terça-feira, 23 de junho de 2009

MP3

As ruas do Rio de Janeiro estão repletas de passantes com MP3 em seus ouvidos. Entre eles, esta que vos fala. Um colega de trabalho meu é radicalmente contrário ao avanço dos tocadores de música nas orelhas dos transeuntes: diz que a melhor coisa ao se passear pelo Rio é ouvir os sons da rua. Eu contra-argumento que, com os tocadores de música nos meus ouvidos, o mundo adquire uma trilha sonora particular, que só eu possuo.

Ando pela avenida Rio Branco com Roger Daltrey do The Who berrando que não será enganado novamente; passo pela rua da Assembléia com o Eddie Vedder dizendo que era apenas uma pedra, até a luz do ser amado torná-lo uma estrela; e ultrapasso os transeuntes apressados pela rua Gonçalves Dias, deliciada com Juliette Lewis contando que nunca conheceu um tolo faminto que não tivesse todo o potencial necessário para que ela pudesse vir a adorá-lo.

Gosto disso. Ao mesmo tempo que minha visão percebe os carros e pessoas em movimento ao meu redor, a música preenche os espaços percorridos, e dando a mim a saborosa impressão de que estou em um videoclipe, meu videoclipe particular.

Entretanto, ao mesmo tempo que admito minha apreciação ao hábito, não pude deixar de perceber hoje de manhã, quando passei por cerca de 20 pessoas, dez das quais estavam com MP3 nos ouvidos, que esse tocador de música pode ter uma função que, inicialmente, não se esperaria dele. Ao mesmo tempo que fornece trilha sonoras variadas para os transeuntes, o tocador de música promove um afastamento virtual, mas firme, dos indivíduos em sociedade.

É como aquela cena inicial do filme “Crash” do Paul Haggins, onde o personagem interpretado por Don Cheadle explica que, em Los Angeles, as pessoas não querem, não conseguem mais se tocar. Presas em seus próprios mundos delimitados por diferenças sociais, de religião, ou de raça, elas andam pela cidade em seus carros fechados, nas grandes rodovias, que cada vez mais ocupam espaço das calçadas onde raros passantes se atrevem a andar. Mas essa ausência do toque tem seu preço: vez ou outra, ocorre uma “colisão” entre as pessoas, que por viverem tão separadas uma das outras, presas em seu próprios nichos, acabam sentindo o tocar do outro como um “choque”.

Os MP3 nas ruas do Rio são os carros fechados das ruas de Los Angeles. Andamos em direção aos nossos destinos, ouvindo apenas o que delimitamos para nós mesmos, sem prestar atenção nos outros, tão parte integrante da humanidade como nós mesmos. E assim não ouvimos queixas; pedidos de ajuda, de dinheiro, por socorro...apenas concentrados em nossa própria música.

Hoje pela manhã, tirei os fones de ouvido e ouvi, pela primeira vez em muito tempo, os sons das ruas. Porque agora entendo que aquela manifestação sonora não era apenas “barulho”, e sim a multiplicidade dos sons dos passos de outras pessoas, que como eu, continuam a andar pelas ruas do mundo.

Um comentário:

  1. Eu morreria atropelada, um piano cairia na minha cabeça e me esqueceria do caminho se colocasse fone de ouvido na rua. Essas duas coisas ao mesmo tempo não combinam. É como mascar chiclete e subir escada: não da pra fazer simultaneamente. Como canta de forma esganiçada a Gal: é preciso estar atento e forte.

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