sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Causa

Vi um filme ontem “O Grupo Baader Meinhof” que me incomodou. A história trata da formação e desenvolvimento da Facção Exército Vermelho (em alemão, Rote Armee Fraktion ou RAF), grupo de terroristas da Alemanha Ocidental, do ano de 1968 em diante. Os integrantes do grupo lutavam contra o capitalismo, guerra do Vietnã, avanço do imperialismo americano e das ditaduras na América Latina, entre outros tópicos. O fato de ser sobre terrorismo não era o que me deixava encafifada; o que realmente deixou um friozinho no estômago foi perceber que os anos de formação e ascensão da RAF eram permeados de causas por todos os lados, assim como de pessoas que não se reconheciam por suas nacionalidades, e sim pelas idéias que defendiam. Tentei enxergar algo parecido nos dias de hoje, sem sucesso.

Por exemplo, no filme, a maioria dos personagens eram alemães, mas não eram assim que se auto-identificavam, e sim como comunistas; simpatizantes da causa palestina; lutadores contra o capitalismo. Isso levava a consequências interessantes, como a parceria próxima entre núcleos de terrorismo na Alemanha e guerrilhas árabes na Jordânia; e a frases como a de uma personagem assegurando a seu namorado que a delimitação geográfica da Alemanha Ocidental era apenas mais uma frente na guerra em que todos estavam envolvidos: de um lado, os capitalistas e neo-liberais; do outro, comunistas, marxistas, anarquistas e socialistas.

Como uma época pôde ser tão rica em causas a defender? E ao mesmo tempo, como o nosso período atual tornou-se um cenário tão pobre em lutas sociais? É claro, ainda temos guerra; sempre teremos a guerra. Mas onde estão os jovens e trabalhadores com o povo nas ruas, lutando por um mundo melhor em cada esquina?

Trabalho no centro do Rio de Janeiro. Quem passa por essa área sabe que é uma região conhecida por abrigar passeatas de todos os tipos. Os protestos são sempre liderados por alguém berrando um megafone; e vários apitos e gritos de protesto entre os integrantes do grupo podem ser ouvidos. Isso pelo menos não mudou; a maneira de se protestar. A reação do establishment e do povo às manifestações é que é, hoje, completamente diferente. Os protestos são guiados e apoiados pela Polícia, que fecha as ruas para melhor evolução dos manifestantes;e o povo acompanha com os olhos, apático, o desenrolar do protesto, às vezes reclamando sobre como aquilo “atrapalha o trânsito”.

Vemos aqueles que estão nas passeatas à distância. Não sentimos nenhum tipo de simpatia às causas que não nos afetam diretamente. E observamos os protestos nas ruas, agora, da mesma maneira que os mantenedores do status quo: como um adulto que observa com indulgência uma criança a brincar de com suas peças Lego, a construir uma coisa, qualquer coisa. A criança acha que pode construir uma casa, um palácio; o adulto sabe que aquilo é apenas uma forma disforme, que pode ser destruída a um simples toque seu, se assim decidir.

Não há hoje uma única causa que nos una, a todos, como seres humanos.

Um comentário:

  1. Como seres humanos, o que temos em comum mais nos afasta que nos une. Há uma preguiça generalizada, baseada na certeza de que o ruim, o errado, o podre e o sujo sempre vence. Um cinismo que nos leva a tratar como ingênuos àqueles que protestam, pois estes acreditam que protestando vão mudar alguma coisa "humpf, o máximo que estes manifestantes conseguem é piorar ainda mais o trânsito".
    Achava que era uma preguiça brasileira, do tipo, elegemos o manifestante e pouca coisa mudou, mas estive no Chile recentemente (lugar de grandes confrontos entre esquerda e direita) e encontrei uma manifestação de esquerda: diversos partidos e sindicatos, discursos acalorados motivados pela proximidade da comemoração do dia da independência, olas para Fidel, Evo, Chaves e cia (nenhuma saudação ao companheiro Lula) e 500 gatos pingados no meio de uma praça enorme, o que ressaltava ainda mais a pouca adesão do povo (aquele que deveria estar revoltadíssimo) ao movimento...
    Que preguiça.

    ResponderExcluir