terça-feira, 9 de junho de 2009

Momentos constrangedores

Não suporto momentos constrangedores. Para mim, são tão ruins quanto dores físicas excruciantes percorrendo meu corpo. Sempre quando estou prestes a passar por um, ou lembro de algum momento em que passei, a memória é tão nítida que o mal-estar da lembrança volta de uma forma tão vívida, que parece estar ocorrendo de novo.

Foi assim quando me fantasiei de espanhola para uma suposta festa a fantasia, que simplesmente não contou com ninguém mais fantasiado, além de mim. Era em um lugar chamado Mosteiro, em São Paulo. A festa era o aniversário do namorado de uma amiga. Não conhecia o namorado direito, mas tinha (e ainda tenho) muito carinho pela minha amiga. Então, peguei uma fantasia de espanhola que nunca tinha usado (havia comprado para outra festa a fantasia que acabei não indo. Deveria ter prestado atenção ao histórico do vestuário. Maus fluidos, maus fluidos...) e fui, com a cara e a coragem, acreditando que todos deveriam estar mais ou menos na mesma linha que eu.

O primeiro choque foi quando um amigo veio me pegar para a festa, e ele não estava fantasiado. Quando perguntei o motivo, disse simplesmente que não estava a fim de se fantasiar. Okay, pensei, direito dele, deixa ele. Mas depois, ao pegar uma outra amiga e perceber que ela também não estava fantasiada, o choque deu lugar a uma tensão crescente, e a um péssimo pressentimento. Essa amiga, muito solícita em minhas preocupações, se arrumou novamente, mesmo estando praticamente pronta quando a encontramos, e tentou colocar uma roupa que parecesse uma fantasia (ela não tinha comprado nada para a ocasião), mas infelizmente estava normalíssima, em comparação com a minha produção (hello? Eu era uma espanhola, pelo amor de Deus...)

O desastre foi perceptível quando entrei no lugar. Acho que era uma das noites mais frias de São Paulo; uns cinco graus, pelos relógios nas calçadas, que dão as temperaturas. E todos estavam vestidos de acordo; botas, casacos, blusas de lã, cachecol...e ninguém, absolutamente ninguém fantasiado.

Quando chegamos à mesa da minha amiga e do namorado dela, descobrimos que somente nós tínhamos chegado para festa. Aparentemente, o frio espantou as cerca de 30 pessoas que estavam confirmadas para o evento, segundo minha amiga, que inicialmente estava fantasiada de enfermeira, mas depois apenas removeu o chapéu e manteve-se com um vestido branco simples, não muito adequado ao frio que fazia, mas ainda assim, aparentando ser uma pessoa normal, e não uma louca espanhola com castanholas nas mãos. Quanto ao seu namorado, ele se vestiu de monge. Chegando ao local e percebendo o ambiente (o mosteiro reservou apenas uma parte do lugar para a festa, não o local todo, que estava cheio de pessoas vestidas normalmente, querendo tomar algo quente em um sábado à noite), ele simplesmente tirou o hábito, já que estava de calça jeans e pulôver por baixo do hábito.

Eu não tinha como tirar a fantasia de espanhola. E reparem, não era uma fantasia qualquer: era “A” fantasia. Toda vermelha e preta, cheia de babados, fenda na perna, com direito a meia arrastão preta, mangas bufantes e rosa vermelha no cabelo. Um amigo me emprestou um casaco longo para cobrir parte de cima da fantasia. Mas não adiantava: sempre que eu ia ao banheiro era um espetáculo, porque o rabo do vestido de espanhola,com seus babados vermelhos de cetim, atraía todos os olhares.

Acho que foi um dos episódios mais “quero- que- alguém-abra-um -buraco –para- eu- me- esconder” que já passei. Tenho arrepios hoje só de lembrar.

Mas minha ojeriza a momentos constrangedores não se aplica somente a cenas envolvendo minha pessoa. Tenho tiques de nervoso quando percebo que alguém está passando por algum momento constrangedor, ou está em vias de passar. Por exemplo, na rua, quando vejo que alguém saiu do banheiro com papel higiênico grudado no sapato sem perceber, eu persigo a pessoa até tirar o papel grudado, sem a pessoa perceber, para que ela seja poupada desse constrangimento, quando percebesse o papel nojento.

Nem em filmes eu agüento ver. Até hoje, não vi a cena de “Carrie, a Estranha” em que os colegas de escola derrubam um balde de sangue de porco em cima dela, quando estava sendo coroada rainha do baile.

Lembrei disso porque, no final de semana, a minha sobrinha do meio, Laura, de quatro anos, fez uma coisa que me fez perceber que talvez isso seja genético. Estávamos assistindo a algum filmes desses bobos de criança/adolescente no Disney Channel quando era perceptível que a personagem principal ia passar por um péssimo momento: os vilões do filme estavam prestes a derrabar ponche em cima do lindo vestido novo dela! E a Laura, percebendo isso, fechou os olhos, colocou as mãos no rostinho, e falou “me avisa quando acabar”.

Admito. Fiquei orgulhosa. Porque minha sobrinha tem chances de perpetuar minha ojeriza contra momentos constrangedores e, com o passar do tempo, poderá ajudar as pessoas nas ruas que tem papel higiênico nos sapatos, ou simplesmente andam com o zíper das calças aberto pelas ruas. É uma conquista que me deixa feliz.

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