segunda-feira, 15 de junho de 2009

Barzinho

Estava zapeando canais de noite quando parei para ver um episódio do programa “Cilada” do Multishow, sobre barzinhos, com o humorista Bruno Mazzeo. Normalmente não acho graça nesse programa, mas esse episódio me fez rir, particularmente, porque trata de um assunto que conheço muito bem: as dicas de sobrevivência em barzinhos do Rio de Janeiro.

Uma das coisas que mais me fez rir no programa foi uma cena que provavelmente todo mundo já passou, se tentou beber em grupo grande em um bar no Rio: a de pagar muito, mais muito mais do que você realmente consumiu se ficar até o fechamento da conta - visto que quase ninguém, em uma grande mesa de bar, deixa o dinheiro do que consumiu mais os 10% do serviço correspondente à casa.

Quando eu morava em São Paulo, adorava ficar até o fechamento do bar com outros “heróis da resistência”. Na época meu fígado era jovem e inocente, e eu fazia o que queria dele. Sempre era o mesmo grupo dos que encerravam a noite; e quando a conta chegava, eu já fazia os cálculos mentais de quanto teria que dar a mais para fechar a conta, sem ter que recorrer a lavar pratos. Essa distorção na conta já era tão esperada que, em uma ocasião, quando de novo fui uma das últimas a encerrar a noite junto com mais quatro amigos, quase caí da cadeira junto com meus parceiros etílicos ao descobrir que, pela primeira vez na história desse País, as pessoas que deixaram dinheiro conosco e saíram mais cedo erraram as contas “para cima” - de tal forma que nós, os últimos guerreiros da mesa, não precisamos pagar nada (???) e ainda sobrou dinheiro para uma última rodada!

Foi um momento lindo, e lembrado por mim com grande carinho, pois foi a única vez em que isso ocorreu, em todos os meus 31 anos de existência.

No Rio de Janeiro, problemas com a conta também ocorrem. Mas esse, para mim, não é o pior de se beber em barzinhos. Tenho dois tópicos os quais chamo de “kriptonita vermelha” para mim, que eu abandono qualquer verniz de civilização e fico de mau humor a noite toda: mesa em frente ao cara que toca a música ao vivo do bar (que, no programa Cilada, era um ator que só cantava músicas de Jorge Vercilo e a única música famosa do Claudio Zoli, “na madrugada a vitrola rolando um blues...”); e garçom folgado. O primeiro tópico me irrita profundamente porque o que mais gosto nessas ocasiões - além de beber, é claro - , é ficar conversando sobre bobeiras e cultura inútil com os amigos. E com o som às alturas, você precisa berrar para ser ouvido enquanto tenta entender o que o outro fala em meio a pérolas como “nada vai me fazer desistir do amor”.

Uma das últimas vezes em que fui a um bar, no centro do Rio, o Devassa na rua do Rosário, aconteceu exatamente isso: quando cheguei com um amigo para segurar uma mesa para outros que ainda chegariam, fui informada pelo gerente que só havia UMA única mesa vazia...que era em frente ao cantor da música ao vivo (parênteses: também acho super injusto pagar couvert artístico nos bares. Poxa, eu só vou a shows quando gosto da música do cara que está cantando. Porque diabos tenho que pagar alguém para cantar músicas que absolutamente eu NÃO gosto? Deveria ser inventado o couvert do silêncio, onde se pagaria para o cantor não cantar. Eu pagaria sem pensar duas vezes!).

Mas o que mais irrita, mesmo é o garçom folgado. Isso aqui no Rio de Janeiro é mais comum do que vendedor de chocolate nas esquinas da avenida Rio Branco. O garçom folgado é aquele que, só porque você já veio ao local escolhido umas duas vezes, acha que te conhece e quer escolher as coisas para você, tanto em comidas quanto em bebidas.

O seguinte diálogo surreal aconteceu comigo, noite dessas no Rio:

“A senhorita por aqui de novo! Que alegria! Quer começar a esquentar a noite com uma dose de cachaça?”

“Hoje não, obrigada....”

“Mas a senhorita SEMPRE pede uma dose de cachaça quando vem aqui...!”

(parênteses: eu estava com um grupo que englobava um “certo alguém” que eu tentava impressionar. Mas depois de uma apresentação dessas, as coisas não estavam começando muito bem...)

“Eu-não-quero-dose-de-ca-cha-ça” disse, entre dentes, enquanto tentava ignorar o garçom, que não se deu por vencido:

“Mas pelo menos o filezinho aperitivo com queijo e cebola ‘vai’ hoje né? Ou entrou nessas coisas de dieta? Olha que a senhora não precisa disso...”

Lancei o olhar mais gelado possível para o garçom e falei, o mais seca possível:

“Uma água gelada sem gás por favor.”

“Tudo bem, quer começar devagar, eu entendo. Quando resolver cair na caipirinha ou no filé é só chamar viu? E não se preocupe com as calorias: homem que é homem adora uma gordurinha na picanha (!!!)”

Dizendo essa frase final fatídica, o garçom se voltou para atender outros pedidos, me deixando vermelha de vergonha e totalmente constrangida na frente do cara que eu tentava impressionar.

Nunca mais voltei no bar, e não volto por um bom tempo. O que é uma pena: garçons folgados à parte, a cachaça e o filé do lugar são realmente bons...

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