terça-feira, 23 de junho de 2009

João do Rio

Não sei se as crônicas de João do Rio são famosas fora do Rio de Janeiro. Na verdade, não sei se ele é realmente conhecido dentro do Rio; como sou jornalista, todos os meus amigos e conhecidos do trabalho sabem quem foi o jornalista Paulo Barreto, porque aprenderam na faculdade (a mesma que não precisamos mais cursar, se quisermos exercer a profissão de repórter, de acordo com recente decisão do Supremo Tribunal Federal - STF). Mas acho que, se perguntar para os meus pais, ou para minha irmã, que não são jornalistas, se eles conhecem João do Rio, creio que uma negativa seria mais provável. Por isso,creio ser exato dizer que a data de hoje, 23 de junho, 88 anos exatos após o dia de sua morte, teve pouca ou nenhuma repercussão nos meios de comunicação, hoje.

A primeira vez que li algo dele foi na faculdade. O texto era “A alma encantadora das Ruas”, e começava de forma lindamente poética, assim:

“Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia – o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.”

Interessada, li mais textos dele, e fiquei fascinada com a série de reportagens sobre os cultos africanos na virada do século, no Rio de Janeiro. Na época, fiquei abismada como textos como aqueles eram publicados em um jornal. Vamos ser francos: hoje temos jornalistas, cronistas, editorialistas e colunistas. Não há, hoje, um profissional de imprensa escrita que redija matérias líricas, mas ao mesmo com dose de pesquisa e reportagem. Uma matéria poética, por assim dizer.

Acho que tenho uma queda por textos literários na imprensa, e sinto falta disso nos nossos matutinos e vespertinos. São cada vez mais raros. Não estou falando de crônicas; os cronistas ainda existem nos jornais, admito. Mas aquele tipo de texto escrito por um repórter que apurou detalhadamente o tema, mas escolhe a via do lirismo para explicar para o leitor do que ele está falando.

Creio que os textos dos jornais, em prol da imparcialidade, estão cada vez mais secos e frios. E sinto saudade de um jornal mais caloroso.

Embora nunca tenha vivido na época do João do Rio, sinto saudades dos textos dele.

Ao descrever os cordões de carnaval, João do Rio tecia pérolas como dizer que o “o cordão é o carnaval, é o último elo das religiões pagãs, é bem o conservador do sagrado dia do deboche ritual; o cordão é a nossa alma ardente, luxuriosa, triste, meio escrava e revoltosa, babando lascívia pelas mulheres e querendo maravilhar, fanfarrona, meiga, bárbara, lamentável”

Na boa: tem descrição mais acurada do que essa para se descrever um bloco carnavalesco? Acho isso mais “New Journalism” do que qualquer escrito de Gay Talese...

Ouso dizer que, quando houve o propalado avanço do jornalismo imparcial (imparcial, claro, na teoria, porque vamos e convenhamos, jornalista imparcial é como Papai Noel: você quer acreditar que ele exista, mas no fundo sabe que aquilo é invenção), não se pensou muito também no que o leitor gostaria de ter em suas mãos, folheando os jornais diários. Aposto que, entre vários textos sérios e imparciais, o adepto da leitura dos periódicos gostaria de ter pelo menos uma opção de jornalismo fora dos moldes do “imparcial”.

Um pouco de poesia não faz mal para a vida de ninguém.

Um comentário:

  1. Interessante o que escreveu. Vou levar seu texto - com indicação da fonte, é claro - para o sítio da UniCarioca, onde escrevo sobre Literatura para todos os alunos, mas onde também dou aulas para o curso de Jornalismo. Sucesso! Albertina Ramos albertinaramos@gmail.com

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