Não sou muito fã dos filmes recentes de Pedro Almodóvar. Prefiro mais os filmes que ele fez em início de carreira, como “Pepi Luci Y Bom”, ou “Mulheres a beira de um ataque de nervos” (esse é o máximo...). Mas tenho que admitir que amei o título desse recente filme dele, “A Má Educação”. Acho um termo tão legal...isso porque as pessoas sempre preferem dizer que, quando alguém é grosso , é porque não recebeu educação nenhuma. Eu não concordo: acho que todo mundo recebe educação, mas a qualidade dessa educação é diferenciada, a depender do contexto de cada ser humano.
É impossível alguém não ter recebido nenhum tipo de educação, vivendo em sociedade. A não ser que você viva nas cavernas, como os antigos homens de Neandertal, não há como não ter assimilado qualquer tipo de tratativa social que permita viver de forma mais adequada, entre seus pares.
Mas infelizmente, a má educação é uma praga resistente, mais persistente que cabelos alisados de chapinha; gripe; e pochetes de lona. Ela está em toda a parte, de uma forma tão abrangente que as pessoas se acostumam a recebê-la e a tratá-la como normal.
Lembrei disso porque, ontem, entrei em um ônibus 175 - o mais rápido e barulhento para ir do centro da cidade para Copacabana - e, quando entreguei o dinheiro para o trocador, o seguinte diálogo bizarro aconteceu:
“Boa tarde”, eu disse.
O trocador me olha de cara feia, e responde:
“O QUÊ?”
Eu, assustada, repito com fio de voz (os trocadores do 175 são temíveis!).
“Boa...boa tarde...”
“Me chamou do quê??”
Eu, sem entender nada:
“Chamar? Não chamei o senhor de nada...”
“Me chamou sim, que eu ouvi.”
“Mas...eu só disse boa tarde!”
O homem me olhou com cara de espanto. Deu o troco em silêncio e, quando eu passava a roleta e sentava em um lugar vago, bem longe do trocador, ele balançava a cabeça e comentava, comigo e consigo mesmo.
“Boa tarde...ora essa! Boa tarde! Em 20 anos de trabalho é a primeira vez que alguém me dá uma boa tarde no serviço!”
Ouvi aquilo e não pude deixar de sorrir. É preciso ter certa dose de humor quando você percebe que a má educação superou a boa educação, ao ponto de esta última se tornar irreconhecível.
E para completar: quando saí do ônibus, o trocador agitou os braços, todo animado:
“Moça! Moça! Boa tarde, boa tarde!”
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