domingo, 1 de março de 2009

A Roupa e o Ser

Fui à praia do Arpoador ontem e, quando cheguei à areia, acompanhada de uma amiga, vi uma discussão entre um catador de latas; um vendedor de comidinhas e bebidinhas de barraquinha; e um policial. Aparentemente, os barraqueiros estavam acusando o vendedor de latinhas de ter sumido com a bolsa de um cliente. O vendedor jurava inocência; os barraqueiros contavam sua parte da história com insistência; e o policial ouvia e tentava acalmar os dois lados.

O vendedor de latinhas, quando percebeu que a situação começou a ficar preta para o lado dele, começou a berrar que era trabalhador, pegou o saco de latinhas que tinha juntado o dia inteiro, jogou aos pés dos barraqueiros e do policial. Mas não foi isso que me chamou atenção. Foram as palavras berradas do vendedor, quando percebeu que não estavam acreditando nele. Insultou os barraqueiros e completou:

“Vai, vai reclamar da vida para esse calça curta, que nem poliça (sic) é. O cara é um segurança, olha como ele vestido!”

Já tinha notado a mudança de uniformes dos policiais que atendem na praia, no Rio de Janeiro. Diferente do uniforme completo, que incluía calças, botas, camisa branca do lado de dentro e blusa abotoada, os oficiais da lei agora usam bermudas azul marinho, tênis com meias, camiseta branca, boné e cassetete. Uma roupa bem mais coerente para lidar com o calor de 40 graus que agora é padrão no verão carioca.

Mas, estranhamente, pessoas acostumadas com a farda dos policiais de antigamente não mais os reconhecem imediatamente como figuras de autoridade. É como se nossos olhos estivessem já acostumados com um padrão, e a mudança de roupa dos policiais demorassem a se encaixar em nossos olhos, que fazem, ainda, uma ligação muito grande entre a roupa de uma pessoa e seu dever.

Vejo isso no meu trabalho também. Repórteres de televisão têm um padrão de vestuário impecável: homens de terno, mulheres de tailleur, sempre. E jornalistas que cobrem a área de economia estão quase sempre com roupas sociais, em sua maioria. Claro, alguns tentam quebrar essa regra não escrita, e usam jeans. Mas até o momento, pelo que tenho observado, não são maioria.

Lembro de uma pauta em que fui visitar a fábrica de uma importante marca de cosméticos. Era no interior do estado, estava um calor horroroso, e fui com uma blusa preta, sem mangas, e uma saia vermelha, com sandálias pretas. Fui apresentada à mulher do dono da fábrica, durante a visita. E, quando ela me cumprimentou, não pôde deixar de comentar:

“Nossa, você é diferente do que eu imaginava. Esperava alguém de terninho.”

Fiquei vermelha quase que imediatamente e, com um sorriso amarelo, expliquei apenas que estava muito calor para usar terninho. Ela percebeu a grosseria do comentário, pediu desculpas e começamos o tour pela fábrica. Mas é claro que, depois daquela observação, parte da minha confiança, que seria absolutamente necessária no lidar com a fonte, foi jogada no lixo.

Ainda não entendo como algumas pessoas consideram futilidade falar, discutir ou se preocupar com roupas. É algo que mexe com sua mentalidade, com sua percepção de si mesmo, de uma forma que praticamente nenhum outro objeto material faz.

A escolha do que você usa define como você quer aparentar ser para os outros. Mas ainda é mais do que isso: a nossa seleção de roupas mostra como queremos ser para nós mesmos.

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