Estou lendo um livro chamado “Comer, Beber, Rezar”. É sobre uma mulher que abandona tudo nos Estados Unidos para passar um ano viajando, passando por Itália, Indonésia e Índia. O objetivo da viagem não poderia ser mais delicioso: ela está em busca de coisas que não tinha em sua vida cotidianíssima e normalíssima (bom, mais ou menos normalíssima. Ela parece viajar muito em seu trabalho. Ainda não sei direito o que ela faz, não terminei o livro). A autora, até a parte em que eu li, parece experimentar outros tipos de percepção quando confrontada com culturas diferentes do rame-rame cotidiano anglo saxão, que é acordar; trabalhar; sair do trabalho; encher a cara; voltar para a casa e dormir - para começar tudo de novo no dia seguinte.
Creio que as mulheres foram as leitoras principais desse livro, as que alavancaram as vendas dessa obra. É de se imaginar algo assim, visto que a busca da escritora é descrita de uma forma muito feminina – embora o tema, de se sair pelo mundo em uma jornada, tenha sido o tema de várias histórias com personagens masculinos, desde o ano de mil e bolinha. Entretanto, enquanto posso visualizar várias mulheres, ou até mesmo alguns homens, entrando nas livrarias para comprar o livro, não consigo imaginar muitas delas ou deles fazendo o que ela fez: indo para a Itália porque queria aprender italiano; indo para Índia para buscar orientação espiritual e religiosidade.
Fiquei triste ao ver na capa que mais de quatro milhões desse livro foram vendidos no mundo. Isso mesmo, triste. Porque, pensei eu, as mulheres que compraram o livro, em sua maioria, devem ter se sentido atraídas pela história da escritora - que praticamente fugiu de sua própria vida -, e recomendaram para suas amigas como um livro maravilhoso; e estas, por sua vez, também sugeriram para outras amigas, e assim por diante. Um círculo virtuoso de leitura, admito. Mas não de vivência.
Por que é mais fácil para nós, homens e mulheres, comprar livros do que fazermos nós mesmos as coisas que os livros descrevem? Por que não vi notícias nos jornais de quatro milhões de pessoas que abandonaram seus empregos pelo mundo para buscar algo novo para suas vidas?
E o mais importante de tudo isso, pelo menos para mim: porque eu estou entre essas pessoas que compram livros, e não inserida dentro daquele pequeno grupo que realmente parte em busca de algo, em suas próprias jornadas?
Recordo agora de um poema de Robert Frost. Não lembro o título, mas sei de cor um trecho que guardo na memória, com temor por realizá-lo, com temor por não realizá-lo. “Two roads diverged in a wood/ and I--I took the one less traveled by/And that has made all the difference”.
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