Dia desses estava lembrando um filme antigo com o Michael Douglas, “Um dia de Fúria”, com alguns amigos. A história é sensacional: um cara divorciado, com uma filha, recentemente demitido, fica preso em um trânsito infernal. Isso em Miami, acho. Quando ele está lá, naquele carro horroroso, em um sol infernal, moscas pousando no rosto dele, um calor hediondo, ocorre uma espécie de epifania dentro dele. O cara simplesmente percebe que ele não tem mais que aturar aquilo. Desce do carro e abandona o veículo na estrada.
Porém, uma das coisas que mais me entristece nesse filme é o final. É que, a partir de uma idéia super original, de um homem comum, com desejos similares aos de qualquer um de nós, que simplesmente partiu para cima da sociedade, o filme acaba desviando para uma trama completamente banal, de polícia atrás de bandido. E o fim da película transmite isso.
Mas para mim, a idéia, a premissa, a faísca que fez com o que o Michael Douglas saísse do carro naquele tremendo engarrafamento é genial. Porque todos nós, pelo menos uma vez na vida, já passamos por um momento desses, ou pelo menos no limiar dele.
Esse preâmbulo todo foi só para comentar que lembrei, ontem, de um dia de fúria que tive, há alguns anos em São Paulo. Quando tinha 20 e poucos anos, meus acessos de fúria eram quase tão freqüentes e certos quanto as crises de gripe no inverno (hoje me orgulho de dizer que tenho um acesso de fúria a cada dois anos...pretendo melhorar esse número). Naquela época, tinha acabado de me mudar para São Paulo e não conhecia a cidade. Uma tarde, marquei de me encontrar com dois amigos no shopping Ibirapuera e não sabia o caminho da minha casa, em Campo Belo, até o shopping.
Assim sendo, fui para o ponto de ônibus e pedi informação. Me indicaram um ônibus, ele passou, eu entrei. Conforme o veículo avançava, pude notar que o caminho ficava cada vez mais inóspito, as ruas cada vez mais estreitas. Fiquei desconfiada e perguntei para o motorista. Ele disse que eu havia pego o ônibus errado e estava na direção completamente oposta a do shopping. Desci no próximo ponto, irritada. Estava começando a achar que ia chegar atrasada para encontrar os meus amigos, sendo que marcamos de ver um filme naquele dia, “Gladiador” com o Russel Crowe.
No ponto de ônibus pedi informação e me indicaram outro ônibus. Entrei nele. Passou vinte minutos, meia-hora, quarenta minutos. A atmosfera cada vez mais inóspita me fez desconfiar mais uma vez de algo que confirmei com o motorista ao perguntar sobre o caminho que fazia: eu, novamente, tomara o ônibus errado, e estava mais longe ainda do shopping.
A essa altura, eu só pensava em não perder a sessão de cinema. Minha sorte é que eu tinha saído muito cedo de casa para encontrar com meus amigos (e gastei todo o tempo extra zanzando perdida por São Paulo), então havia chance de conseguir pegar uma sessão cedo, ainda naquele dia.
O motorista, solícito, falou que o melhor era ir até o terminal capelinha, destino final do ônibus e de lá pegar um lotação para o shopping Ibirapuera. Ele disse que não tinha erro, tinha a plaquinha no vidro do ônibus, com os dizeres “shopping Ibirapuera”. E eu sempre podia perguntar para o motorista e para o trocador, e saber se o veículo passaria mesmo onde eu queria ir.
Bom, não sei se todos vocês estão familiarizados com a localização do terminal capelinha. É no Capão Redondo, uma das regiões mais pobrinhas, tristes e feias da capital. Ao me encaminhar para o ônibus que me deixaria finalmente para o shopping, atravessei uma passarela totalmente detonada. Enquanto passava por essa via insalubre, senti que alguém agarrava minha bolsa com vontade, puxando ela do meu ombro. Não sou muito rápida para sacar as coisas, mas naquele momento, consegui captar com rapidez o que estava acontecendo, e o seguinte pensamento me passou pela cabeça: “alguém está tentando me assaltar”.
Então, tudo explodiu dentro da minha cabeça. O fato de eu ter recebido informações erradas duas vezes; ter parado em um terminal rodoviário em um fim de mundo, aliado ao fato de que, nesse dia, alguém ainda tentava me assaltar, ferveu no meu cérebro. Com toda a minha força puxei a bolsa de volta; a alça arrebentou e eu vi a cara do moleque que tentava me assaltar; um frangote de 16 anos. E o que ele viu no meu rosto deve tê-lo assustado um pouco, porque ele hesitou, por dois segundos. Esse tempo foi suficiente para que eu agarrasse completamente a bolsa de volta; metesse um soco de mão fechada no ombro do garoto franzino e ainda berrar com ele, a plenos pulmões, como se tivesse um demônio governando meu corpo:
“Tá-pensando-o-quêêê!!!!!!! Seu *&*$%#@ de uma figa, filho de uma égua sem mãe deslavada (parênteses: os insultos cearenses são os melhores). Ninguém me assalta hoje! ENTENDEU? NINGUÉM!”
O cara correu e eu ainda corri atrás dele, querendo bater no desgraçado. Depois, quando vi o meu ônibus com os dizeres “shopping Ibirapuera” parado no ponto, desisti da perseguição. Mas meu rosto devia estar mostrando uma fúria assassina, porque passei por uma mãe e uma criança de uns três anos que, assustada com a minha cara, começou a chorar e se escondeu atrás de sua genitora.
Felizmente consegui pegar o ônibus e chegar a tempo de ver o filme. Ao contar o que tinha acontecido para meus colegas, eles fizeram o que os amigos fazem nessas horas: gargalharam à vontade, como se não houvesse amanhã. E um deles comentou: “poxa, quem foi o Gladiador hoje não foi o Russel, foi você!”.
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
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