É incrível a quantidade de sapateiros que estão disponíveis nas ruas do centro da cidade do Rio. Sempre em um banquinho cheirando a graxa, ao lado de uma cadeira enorme para os transeuntes que desejarem um brilho em seus sapatos, os sapateiros se colocam a disposição dos mais ínfimos consertos, desde uma alça de sandália arrebentada até uma complexa cirurgia de colar boca de jacaré.
Tem um, na rua São José, quase em frente ao Buraco do Lume (parênteses: não faço a mínima idéia como um lugar tão bonitim recebeu um nome tão feio. Um professor de História da minha faculdade disse que a origem veio do nome de uma empresa, Lume, que comprou o terreno, chegou a começar a construir um arranha-céu no lugar mas faliu antes, deixando ali um buracão, o Buraco do Lume). Ele já é idade, usa óculos escuros, corrente e pulseira de ouro e sapatos brilhando, devidamente engraxados (propaganda, talvez?). E conserta tudo, tudo mesmo; até faz aplicações de lacinhos e strass em sandálias de perua, praticamente renovando o acessório.
Mas esse é especial, entre todos, para mim. Primeiro porque nunca aceita o dinheiro até que o sapato esteja devidamente embalado e escovado. Quando se tenta dar o dinheiro para ele antes, ele descarta com um gesto, dizendo: “Calma. Ainda não mereci o pagamento”, e enrola os sapatinhos com todo o cuidado, procurando falhas (inexistentes) em seu serviço, para em seguida entregar o produto ao cliente, recebendo o dinheiro com um ar de satisfação no rosto. E segundo, porque foi o único sapateiro que, após executar um serviço de uma forma completamente eficiente, pediu para que eu esperasse e sacou um cartão do bolso. No cartão, os dizeres: “ZEZINHO, PERSONAL SAPATEITOR”, com o celular escrito embaixo.
Controlando-me para não rir da frase no cartão, ouvi respeitosamente Zezinho contar que, se eu tiver problemas com meu sapato, ao ponto de não poder andar com ele na rua, é só ligar para ele, e ele sai de seu ponto, vai até o local, conserta o sapato “em caráter emergencial” para depois retornar ao seu local de trabalho. Apenas avisou que, como era um serviço de “personal”, os consertos seriam mais caros do que costumam ser...
A criatividade sempre aparece nos momentos mais inacreditáveis, e nos locais mais imprevisíveis.
quarta-feira, 25 de março de 2009
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