Desde que me mudei do subúrbio para a zona sul do Rio, nunca mais presenciei despachos. Daqueles poderosos, com vela vermelha, restos de galinha preta, cumbuca de barro e perfume quebrado em encruzilhadas. Não sei se não é hábito mais, ou se simplesmente não é costume na zona sul. Mas em Realengo, na época da minha infância, era impossível andar pelas ruas do bairro, na altura da avenida santa cruz com a rua doutor Pedro Lessa, e não esbarrar com uns apetrechos de umbanda.
Quando criança, ficava impressionada com os despachos. É preciso que vocês entendam que era MUITA COISA, que eles deixavam nas encruzilhadas. Eram sacos de fubá inteiros, shampoos, muitas velas e charutos. Uma vez, me lembro desse dia como se fosse hoje, encontrei toda feliz um saco inteiro do bombom serenata de amor, e o peguei de uma encruzilhada, mostrando toda satisfeita para o meu pai, que caminhava próximo a mim. Ele ficou branco e falou, em voz alta e enérgica: “Larga isso! Larga isso agora!”. Fiquei assustada e deixei cair o pacote onde ele se encontrava, enquanto levava uma bronca de meu pai, que dizia para NUNCA MESMO pegar nada de encruzilhadas, porque aquilo era para “os orixás da macumba” e poderiam acontecer coisas horríveis comigo.
Até hoje tenho medo de comer serenata de amor. Sério mesmo.
Lembrei disso ao me recordar de uma história que uma amiga trouxe a baila, do dia em que fiz uma simpatia na varanda do meu prédio. Na época, eu morava em São Paulo, em um andar alto, 13º, acho. (Número auspicioso não? Nunca tinha me tocado disso). Uma pessoa sem escrúpulos estava perseguindo uma amiga, e resolvi tentar uma simpatia do mal para detonar a pessoa. Fiz os apetrechos necessários, mas para o que eu queria era necessário queimar um pedaço grande de papel, um cartão postal. Bom. Mesmo que o indicado fosse trabalhar o ato como uma atividade ao ar livre, resolvi fazer na varanda mesmo, sob a luz da lua crescente (vocês tem que lembrar que era São Paulo, e lugares para atividades ao ar livre eram escassos).
Comecei a fazer. Quando tentei queimar o cartão, sabe-se lá porque, a droga do papel era resistente demais. Após várias tentativas frustradas, resolvi colocar um pouco de álcool no objeto a ser queimado. O resultado? Uma fumaça preta horrorosa começou a subir, de forma maligna, em direção a meu rosto. Comecei a tossir descontroladamente e me afastei da bacia onde o objeto queimava em segurança (parênteses: eu sou maluca, mas nem tanto. Não queria queimar o apartamento). Entretanto, a fumaça infelizmente chegou a subir de forma bem persistente para fora do apartamento. Ao ponto de o porteiro ligar e perguntar se minha casa estava pegando fogo. “Não, não..é que eu queimei umas cartas e elas fizeram mais fumaça que eu imaginava...cartas de amor sabe?”, menti, sabe-se lá porque falando de cartas de amor para o porteiro. Mas parece ter funcionado, pois ele apenas suspirou pelo outro lado do interfone (aquele suspiro “ah, ela é maluca mesmo”) e pediu para eu tomar cuidado.
Mas aprendi minha lição. Nunca mais faço simpatias em varandas de apartamento. E se em São Paulo a disponibilidade de ofertas era escassa, no Rio, onde moro hoje, sempre podemos contar com as encruzilhadas dos subúrbios.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário