Entre as coisas mais legais ainda presentes na zona sul e no centro do Rio de Janeiro está a existência, ou sobrevivência, de alguns cinemas de rua. Embora tenham ocorrido baixas consideráveis nos últimos tempos, como os últimos suspiros do Cine Paissandu no bairro do Flamengo, zona sul do Rio, e do Cine Palácio no centro do Rio, ainda é possível encontrar boas opções de cinema na capital fluminense que não sejam dentro de horríveis e apertadas salas de shoppings; ou então dentro de qualquercoisa-plexes da vida - onde um saco de pipoca é mais caro que um prato de arroz, feijão e bife com salada. (parênteses: pelo amor de Deus, aquilo é PIPOCA! Feita com milho sal e manteiga! Um sacão de milho no supermercado é R$ 1,99! Não vale o preço cobrado nos cinemas...).
As mais gostosas alternativas de cinema de rua da cidade são, na minha modesta opinião, o Roxy, na avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com rua Bolívar, em Copacabana; o cine Odeon na Cinelândia, centro do Rio; e o cine São Luiz, no Largo do Machado, entre os bairros de Catete e Flamengo, na zona Sul. Todos foram reformados. E posso dizer uma coisa, sem parecer saudosista, apenas realista: os dois primeiros, após passarem por mudanças e tentativas de reconstruir a beleza da arquitetura original, colocam no chinelo, em termos de beleza, qualquer cinema “muderninho” construído no século XXI.
Tinha um professor na faculdade que comentava sobre isso. Sobre como a arquitetura do final do século XIX e início do XX construía, de forma costumeira, prédios com pé-direito alto e grandes arcos nas portas de acesso, lindamente enfeitados com figuras heráldicas ou mitológicas. “Construíamos prédios para gigantes, porque o homem se considerava um gigante. Agora construímos caixas de sapatos. Pois os homens se comparam hoje às baratas”, dizia ele, nas aulas.
O Roxy e o Odeon são exemplos disso. Em primeiro lugar são cinemas com letreiros enormes, vistosos, coloridos. Embora o Roxy tenha, após a reforma e modernização, adicionado várias comodidades do século XXI, como novos banheiros e elevador para idosos, ele manteve a magnífica escadaria de mármore, com apoios dourados e detalhes enfeitados na margem. É a primeira coisa que se vê quando se entra no cinema. Coisa para gigantes.
Já o Odeon, então, nem se fala. A reforma manteve os detalhes da sala, e a quantidade enorme de cadeiras da platéia e o balcão, ah, o balcão...é lindo e absolutamente extasiante sentar ali em cima e saber que pouquíssimos cinemas ainda os tem; ainda os conservam (parênteses: tenho medo de altura, mas adoro sentar em balcões, no teatro ou no cinema. Vai entender...)
Mas lembrei de tudo isso por causa do terceiro exemplar de cinema de rua predileto, em minha lista. O cine São Luiz, dos três, foi o que menos preservou as características originais do cinema. Ele é todo “muderninho” por dentro; tem pizzarias e restaurantes no andar de baixo e no andar de cima, três salas de cinema com venda de pipoca, café e livraria ao lado.
Entretanto, tem uma coisa que esse cinema tem, que os outros dois não possuem. Uma foto da sala de cinema, repleta de pessoas, em outubro de 1937. A foto é em preto e branco, antiga, e cheia de falhas, como costuma ser qualquer imagem antiga.
Mesmo com os borrões e manchas na foto, é possível perceber os rostos e roupas das pessoas. A foto foi tirada de frente; e os amantes do cinema aparentam estar com suas melhores roupas, homens e mulheres de chapéu, compenetrados, olhando com atenção para a tela...
Ontem fui ao São Luiz e fiquei admirando a foto. Onde estavam essas pessoas agora? Será que algumas ainda estariam vivas? Será que seus filhos e netos hoje estavam percorrendo as salas reformadas?
Eis que, em meio às reformas e atualizações, o antigo e o novo praticamente se reúnem, lado a lado, em vários pontos do Rio. Creio que isso pode ser dito de qualquer lugar do mundo. Mas no caso do Rio de Janeiro, é gostoso saber que, mesmo ao andar por lugares de grande trânsito, que passaram por tantas modificações, ainda é possível perceber o antigo nos acenando, direto do passado, com aquela certeza que um dia, nós, também, seremos uma imagem antiga e falhada pendurada em uma parede.
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