“Tem certeza que vai levar isso?”
“Como?”
“Senhora. Olha. Não é porque sou caixa daqui que vou deixar de ser sincero. Mas olha só: impossível não dizer. A senhora não devia levar isso, não por esse preço.”
“O preço?”
“Senhora, pagar mais de nove reais por sete tomates é um roubo.”
“Mas são orgânicos. Por isso é que são mais caros.”
“Há. Orgânicos. Sei. Olha senhora, todo mundo é orgânico, eu sou orgânico, a senhora é orgânica...”
“Não, o que eu digo é que eles são fabricados sem agrotóxico.”
“E a senhora realmente acredita nisso? Olha para essa cor de tomate, senhora. Eu sei do que estou falando, sou de Minas, minha família inteira é, minha avó tinha um sítio e criava tomates no jardim. Ela não usava agrotóxicos, isso eu sei. E o tomate dela não ficava dessa cor, nem desse tamanho.”
“Mas eu acho que eles usam outro tipo de método...”
“Senhora, vai por mim: isso aqui é tão orgânico quanto esse Toddynho. Aliás, vai levar Toddynho a esse preço?”
“Está na promoção...”
“Senhora, no ______ e no ___________ está pela metade do preço.”
“É claro que está, eles não pagam impostos. São um bando de sonegadores. Por isso os preços são tão baratos.”
“Senhora, vou falar francamente, porque sou super franco: quem se importa? E daí que eles não pagam impostos? Os impostos vão para algum lugar que preste? Vão arrumar a minha rua em Vaz Lobo ou asfaltar a casa da minha prima no Jabour? Ou consertar o trem Gramacho-Saracuruna? Então, para que se importar se eles embolsam o dinheiro?
“Acho que seu supervisor está nos olhando...”
“Deixa que olhe. Desculpa, senhora, vou falar mais baixo. Não quero constranger a senhora, é que sou muito sincero.”
“Agradeço muito.”
“Olha aqui isso. Seis cebolas por sete reais...já sei, já sei, são orgânicas.”
“Isso mesmo.”
“Eu sei que todo mundo tem o direito de acreditar no que quiser. Mas senhora, eu vou te dizer uma coisa: tem muita gente que ganha dinheiro em cima da fé das pessoas. Minha avó diz que todo mundo está perdendo a fé, mas acho que é o contrario. As pessoas acreditam demais, sabe? Acreditam em qualquer coisa...”
“Prefiro acreditar que não sou enganada.”
“Sim. É, tenho certeza que prefere. E tenho certeza que a senhora é mais feliz que eu. Olha isso. Quatro reais por uma caixa de leite...”
“Vai dizer que nos outros supermercados está mais barato, não?”
“Não senhora. Acho que a senhora está pagando o preço que deve. Por ter esperança, sabe? Deu 64 reais. Boa noite senhora, boa sorte.”
domingo, 1 de março de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário