terça-feira, 23 de junho de 2009

No Táxi

As conversas mais bizarras que tenho na minha vida são com motoristas de táxi no Rio de Janeiro. Já tive o desprazer de discutir com uma motorista sobre o final de “Em Algum Lugar do Passado”, visto que não chegamos a um acordo se o Christopher Reeve merecia ir “pro céu” encontrar a Jane Seymour depois de sua morte (parênteses: a motorista era espírita, e dizia que Reeve, por ter se matado, tinha que ir para o limbo dos suicidas ou coisa parecida. Eu não concordei com a avaliação de que ele se matou; acho que ele ficou desesperado por saber que não ia encontrar a Jane de novo e simplesmente entrou em choque. E também não acredito em limbos para suicidas); já debati calorosamente depois do show do Pearl Jam com um motorista que se atreveu a dizer para mim, logo após o show, que “Soundgarden era melhor” (!!!); e até mesmo passei dicas de culinária para um motorista velhinho muito simpático, ensinando-o a fazer farofa cearense (parênteses: depois que terminei de ditar a receita, ele suspirou e disse, “minha filha, nem cachorro come isso”, para logo em seguida completar, diante de meu olhar indignado: “nem cachorro come porque não sobra, minha filha, de tão bom!”).

Ontem foi um daqueles dias. Quando voltava para casa, o táxi onde eu estava passou pela comitiva do presidente Lula, que estava no Rio de Janeiro e se dirigia para Copacabana. O motorista, natural do Rio Grande do Norte, quando viu aquela carreata de carros, não pôde se furtar de falar:

“Êta! Quem diria! O cara saiu lá do ‘Norte’ para ser presidente do Brasil. É porreta esse homem!”

“...”

“Olha, vou te dizer uma coisa, menina; mesmo se esse cara rouba a gente, ele merecia ser presidente, por tudo que passou. Merece sabe?”

Não pude ficar calada.

“Moço, acho que, independente da história de um homem, se ele ‘rouba’ não merece ocupar nenhum cargo público”

“Mas senhorita, veja bem: ele passou por maus bocados...”

“Concordo, mas acho que nem o senhor, nem eu, temos alguma coisa a ver com a pobre história do Lula. Isso não justifica roubo.”

“Mas senhorita, olhe só. Ele só rouba porque sabe que ser pobre é uma m... Eu também roubaria no lugar dele!”

“Moço, o senhor não entendeu o que eu disse: o que quero dizer é que, no lugar dele, não é para se ‘roubar’ ninguém, entende? Ele trabalha para nós, para o País, e não o contrário.”

“Mas menina, olha a pressão que o homem está passando. Veja meu caso, tenho seis filhos, uma mulher e uma sogra vivendo na minha casa. Se para fazer a gestão da minha casa eu corto um dobrado, imagine ele, que manda no País inteiro? Não, moça. Ele é só um ser humano, pode roubar sim, se quiser.”

“Sim, ele pode. O que estou dizendo é que ele não deve.”

“Ah, a senhorita ainda é jovem, não sabe o que é administrar uma casa. Nem sempre o que se deve a gente faz...eu por exemplo alimento minha família com o táxi a noite, e trabalho como motorista de madame de dia. E eu adoro salame, sabe?

“Sei...(?!)”

“Mas todo mundo gosta de salame lá em casa. E salame é caro. Então, o que faço? Eu compro salame escondido e como o salame no carro. Está certo, sei que é pecado esconder comida, mas poxa! Eu sou aquele que administra a casa não é? Não tenho direito a um salame inteiro?”

“A-ham. Moço, pode parar por aqui, por favor? Esquerda.”

“Está certo, está certo: a moça não gosta de quem esconde comida, já deu para perceber. Mas te digo uma coisa, a senhorita é jovem, vai lembrar disso depois: ninguém está a salvo de ser ladrão. Todo mundo já roubou alguma coisa na vida, seja material ou não...”

“É verdade, é verdade. Boa noite para o senhor, bom trabalho!”

Saí do taxi pensando como se pode começar uma conversa sobre ser presidente e terminar falando de salame. Realmente bizarro.

Um comentário:

  1. E vc saiu do táxi sem saber como ele fazia para esconder a prova do crime? Sim, pq bafo de salame não tem chiclete que disfarce!

    ResponderExcluir