quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Na pista de dança

Como qualquer grande cidade, o Rio de Janeiro tem várias opções para se jogar na pista de dança. Se o freguês prefere rock, temos a Bukoswki em Botafogo ou o Empório em Ipanema; se prefere dança de salão, tem o Democráticos na Lapa; se tem preferência por samba ou soul, shows bacanas ocorrem no Estrela da Lapa ou no Rio Scenarium, ambos na Lapa; ou então no Cinemathéque, em Botafogo. Quem ainda busca pela dupla MPB + pegação, que estava muito em voga na década de 90, pode sempre dançar no primeiro andar do Lapa 40º Graus. Ou então, para os maníaco-depressivos, curtir música pop trash em uma pista de dança completamente derrota total no Buxixo na praça Vanhargen, na Tijuca, também pode ser uma opção.

Sempre encarei a pista de dança como muita seriedade. Para mim, é uma das atividades mais ricas que nós, como seres humanos, podemos participar. Veja bem, não é somente porque eu gosto de dançar, que eu danço. É porque nós somos os únicos mamíferos que dançam espontaneamente. Acho isso o máximo, sempre achei.

Na minha modesta opinião, a pista de dança para mim é um altar onde rezo meu prazer.

É claro que há seus percalços. Nem sempre nesses lugares que mencionei há espaço físico adequado para se dançar “espalhadamente”, que é a minha maneira favorita de chacoalhar. Você fica sujeito a esbarrar nas pessoas, sem querer. Isso acontece.

Mas nem todo mundo encara dessa maneira. Dia desses na Bukowski, estava dançando com uma amiga na pista, que estava lotada. Como o set list do DJ estava muito bom, comecei a me empolgar e me “espalhar” mais do que devia. Devo ter acertado alguma parte do corpo da menina que estava atrás de mim, que depois de um tempo começou a me empurrar sistematicamente, como se dissesse, “esse espaço é meu, você não tasca”. Nem liguei. Com a pista cheia, com gente saindo pelo ladrão, o fato de a garota achar que poderia dançar ali sem esbarrar em ninguém era engraçado.

Porém, cometi um erro. Comentei em tom de mofa com a minha amiga o que a garota “não me toques” estava fazendo, e minha companheira ficou tensa. Ela detesta qualquer tipo de barraco público e ficou com medo de que a situação descambasse para um. Assegurei a ela que não havia a menor possibilidade; que a garota poderia dar todos os empurrões que ela quisesse que eu não sairia dali, e ficaria na minha, na boa, sem brigas. Entretanto, o encanto da dança já estava quebrado. Senti que ela não estava se sentindo bem com o cenário, e sugeri que fôssemos embora.

Aquilo ficou comigo durante dias. Sair sem defender meu espaço na pista de dança; ceder ao bully e à violência de uma garota que nem sabia fazer escova no cabelo direito me fez mal.

Eu prometi para mim mesma que não cometeria o mesmo desatino novamente, e seria mais sábia e mais forte da próxima vez que tal situação ocorresse.

Uma situação similar aconteceu na semana passada, e quis o destino que fosse no mesmo lugar da primeira situação. De novo, uma garota que simplesmente não aceitava ser tocada/esbarrada na pista de dança pequenina da Bukoswki (parênteses: o engraçado é que isso só ocorre com mulheres. Homens não estão nem aí para esbarrões na pista de dança) aparentemente jogou parte de uma bebida com gelo nas minhas costas. A princípio pensei que fosse acidente, mas o mesmo ato repetiu-se uma segunda e uma terceira vez. Como estava acompanhada com a mesma amiga que detesta barraco, não disse nada para não assustá-la. Felizmente naquela noite estava usando salto. E não qualquer salto: um salto plataforma, de madeira, poderoso e pesado. Então, como diria o Chaves, “sem querer querendo” ousei em mais um passo de dança e dei um enorme pisão no pé da garota, que provavelmente viu estrelas.

Se ela tivesse reclamado, eu teria pedido mil desculpas. E pisado no pé dela de novo, naturalmente. E não sairia do meu lugar nem se todos os anjos mais Jesus Cristo aparecessem na pista da Bukoswki. Porque o importante, caros amigos, ao dançar, não é brigar, e sim não perder o lugar.

Graças ao inventor da plataforma, a pisada surtiu o efeito desejado e a garota acabou se mudando de lugar. Achei ótimo. Continuei a chacoalhar o esqueleto quase a noite inteira, pensando em como era bom dançar, dançar,dançar...

Mais tarde contei a história para a amiga que me acompanhava naquela noite, e ela, é claro, ficou horrorizada. Tranquilizei-a com a frase: “Não vai acontecer de novo. Se acontecer, você não saberá. Afinal, pista de dança não é guerra, é estratégia”.

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