Estava na fila de um caixa eletrônico no centro quando noto que a pessoa que estava tentando usar o maquinário começa a bater nervosamente no maquinário. Os dois homens que estavam na fila aguardando comigo começam a se entreolhar e a olhar desconfiadamente para o senhor barbudo, de óculos, calça jeans e camisa pólo, que começava paulatinamente a perder a paciência com o caixa eletrônico. Mas antes que pudéssemos perguntar solicitamente qual era o problema, ele começou a berrar e a chutar a máquina do caixa.
“Máquina estúpida! Máquina estúpida”, ele gritava, entre um chute e outro, enquanto nós que estávamos na fila observávamos estupefatos. O som dos berros chamou a atenção do vigilante do banco, que se aproximou rapidamente do homem e pediu para ele se afastar “do maquinário”.
“Não me afasto! Não me afasto! Máquina estúpida, estúpida!” continuou ele a gritar, até o segurança colocar a mão no ombro do homem e pedir para ele se acalmar. Ao ver o tamanho do vigilante, dois metros, peito parrudo, o senhorzinho, que era nervoso mas não maluco, tentou se explicar.
“Essa máquina está de sacanagem comigo, seu guarda. Todo o dia eu venho aqui e tiro dinheiro nessa maquina e hoje ela está dizendo que a tarja do meu cartão está suja ou com defeito e não dá para sacar nada...!”
“Já tentou outra máquina? Ou limpar a tarja?”
“Já tentei aquela outra ali”, apontou para uma outra que realizava saques, em que estava uma senhorinha que acompanhava tudo de olhos esbugalhados. “E deu a mesma coisa.”
“Então, senhor, talvez sua tarja esteja suja ou danificada.”
Neste momento, o homem olhou com tanta raiva para o guarda que achei que ia começar a chutar o vigilante também. Mas ao invés disso, ele suspirou, colocou a mão na carteira e começou a agitar algo na frente do guardinha.
“Olha isso, olha isso. Carteira de couro, couro legítimo com proteção máxima para meus cartões...eu sempre cuidei bem dos meus cartões...”
“Senhor, outras pessoas querem fazer saque. Se o senhor não se acalmar e parar de bater na máquina vou ter que pedir para que se retire.”
“Não precisa pedir nada. Eu me retiro! Me retiro!”, ele dizia bufando enquanto saía da agência. Mas fez um comentário final antes de sua saída da agência. “Eu me retiro porque sou do tempo em que se confiava mais na palavra de um homem do que de uma máquina!”, disse.
Se isso fosse um conto do Isaac Asimov, tenho certeza que no banco haveria um cientista ou um especialista em robótica dizendo que as máquinas eram mais confiáveis, pois não podiam mentir, como os homens. Porém...porém...entendo o que o homem quis dizer. Já reparou como, nos tempos de hoje, confiamos mais no que dizem os computadores, os sistemas, os caixas eletrônicos da vida, do que em outros seres humanos?
O senhorzinho está certo. A palavra de uma máquina vale sim, hoje, mais do que a de um ser humano. Acho que a humanidade, de uma forma intrínseca, perdeu a confiança nela mesma, e acha que o primeiro caminho para qualquer pessoa é, sem sombra de dúvida, mentir. Uma frase como a do escritor Mark Twain, que disse uma vez “na dúvida, diga a verdade”, soaria tão infantil nos tempos de hoje...porque, nos nossos tempos, hoje, quem realmente liga para a verdade?
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