cristo” apesar de ter adorado a premissa da história. Amo Martin Scorsese, e sou fissurada no William Dafoe. Mas é que o Dafoe não parecia com o meu Jesus Cristo, sabe? Acho que fiquei muito conectada com a figura de Hunter na memória para considerar outra pessoa para o papel.

Creio que os parâmetros que delineamos em nossas mentes para figuras emblemáticas da nossa história, e de nosso passado, acabam se tornando mais vívidos do que a própria realidade. Como a percepção de que as pessoas católicas durante a semana santa se tornam, de súbito, mais religiosas, e por isso com maior interesse em assistir filmes sobre a vida de Jesus.

Não assisti a nenhum filme sobre Jesus essa semana santa, e não pretendo assistir. Se estiver passando "Reis dos Reis" em algum canal enquanto estiver "zapeando" até posso mudar de idéia, mas por uma questão de nostalgia, e não de religião. E acho que realmente todas as semanas deveriam ser santas, para todas as religiões; com as pessoas ligando todos os dias para as questões do espírito, e não apenas em um período de sete dias por ano.

P.S. - Minha mãe acaba de ligar e, como vou dormir na casa dos meus pais hoje, avisa que tem macarrão com atum para jantar. “Porque, você sabe, não dá para comer carne, é semana santa...”

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