O que acontece quando você se apaixona por uma banda que não mais existe?
Há uns dois meses, vi um documentário chamado “Amazing Journey: The Story of The Who”. Sempre tive curiosidade em conhecer mais sobre o The Who, visto que é uma das bandas prediletas de Eddie Vedder, vocalista da minha banda de coração, Pearl Jam. Porém só conhecia os “hits” da banda como “My Generation” ou “Baba O’Riley” e poucas, pouquíssimas vezes ouvi um álbum deles do início ao fim. Mas essa ausência de conhecimento profundo sobre a discografia da banda nunca foi tão fortemente lamentada quando vi, no documentário, as entrevistas antigas, as imagens de shows realizados nas décadas de 60 e 70 que me deixaram, literalmente, babando.
Quase imediatamente após ver o documentário, baixei três álbuns: Tommy, Quadrophenia e Who’s Next. Não consigo ouvir outra coisa nos últimos 60 dias. Ao ouvir Tommy, recordei que uma das minhas lembranças televisivas mais antigas refere-se ao filme sobre a ópera rock da banda, onde o vocalista do The Who, Roger Daltrey, faz o personagem principal. Eu devia ter uns 11, 12 anos e fiquei impressionadíssima com a história do garoto que era cego, surdo e mudo e adorava jogar em máquinas de pinball. A trama era tão bizarra; o filme era tão absurdamente colorido que eu fiquei até de madrugada (eu tinha essa mania, saía do quarto quando todos estavam dormindo, ligava a televisão e ficava vendo filmes antigos que passavam nos canais da televisão aberta...) vendo (e torcendo para minha mãe não acordar, e me mandar dormir). Em Quadrophenia, fiquei absolutamente espantada: como diabos um álbum produzido em 1973 pode parecer tão incrivelmente atual? A coloração dos sons, vívida, explodia a cada música dentro de mim, de uma forma completa, maravilhosa.
Mas foi em Who’s Next que fiquei mais obcecada. Primeiro, porque o álbum já começa com Baba O’Riley. Caramba, um disco que começa com essa música já deixa todos seus contemporâneos no chinelo. “I don't need to fight/To prove I'm right/I don’t need to be forgiven” é uma frase que serve para praticamente qualquer um de nós, em algum momento de nossas vidas. Fiquei extasiada com o humor de “My Wife” onde um cara pede ajuda para escapar da esposa que vai acabar com o couro dele por não aparecer em casa “since Friday”. E “The Song is Over”...! Quão triste e final essa música é.
Agora, vou quase diariamente no “you tube” para ver imagens deles, tocando ao vivo. E quando começo a apreciar os acordes e performances, tão incríveis em vídeo, tenho vontade de voltar no tempo e ser apenas uma adolescente de 15 anos em 1973 em Londres, ou nos Estados Unidos, apenas para ver aquilo, de perto, na grade, em carne e osso.
Como é triste que somente uma, duas gerações no máximo possam ver uma banda em seu auge! Como é injusto não podermos ter o poder de congelar shows mágicos como aqueles em que eles faziam, em "garrafas sensoriais", onde pudéssemos nos meter dentro toda vez que quiséssemos sentir aquela experiência novamente?
Tenho o consolo de, pelo menos uma vez na minha vida, ter visto o Pearl Jam ao vivo. Mas ver um show do The Who, no pico de sua beleza musical, é um desejo que só poderei realizar nos meus sonhos...
Acho que os shows deles devem ter sido mágicos. Perfeitos.
Felizes aqueles que sabem reconhecer quando momentos mágicos musicais acontecem. E mais afortunados ainda aqueles que guardam isso na mente, como um tesouro.
Nada é mais raro em nossas lembranças do que um momento perfeito.
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