terça-feira, 28 de abril de 2009

Ratos

Uma das coisas mais absolutamente desagradáveis no centro da cidade do Rio de Janeiro é a quantidade quase bubônica de ratos existente nesse trecho da cidade. Quando chove torrencialmente, aquelas chuvas de final de tarde, então, é um perigo: os ratos, desesperados por uma rota de fuga das águas, correm livremente pelas calçadas do centro, como uma cena daquele filme da década de 70 com a música do Michael Jackson, “Ben” (parênteses: eu também chorei quando o ratinho morre, ou quase morre, no filme e o menininho fica chorando e dizendo, “você vai ficar bem, Ben" – sem trocadilhos -, cuidando do ratinho no final. Mas continuo tendo pavor de ratos).

Dia desses um colega, voltando do almoço para o trabalho, contou uma história que me arrepiou a alma quando ouvi da primeira vez. Em pleno meio–dia no centro do Rio, na avenida Rio Branco, uma ratazana do tamanho de um gato pequeno corria desesperada pela calçada, deixando em pânico todas as mulheres e até mesmo alguns homens que por ali passavam na hora do almoço. Até que um homem (calçando uma botina, espero) resolveu acabar com aquela cena dantesca e deu, nas palavras do meu colega, “um bicão na ratazana” tão forte que o bicho voou pelo céu, caindo no meio da rua. E ele completou, com um adendo horroroso, que me provocou os arrepios já mencionados: “já pensou se ele atinge uma pessoa quando ele chutou a ratazana? O bicho ia cair em cima da cabeça de alguém, ou no peito de alguém...”

Urc.

Ontem choveu no centro do Rio, da maneira mais vil: aqueles pancadões de temporal completamente inesperados, que obriga você a deixar sete reais na mão de um cambista de guarda-chuvas automático para se proteger do aguaceiro. Quando voltava da faculdade para a casa, por volta das nove e meia da noite, dei um puxão brusco no meu colega de estudo, que me acompanhava até o ponto e sussurrei, quase em pânico: “olha lá, olha lá...meu Deus, aquelas sombras...é tudo rato???”

Dito e feito, leitores: cerca de dez pequenas sombras corriam rapidamente pela noite mal iluminada, e se abrigaram em uma banca de jornal.

Aquilo me lembrou um momento de pânico que tive há cerca de um ano, em uma banca de jornal ao lado do cruzamento da avenida Rio Branco com a rua do Ouvidor. Estava entretida, dentro da banca, olhando as histórias em quadrinhos que foram lançadas quando ouço berros do lado de fora da banca:

“Ih! Entrou, entrou!”

“Pega! Pega!”

Um dos transeuntes que gritava avisou ao dono da banca que um rato acabara de entrar embaixo de seu estabelecimento. E o dono, ao saber disso, começou a berrar desesperado:
“Mas vocês deixaram? Como vocês deixaram? Meu deus, esse rato vai acabar com meu estoque, vai comer todas as minhas revistas!”

E eu, em pânico, dentro da banca, sabendo que tinha um pequeno roedor embaixo de onde eu estava, só olhava palidamente para o dono, que falava alto para quem quiser ouvir:
“Anda gente, me ajuda a procurar pelo amor de Deus!”

Sou uma pessoa deveras solícita na maior parte das vezes. Acho que, assim como o profeta mencionou uma vez, gentileza gera gentileza. Mas o temor irracional de algumas coisas (baratas voadoras; alturas; oompa loompas da fantástica fábrica de chocolates) ainda prevalece sobre qualquer sentimento gentil que eu pudesse ter no corpo. Foi aí que eu comecei a berrar com o dono:

“Moço eu só quero sair daqui! Ele está na calçada? Está na rua???”

“Não dona ele entrou para dentro da banca e...!”

Vapt! Já tinha saído da banca como um raio.

Há limites para tudo. Mas às vezes acho que não há limites para o medo.

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